Procura-se um poeta (The Old Songs)

12/03/2014 20:06

 

 

Numa dessas sextas-feiras nubladas de Ouro Preto, estava eu e minha mãe ,no carro, ouvindo November Rain do Guns. Era um desses DVD’s de músicas dos anos 70/80 que eu gosto tanto. Essas músicas antigas sempre me emocionam, sempre me parecem excepcionalmente sinceras. De toda forma, eu não poderia deixar de falar o meu comentário clássico sobre essas músicas: “É mãe, esse povo da sua época eram apaixonados demais”. Minha mãe concordou sorrindo e eu soltei o minha frase de vó rabugenta: “Hoje em dia não existe mais isso não. Parece que a música faz a geração, e a minha é pura... (O resto dessa frase foi censurada por eu mesma )”. Minha mãe sorriu de novo, mas dessa vez discordou: “Na minha opinião, a geração faz a música”. Concordei e ela continuou: “Na minha época, era muito mais difícil namorar e, principalmente ver e conversar com a pessoa amada todos os dias. Eu só conseguia ver seu pai, por exemplo, nos fins de semana. Passávamos a semana inteira longe um do outro. Quando conseguíamos nos comunicar, no meio da semana, era pelo telefone: eu, no orelhão; ele, no telefone de casa e da empresa do pai. Não demorávamos não, porque ele tinha que voltar a trabalhar. Mas, quando chegava sábado, eu passava a tarde me cuidando para, no horário marcado mais à noite (ele sempre pontual), ficar, na varanda, esperando-o virar a curva para minha casa. Ele vinha vestindo uma roupa mais formal: calça jeans e blusa social, bem cheiroso, barba feita.... Passávamos o tempo juntos, matando a saudade e, quando chegava a hora dele ir embora, a saudade batia novamente. E ficávamos assim, mas, de certa forma, foi bom, já que aprendemos o que é sentir saudades um do outro”. Não é porque são meus pais, mas sempre achei que eles formavam um belo casal.

Mas, voltando ao assunto das músicas, talvez seja por isso que as músicas antigas parecessem tão sinceras, porque eram. Eles realmente sabiam o que era saudade, o que era viver sem o(a) seu (sua) amado(a). Além de que tudo era mais respeitoso e mais recatado do que hoje.

Meu sonho é que voltem a existir esses poetas, capazes de canalizar toda a sinceridade do amor, da paixão, da saudade, do desejo discreto e puro, em apenas uma música. Esses poetas são raros, mas eu sei que existem, estão escondidos por aí, sem espaço para o mercado musical ou com pouco espaço, já que o que mais vende são músicas “vulgares” e que duram alguns meses no rádio. Músicas imediatas, assim como é a minha geração. Tudo muito rápido e com falsa intensidade.

Queria uma máquina do tempo que me permitisse viver nos anos 80, onde não só as músicas eram mais sinceras, mas as pessoas também. Mas, já que não posso, lanço uma campanha: PROCURA-SE UM POETA. Aliás, PROCURAM-SE VÁRIOS POETAS que sejam capazes de sentir saudades, sofrer de verdade com um rompimento, amar intensamente, que a única coisa que queiram de imediato é ver o sorriso no rosto amado e, assim, poder voltar a dominar as playlists com músicas sinceras, que, ao ouvir, me deixam com lágrimas nos olhos.

 

Esta música, a primeira vez que a ouvi junto ao seu clip simples, me emocionou com sua simplicidade e sinceridade. O seu nome é The old songs, e é a minha recomendação de hoje. 

 

 

Maria Letícia Nolasco é aluna do CAOP e escreve mensalmente neste espaço.

Confira outros textos da autora no link: Coluna da Maria Letícia.