Quase Cinderela

09/09/2015 18:34

 

“Á meia-noite”, sempre à meia-noite. Acho que meu pai tem complexo de madrinha da Cinderela ou ache que eu seja uma, a donzela indefesa que precisa de um príncipe para ser feliz e que deve voltar à meia-noite para não perder o seu encanto. Talvez ele queira que eu seja assim. “Vou sair às onze pai, relaxa que eu volto de táxi”. Sempre a mesma discussão, toda sexta-feira, ou quinta... “Deixa a menina, Juca!” ouço minha mãe dizer assim que fecho a porta. “Essa menina ‘tá’ com algum ‘rolo’ pra ficar saindo esse tanto” desconfia meu pai. “E se estiver, ‘tá’ mais do que na hora dela namorar”. Enquanto minha mãe está doida pra ter um genro, meu pai não quer nem sonhar com a hipótese.

“Mari, ‘tá’ pronta?” visualizo a mensagem enquanto passo o batom. “Pode vir, tô pronta”.  No carro fazemos planos sem programação, falando em códigos para não correr o risco da pessoa errada entender. Depois disso, tudo que me lembro é de chegar no bar, sentar em uma mesa no fundo e pedir uma bebida para esperar os outros. Assim que chegam, o jogo começa. Você vira uma, fulano vira outra e assim vai por um bom tempo, entre risadas, karaokê desafinados com as músicas favoritas do bar e danças sem ritmo sem se importar com quem veja. Um flerte aqui, outro ali... e quando só outras pessoas como nós continuam nas ruas, fechamos a conta e vamos para fora contar histórias, criar novas aventuras, dançar como um grande baile feito só por nós e apenas para nós. O tempo passa mais rápido do que consigo me lembrar, e os planos feitos em códigos acabam sendo mudados, no fundo é mais divertido assim, até porque nunca quero terminar a noite como meus pais falaram que seria: o encanto se transformando em ratos e abóboras velhas.

Converso com o nem-tão-encantado ignorando os comentários da corte que nos cerca, tentando nos fazer ficar envergonhados, mas tudo não passa de uma brincadeira. E assim rimos da nossa própria valsa até que as estrelas comecem a parecer menos brilhantes e o céu mais claro, perco um número de telefone, talvez seja meu, talvez algum avulso. Vou para casa, abro a porta com muito cuidado para não ecoar nos outros andares e não acordar os reis que ficam com o sono leve esperando sua filha chegar. Sorrateiramente fecho a porta do quarto, jogo meus sapatos de camurça preta em qualquer canto, me jogo na cama rindo e adormeço pensando: “não estou pronta pra deixar de ser uma anti-princesa”.

 

Recomendo ouvir durante/depois de ler essa crônica Fluorescent Adolescent- Arctic Monkeys.

 

 

Maria Letícia, é uma jovem escritora, amante das artes e, na literatura especificamente, de autores como Alphonsus de Guimaraens e Vinícius de Moraes.