Você se lembra?

09/07/2013 12:56

 

 

Tarde de inverno. Eu, sentado em uma mureta a esperar o sol dar seu último ar da graça naquele dia. Estou ao lado de dois garçons. Parecem desfrutar de um raro momento de folga. O sol vai embora de vez. Proponho-me então a pescar a conversa,  no mesmo momento em que um deles acende um cigarro. Ambos parecem ter entre 40 e 50 anos:

__ Você se lembra da década de 70, de quando tínhamos uma seleção fenomenal com Pelé, Rivelino, Tostão? Anunciavam que o Brasil era o país do futuro. O tal milagre econômico dizia o tempo todo que ninguém seguraria este país. Lembra disso?

__ Ôh, se lembro!                                                                                                                

__ E os estudantes que saíam protestando, gritando palavras de ordem e cantando coisas como “vem, vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

__ Quem cantava isso mesmo?

__ Sei lá...

__Tínhamos que tomar cuidado com a polícia, com as prisões, torturas, não é mesmo?

__ É. Inclusive soube de gente lá da minha terra que rodou.

__ Mesmo?

__ E na década de 90, a gente nas ruas, de cara pintada. Tempo bom, viu?! Foi legal. Lembro da turma toda se reunindo para sair da praça da rodoviária até chegar na prefeitura, de mãos dadas, rosto pintado e gritando “fora” para aquele presidente com cara de galã e caçador de marajás. Dizem até que fomos “massa de manobra” para partido político. Meu primo do sindicato adora dizer isso em almoço de domingo, depois que bebe umas a mais.

__ Certo. Podemos até ter sido, mas conseguimos tirar o homem de lá de cima, não é? Mas agora lhe pergunto: Você acha que agora o Brasil acordou?

__ Rapaz! Sei não. Estou achando que agora vai. Não tem mais aquela perseguição toda. Além do mais, a internet com o tal de facebook faz as coisas aparecerem na hora que acontecem. Deixa a gente por dentro de tudo. Fico bobo de ver, rapaz!

__ É mesmo. Só não vale quebrar as coisas dos outros que não tem nada a ver com o peixe, né? O pior é televisão que não passa as coisas como estão acontecendo como na realidade.

__ Vai entender... E aquele dono da FIFA falando que o Brasil perdeu a copa?

__ Pode até ser. Pelo menos ganhamos a capacidade de lutar pelo que é nosso, não é mesmo?

__ A gente chega lá...

O cigarro do garçom acabou. Os dois voltaram em direção ao restaurante. Com uma baita inveja histórica deles (sim, pois quem me dera ter vivido tudo aquilo), guardei o papel cheio de rabiscos onde anotei toda essa conversa que vos passo agora. Levantei-me e fui em direção a um café para tomar algo que me esquentasse o peito. Parecia que iria gear de tão frio na noite que vinha...

Dedico esta crônica a todos que tiveram e têm a coragem de lutar pelos seus direitos, sendo pelas redes sociais, na linha de frente, jogando papel picado do alto, ou de qualquer outra forma cidadã e democrática. E claro, respeitando o outro e o seu entorno.

Vida longa à consciência política!

 

(Eduardo C. Souza é professor de História e escreve mensalmente neste espaço. Ele acredita que, sim, o Brasil acordou e levantou de seu berço esplêndido).