Pontos de vista alternativos

02/06/2012 14:23

Técnicas de Escrita

Experiências mostram como escapar da monotonia de escolher entre a 1ª e a 3ª pessoa para narrar uma história

Braulio Tavares

 



Qualquer manual literário dirá ao futuro escritor que uma narrativa de ficção geralmente é narrada ou na 1ª pessoa ("Eu acordei naquele dia com dor de cabeça...") ou na 3ª ("Antonio acordou naquele dia com dor de cabeça..."). 

Cada uma delas tem vantagens, limitações, recursos e, principalmente, uma certa aura indefinível que impregna cada frase e que muitas vezes o leitor (em certos casos até o autor) não percebe com clareza.

Há muitos exemplos de histórias que estancam, não avançam, recusam-se a ser escritas, até que o autor resolve trocar a narração da 1a para a 3a pessoa (ou vice-versa) e daí em diante a narrativa flui que é uma beleza.  

Autores principiantes preferem escrever histórias na 1ª pessoa, em geral com personagens que se assemelham a eles próprios. Um exercício muito usado em oficinas literárias é obrigar o aluno a usar um protagonista de outro sexo, com metade ou o dobro da idade dele próprio, morando em outro país ou em outra época. Para quê? Para obrigar o escritor a adotar outros pontos de vista, colocar-se no lugar de pessoas diferentes de si. 

Pintores e músicos não precisam necessariamente saber fazer isto; atores e escritores, sim. Há, no entanto, alternativas à escolha de narrar uma história apenas em 1ª ou 3ª pessoa do singular.

 

 

A 1ª pessoa do plural

Escritores como Cortázar exploraram as possibilidades do narrador "nós"
 

Cortázar: exercícios criativos com contos na perspectiva do "nós"
A alternância monótona entre essas duas opções (1a ou 3a pessoa) leva muitos autores a tentar experiências diferentes. Julio Cortázar, por exemplo, tem vários contos narrados do ponto de vista da 1ª pessoa do plural, "nós". 

Em "História com aranhas", a narração é feita no plural por essas protagonistas que nunca enxergamos: 

"Chegamos às duas da tarde no chalé... (...) Ficou combinado que ficaremos por dez dias, e pagamos adiantado. Abrimos as valises e tiramos o que precisamos para ir à praia. (...) À noite, enquanto guardávamos a roupa e arrumávamos as provisões compradas em Saint Pierre, ouvimos as vozes de quem está ocupando a outra ala."  

O outro chalé está ocupado por duas moças que as narradoras descrevem a distância, mas elas próprias, esse "nós" invisível que conta tudo, escondem-se por meio de verbos cuidadosamente impessoais, algumas alusões macabras a episódios recentes, até o desfecho em que sua verdadeira natureza, se não se revela, pelo menos se insinua com clareza pela primeira vez.

Em "Cefaleia", Cortázar mais uma vez recorre ao "nós" narrador que, curiosamente, provoca um efeito de despersonalização, porque todos os verbos precisam referir-se a ações coletivas, que possam ser praticadas por essas pessoas que não têm rosto, não têm nome, não têm sexo. Não são vistas de fora como um "ele" nem se revelam com a nitidez de um "eu". 

 


A 2ª pessoa

O uso do olhar de um "você" que é índice de indeterminação do sujeito
 
Muito comum nas últimas décadas tem sido o uso da narrativa na 2a pessoa, um "você" que em muitas circunstâncias consegue produzir um efeito de identificação com o leitor, por mais inesperadas ou fantásticas que sejam as ações descritas. 

"Você salta do táxi na esquina de uma rua mal iluminada, paga, espera que ele se afaste... Anda mais vinte metros, atravessa, entra por uma ruazinha lateral, onde se detém diante de uma porta. A rua está deserta, mas mesmo assim você tem a precaução de olhar para os lados antes de puxar do bolso a chave que recebeu pelo correio num envelope sem remetente; e é com uma contração na garganta, e um tremor de expectativa, que sente a chave girar na fechadura, e a porta se abrir para um vestíbulo à meia-luz onde um quadro a óleo pendurado na parede, entre duas velas acesas, lhe provoca a primeira surpresa, o primeiro susto."

A mesma história poderia ser narrada na 1a ou na 3a pessoa; talvez o uso do "você", mais do que levar o leitor a imaginar que é ele próprio que está executando aqueles gestos, crie, pelo que tem de inusitado, um clima de insegurança, de um território onde as leis parecem ser ligeiramente diversas daquelas a que o leitor está acostumado.


A 3ª pessoa do plural

Autores como George Perec criaram histórias narradas por um "eles"
 

Perec: ousadia de contar uma história sob a ótica do "eles"
Experiências assim são mais frequentes no conto do que no romance, talvez porque textos de menor extensão, com menor variedade de situações, facilitem o trabalho de quem maneja um instrumento pouco usual. 

George Perec tentou  em As Coisas (1968), seu romance de estreia, uma experiência de 3ª pessoa do plural, "eles", ao contar a vida cotidiana de um jovem casal francês. Os desdobramentos da narrativa o levam a acabar identificando os dois (Jerôme, Sylvie) e a descrever ações isoladas de um e do outro; mas ao longo de mais de 130 páginas o autor consegue referir-se aos dois quase sempre no plural, além de fazer outra experiência com os tempos narrativos (há trechos no passado, no presente, no condicional, no futuro). 

 


Reviravoltas na tradição

É possível criar surpresas com os pontos de vista tradicionais, como os das histórias narradas na 1ª pessoa do singular
 

Budrys: reviravoltas na 1ª pessoa
A 1ª pessoa também pode proporcionar reviravoltas surpreen­dentes, como no desfecho do romance Hard landing (1993), de Algis Budrys, em que o narrador é sequestrado e levado para um lugar deserto: 

"Henshaw desligou o motor e olhou para mim. (...) Abriu sua maleta, tirou uma seringa e a encheu com o conteúdo de um pequeno frasco. 'Cianeto', disse ele. 'Vai matá-lo depressa'. (...) Senti a agulha entrando em meu braço, e logo em seguida eu estava morto. Henshaw me arrastou para fora do carro, e o levou para mais longe. Depois pegou duas latas de gasolina, encharcou meu corpo, e riscou um fósforo."

É um exemplo perfeito do domínio da técnica e da ruptura de uma regra técnica, a serviço da arte da narração.

Fonte: https://revistalingua.uol.com.br/textos/78/artigo255308-1.asp