"Só mais um mal moderno..."

21/05/2012 22:22

 

        

 

        Todos sentados em uma mesa de bar, quando a vontade apareceu apenas com o objetivo de estragar a noite. Suspirou. Comprou um maço e foi em direção ao isqueiro pendurado na porta. O vento era tão forte que quase não conseguiu acender o cigarro.

        Seu moletom quase não a protegia do frio. Os arrepios começaram. Havia neblina e a rua estava deserta, ela acendeu mais um cigarro. Um velho passou e a encarou no fundo de seus olhos, abanou a fumaça para longe de seu rosto e foi embora. Ela encheu seus pulmões de fumaça novamente. Não tinha gosto, não tinha muito menos sabor. O odor da fumaça não a incomodava mais, assim como nenhum outro odor, ela achava até agradável, aquela fumaça. Ela gostava de fumar, mas sabia que se tratava de um mau vício. Nesse momento, surgindo do nada, um pensamento começou a germinar em sua mente e a impossibilitou de dar mais um trago.

        Decidida, obstinou-se, sem necessariamente um motivo aparente, a simplesmente parar de fumar. Jogou sua cartela no lixo, assim como o restante do cigarro que acabara de acender. Olhou para os lados, suspirou. Arrependeu-se no momento em que entrou no bar. Respirou fundo e acabou inspirando a fumaça, alguém fumava lá fora. Percebeu então a necessidade, o vício se manifestando e implorando para ser nutrido. Foi embora.

        Tinha de subir uma ladeira de calçada estreita para chegar a sua casa, e não ousou terminá-la antes de três paradas, quase sufocantes, para recuperar o fôlego e descansar as articulações dos joelhos. A cada momento seu objetivo é mais evidente e estratégia mais clara.

        Juntou todas as suas roupas fétidas de fumaça, com aquele cheiro de vicio impregnado. Elas cabiam em uma mochila. Pegou as economias guardadas para comprar um carro novo, não era uma quantia exorbitante, mas o suficiente e guardou-as em uma bolsa. Passou pela minúscula cozinha com impressionantes quatro móveis e viu que Paulo estava sentado em uma das duas cadeiras. Ele lia o jornal do dia, tomava uma xícara de café preto fumegante, e não se preocupou em cumprimentá-la quando chegou e não iria se despedir quando ela saísse. Direcionou-lhe um breve olhar de esguelha curioso e ela simplesmente se aproximou e murmurou de forma quando inaudível:

         - Eu vou parar de fumar.

        Dormiu no sofá de alguém. Não queria suas antigas roupas, faziam-na lembrar de seus cigarros. Gastou todo dinheiro que tinha entre roupas, calçados e alguns meses de um aluguel barato em uma quitinete no subúrbio. Instalou-se no sofá e passou seu primeiro dia sem fumar, porém nutria uma vontade exaustiva de fumar. Conseguia até sentir o gosto do trago.

         Era seu sétimo dia sem fumar. No segundo, descobriu que teria de parar com vários outros vícios para extinguir um: o primeiro foi o café. O cheiro que invadia sua casa de manhã era o convite perfeito para um cigarro, com tragos lentos e com direito a muita fumaça. Vestiu sua melhor roupa, calçou seu melhor calçado, maquiou-se. Suspirou e saiu para o seu primeiro dia no novo emprego, onde trabalhava cinco horas por dia, quatro dias na semana,  e recebia o suficiente para se manter firme e se dar alguns luxos.

        Era seu trigésimo sexto dia sem fumar, e ela conheceu um homem que a chamou de moça, disse que seu sorriso era lindo, levou-a para jantar e fizeram amor. Ficaram juntos por exatamente trinta dias, durante os quais conseguiram estabelecer uma relação estável, daquelas com direito a flores, perfumes e bombons.

        Era segunda-feira, seu dia de folga. Acordou às seis da manhã cheia de disposição, sem pestanejar. Arrumou seu quarto, guardou roupas limpas e lavou as sujas. Era o sexagésimo sexto dia. Como já era de praxe, às oito da manhã o cheiro de café começou a invadir cada centímetro de sua casa e de toda vizinhança. Ela tomava seu suco tranquilamente. Tranquilamente. Por mais incrível que parecesse, ela não sentiu nada. Encarou o maço de cigarros dentro de um pote em cima da geladeira. Nada. Comeu um chocolate e sentiu cada pedaço derreter, sentiu todos os aspectos do sabor. Correu para o quarto e espirrou o perfuma que ganhara na véspera. O aroma era fantástico, não se lembrava de ter sentido algo tão maravilhoso. Não podia acreditar.

        Colocou um casaco, luvas e botas. Estavam no auge do inverno. Desceu as escadas correndo. Na verdade não tinha um destino definido e não tinha pressa, mas saiu. Cruzou a rua, desceu a ladeira, pediu demissão. Entregou a quitinete e vendeu seus móveis e roupas que estavam lá por quantia que realmente não importava. Ligou para o homem que a chamava de moça e disse que estava se mudando. Não, eles não podiam ficar juntos mesmo assim. Não, não havia nenhuma outra possibilidade. Não, ela não tinha outro homem. Sim, foi bom enquanto durou. Ela acabou entregando os pontos. O que ele não sabia era que ela havia parado de fumar.

        Foi ao bar onde decidiu, dois meses antes, parar de fumar. Pediu seu antigo emprego de volta: Servir drinques três vezes por semana durante a noite e limpar os salões pela manhã. O cargo foi-lhe devolvido de bom grado. Ela estava feliz como nunca havia estado antes, como nunca havia pensado em estar.  Mas ainda faltava algo, ela não sabia muito bem o que. Imediatamente, viu um jovem de cabelos negros e sem aliança em uma mesa próxima. Sem pensar duas vezes, beijou-o tão intensamente quanto possível, sentiu cada parte de sua boca, sua língua era maravilhosa. Acelerava e diminuía o beijo, queria experimentar todas as formas possíveis. Ela finalmente havia dado seu verdadeiro primeiro beijo.

        Foi para casa depois de seu terceiro primeiro dia de trabalho. Antes de sair, como já era de costume, comprou um maço de cigarros.

     Paulo não parecia ter se movido desde que ela saiu, há dois meses. Ele, dessa vez, olhou-a demoradamente, dos pés à cabeça. Ela devolveu o olhar. Aproximou-se devagar, seu sapato fazia tec-tec junto com os segundos que passavam.

        Sorriram. Despiram-se. Fizeram amor.

        Ela olhou Paulo nos olhos e, enquanto acendia um cigarro e depositava sua xícara de café na mesa, murmurou:

        - Eu parei de fumar.

        Esse foi o melhor trago de sua vida. 

 

Fernanda Moreira