Que tipo de homem: camelo, leão ou criança?

07/10/2013 17:46

 

 

O momento em que a sociedade se encontra é marcado por um paradoxo: prazer e falta de sentido. Trata-se de dois momentos fortes da história da humanidade. De um lado o ser humano busca satisfazer seu prazer, usando os recursos disponíveis, e por outro vive um profundo vazio.

O termo vazio deriva de niilismo que por sua vez vem do latim nihil e significa nada; é, também, uma corrente filosófica que, a princípio, concebe a existência humana como isenta de qualquer sentido. Foi popularizada primeiramente na Rússia do século  XIX , como reação de alguns intelectuais russos, principalmente socialistas e anarquistas à lentidão dos czares em promover as desejadas reformas democráticas. Porém, o assunto a ser trabalhado se dará na perspectiva do filosofo Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900). Para ele “o niilismo é aquilo em que estamos e como pensamos, é teoria de razão e lógica de decadência"1.                     

Para refletir sobre o niilismo nietzschiano, é necessário levar em consideração três transformações possíveis ao ser humano. O camelo, o leão e a criança. O camelo é o “homem de grande veneração, que se inclina diante da hegemonia de Deus, diante da proeminência da lei moral que se prosterna e transporta docilmente o seu pesado fardo” 2. Ou seja, o homem camelo tem como característica, o tu deves, obedecendo o sentido da vida ao que lhe é imposto, ele não é capaz de revoltar-se conta os fardos pesados que lhe é imposto.

Outro tipo de homem é o leão, próprio de quem descobre o eu quero e por isso lutar contra o tu deves, “nesse eu quero ainda existe demais desafio e rigidez, ainda não existe a verdadeira liberdade do querer criativo, ainda não chegamos a nós mesmos, no tesouro da nossa vida"3. Fazendo assim com que o homem que carregava o peso de uma tradição se torne imponente. Este processo se completa quando o leão se transforma em criança.

A criança representa a inocência e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação. Ela é inocente por ser incapaz de adequar sua conduta a preconceitos da mente humana, mas ao contrário ela vive e aceita a vida tal como esta lhe é apresentada.

Para falar dessa situação concreta que um número significativo de pessoas se encontram é importante destacar o processo de transformação apresentado pelo filósofo Nietzsche. Ao dizer eu quero não implica simplesmente em deixar-se influenciar pelas transformações técnicas e informações veiculadas nos meios de comunicação, mas é ter consciência do que realmente é desejado. Isso não implica em apenas dizer eu posso, mas é resultado de um processo que rompe com posturas próprias ao camelo e ao leão, e assumir a postura da criança que aponta para uma nova postura social, que expresse a vontade própria de cada, sem influências externas, sendo espontâneo e criativo.

 


1OLIVEIRA, Ibraim Vitor de. Tese de Mestrado em Filosofia. A irresistível provocação do nada. 1999. 103f. Dissertação (Mestrado em filosofia) Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. P.51.

2REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Vol III. São Paulo; Paulus, 1991, p. 436.

3 NIETSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. 4° parte: “O Homem Superior”, parágrafo II.

 

 

Evaldo Rosa de Oliveira é professor de Ética e Cidadania, 

Ensino Religioso e possui uma coluna mensal no site.