Que cheiro é esse?

08/09/2013 13:36

                                         

 

Aposto que você, simpático leitor, ao ler o título acima logo pensou nos flatos “incheiráves” a que nossas sensíveis narinas têm que provar em variados lugares como: cinemas, elevadores, salas de aula (!), shows, estádios de futebol, bares e afins...

Vamos combinar: Eu não chegaria ao ponto de escrever uma crônica sobre puns! Por mais que dê um alívio danado quando liberamos gases presos por longos períodos. O tema é bem mais profundo. Refiro-me aos cheiros que marcaram a sua, a minha, a nossa vida, desde os primórdios, até hoje em dia, parafraseando o Titãs. Sim, pois assim como as imagens, os cheiros tem papel fundamental em nossa formação. E olha que não sou nenhum terapeuta especializado para lhe afirmar isso.

 Vou começar aqui tentando listar os cheiros da minha existência. Sugiro que você faça o mesmo ainda hoje. Confesso que foi delicioso e produtivo botar a caixola pra funcionar. Vieram lembranças maravilhosas.

Vejamos agora minhas toscas, porém relevantes estórias: A minha primeira lembrança dos cheiros do passado remonta à minha infância, quando fui à praia pela primeira vez. Quando lá cheguei, pisei na areia e olhei aquele mar infinito. Senti algo único. E o cheiro daquele momento- juro- ficou em minha memória desde então: Era areia, mar, maresia, protetor solar ou tudo misturado... Só sei que quando volto em alguma parte do litoral e sinto o que penso ser o mesmo aroma, chego a arrepiar. Sinto que me invade a alma. Se eu pudesse criar uma categoria para isso, diria que o que senti foi cheiro de mar. É isso.

Outra memória de infância ocorreu-me outro dia quando estava em uma reunião de trabalho. Quase tive um baque, pois me veio na memória o cheiro das mãos de minha professora dos tempos do Fundamental I. Foi digno de filme. Aquelas mãos negras, unhas fortes, meio sujas de giz e um cheiro de cigarro misturado. Engraçado que ela era extremamente discreta e eu só soube que aquele cheiro era de cigarro tempos depois, quando liguei os fatos. Não vou dizer que o cheiro era ruim ou delicioso. Apenas marcou, e muito, meu tempo de escola primária. Para essa categoria, diria que é um cheiro de escola primária.

Estou muito saudosista ou viajando na maionese? Pode até ser, mas concorda que este texto trata de lembranças? Então vai mais uma: Citarei mais um cheiro que me faz suspirar. Desculpem-me mas não escondo e nunca esconderei minha paixão por carros. Suas linhas, curvas, cores, materiais combinados, roncos de motor, e cheiros me fazem arrepiar. Quando pequeno, meu vizinho levou-me para passear em seu Maverick. Era cinza, com calotas prateadas. Não tinha sob o capô nenhum coração V8, mas foi tão lindo que considero até hoje uma experiência extraterrena. O cheiro daquele carro me inebriava. Não sei o que era: se a napa (que imitava couro preto) dos bancos, o plástico do painel misturado com algumas partes de tecido costurado nas portas, a borracha dos tapetes ou seu velho carpete. Também talvez a mistura de tudo isso. O fato é que esta miscelânea de sentidos não saiu mais da minha mente. E para esta categoria, diria que é um cheiro de carro antigo. O que é paradoxal, porque hoje em dia onze entre dez motoristas querem um cheiro de carro novo. Estou errado? Então acho que estou na contramão da história... Mas feliz com “meu cheiro”.

Mas, carros à parte, quero dizer com tudo isso que muitas vezes somos pegos pelos sentidos e nem sempre estamos atentos a estas doces armadilhas do tempo. Podemos e devemos tirar proveitos deles para sermos pessoas mais sensíveis. Sem neuras, homens! Sensibilidade, neste caso, não rima com feminilidade. Devemos ser mais sensíveis, sim. O cenário atual e este mundo cão andam implorando por mais sensibilidade e isso não nos torna menos homens.

Para finalizar, desejo a homens e mulheres do mundo ótimas lembranças dos cheiros das suas existências. Bom cheiro de vida pra você!!

Abraço cordial!!!

Desejo esta crônica à professora Lourdinha do primário e ao Senhor Edílson, do lendário Maverick.

 

(Eduardo C. Souza é professor de História e escreve mensalmente neste espaço. Ele sugere que você “dê ouvidos” aos seus cheiros mais vezes).