Um Mergulho nos Textos Curtos

10/06/2011 20:33

 

As técnicas narrativas de piadas e textos humorísticos que surpreendem o leitor com sentidos inusitados

Sírio Possenti

"Para César, o Cielo é o limite" e "Cesar foi, viu e venceu" trocadilhos e sacadas verbais

Sabe-se que as técnicas fundamentais dos textos que chamamos de piadas consistem em permitir a descoberta de outro sentido, além do que é expresso no texto. De preferência, este segundo sentido deve ser inesperado, surpreendente, e quase sempre é bem diferente daquele expresso em primeiro plano e que, até o desfecho do texto, parece ser o único. Como, em geral, as piadas são breves, nada indicaria que se trata de textos que favoreçam a encenação da "polifonia". No entanto, este é um traço que as caracteriza. Freud elaborou uma tipologia bastante completa de tais técnicas, que de certa forma se resumem à condensação e ao deslocamento, mais tarde tratadas como metáfora e metonímia. 

Ricardo Piglia (Formas Breves, São Paulo: Companhia das Letras, 2002) apresenta duas teses sobre a estrutura do conto que valem para as piadas: a) contam-se sempre duas histórias (p. 89); b) a história secreta é a chave da forma do conto e de suas variantes (p. 91). Comentando a primeira tese, acrescenta que "o efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta aparece na superfície" (p. 90). 

As teses de Piglia são válidas para histórias policiais - romances, contos, filmes - e cômicas. Valem também para as piadas, embora, neste caso, ela deva ser modalizada, pois o final da "história secreta" não aparece na superfície: ele deve ser descoberto a partir de um indício, que, "analisado" pelo leitor/ouvinte, permite construir um segundo final. Vejamos isso em dois exemplos:

(1) "José visita seu amigo e leva consigo sua cadela Madona. A cadela entra e sai da casa do amigo, que fica tão incomodado que pede ao visitante: - Não deixe a cadela entrar na casa. Ela está cheia de pulgas. E o dono da cadela ordena: - Madona, não entre na casa! Ela está cheia de pulgas."

Duas histórias
Nesta piada há duas histórias. Uma, a que é contada na "superfície", deveria terminar com uma ordem do dono a Madona para que ela não entrasse mais na casa porque ela, Madona, está cheia de pulgas. Observe-se que a história contada na superfície não é, no entanto, completamente explícita. Todos achamos que é a cadela que tem pulgas porque é corrente um discurso segundo o qual cães abrigam pulgas. É um saber que faz parte de uma memória social compartilhada. Considerando este saber, todos entendem que o dono da casa acha (ou vê) que Madona está cheia de pulgas (e não quer que elas "caiam" da cadela e infestem sua casa). Por isso, pede ao amigo que ordene à cachorra que não entre mais na casa.

Este texto é uma piada porque permite outro final, que é inesperado, surpreendente: segundo o dono da cadela, é a casa que está cheia de pulgas, e ela não deve mais entrar para não ficar infestada. O que mais interessa, do ponto de vista das técnicas verbais da piada, é descobrir sua "chave", o "gatilho" que faz o leitor passar de um final (o esperado), a outro, o surpreendente. Para "entender" essa piada, o leitor/ouvinte deve dar-se conta de que o pronome "ela" (na "explicação" do dono da casa "ela está cheia de pulgas") tanto pode referir-se a "casa" quanto a "cadela".

Em resumo: há duas histórias, que funcionam segundo certas normas, invocando certos saberes compartilhados. Uma delas parece ser mais "normal" (a cadela infesta a casa de pulgas). A outra é surpreendente: a casa infesta a cadela de pulgas. Rimos quando nos damos conta de que esta história "subterrânea" é possível, neste texto, por causa da referência ambígua de "ela": sendo um pronome feminino e singular, pode relacionar-se a dois termos que aparecem antes na história: "casa" e "cadela". O riso decorre do prazer que causa uma construção bem "sacada"!

(2) "Quem aqui tem poderes telecinéticos? Levantem minha mão."

Como ocorre na leitura de qualquer texto, o conhecimento do léxico é importante. Para entender esta piada, é preciso saber - mesmo que sem muita exatidão - que telecinesia é o poder de mover objetos à distância (seria uma capacidade paranormal). 

O que faz este texto ser humorístico é, de novo, um final surpreendente. A primeira história terminaria com um pedido para que os que têm tais poderes levantem a mão, ou seja, se identifiquem. Este pedido é comum em certas circunstâncias (quem é a favor ou contra uma tese, quem torce para um time, quem foi à Europa etc.). Mas, neste caso, o locutor pede para certas pessoas que levantem a mão dele (e não as suas, as de cada um). Logo nos damos conta de que este pedido é uma espécie de desafio, compatível com o tema abordado, a telecinesia: se alguém tem tal poder, que prove, levantando mão de outro, à distância!  

Textos complexos
Este tipo de análise mais ou menos detalhada não vale só para piadas, é claro. Vale para slogans, por exemplo, mas também para outros textos breves. Em aulas, ou para mostrar características de textos destacadas por certas teorias, o melhor é selecionar textos "complexos". Por exemplo, os dois que seguem.

Quando o nadador brasileiro César Cielo venceu duas competições em campeonato mundial de natação (em meados de 2009), um jornal publicou dois pequenos textos que celebravam a façanha. Um era "César foi, viu e venceu". Outro dizia que "Para César, o Cielo é o limite". 

O essencial dos textos é sua relação com "frases célebres". César, o general e imperador romano, teria dito "vim, vi, venci", resumindo uma campanha militar que, narrada tão brevemente, pode ter parecido fácil (teria sido ele o primeiro publicitário?). A nota sobre a façanha de Cielo é feita com os materiais da frase de César: ele foi, viu e venceu. 

O efeito de sentido é que a façanha do nadador brasileiro é comparável à do general romano. Com uma pitada de sal, evidentemente, pois vencer uma prova de natação ainda não equivale, como feito histórico, a uma decisiva vitória militar. Pelo menos para a história do nosso mundo. O fundamental, na leitura deste texto, é dar-se conta da relação da frase do jornal com a frase antiga. Sem isso, o efeito de sentido seria apenas o de uma informação. 

Também "Para César, o Cielo é o limite" é um texto que se caracteriza por uma relação intertextual a ser descoberta e descrita: "o céu é o limite" é uma frase feita que significa que se pode ganhar muito ou que não se deve aspirar a pouca coisa, mas ter grandes ambições ou projetos grandiosos (foi nome de um antigo programa de TV no qual se podia ganhar uma pequena fortuna, sendo bem-sucedido numa determinada prova - que, hoje, se chamaria QUIZ). Enunciada relativamente ao nadador, que se chama Cielo, significa algo como "ainda pode vencer muito, pode ir ainda mais longe". A relação de seu próprio nome com "céu" indica este sentido. Além disso, pode significar que seu limite é ele mesmo, que não tem outros adversários à altura. Considerando que a natação é um esporte em que cada atleta disputa com outros, mas também tenta superar seus "tempos" anteriores, este sentido se destaca.

Sírio Possenti é professor associado do departamento de linguística da Unicamp e autor de Língua, Texto e Discurso (Contexto)
 
 

 

Fonte: https://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12234