Perdoar = esquecer?

15/05/2014 19:31

Já escrevi sobre as memórias. Exaltei-as tanto que vou acabar me contradizendo neste texto. Mas você, querido leitor, sabe perdoar? Perdoar de verdade, deixar todas as mágoas de lado e ignorar o que a pessoa já te fez? Eu não.

Percebe que eu não disse “esquecer o que a pessoa te fez”, mas sim “ignorar”. É impossível você esquecer algo que alguém tenha te feito e tenha te magoado (a não ser, é claro, que sofra um sério acidente cerebral). Ainda assim, pra mim, parece mais fácil esquecer do que perdoar. Não sei como as pessoas conseguem perdoar e continuar lembrando do mal que a pessoa te fez cada vez que olha pra ela. Eu sei que vai ter umas pessoas que vão falar que as coisas boas compensam e que é só questão de tempo pra perdoar. O problema é que o tempo não espera a minha boa vontade e a minha maturidade evoluir para eu poder perdoar.

Eu queria, muito mesmo, perdoar às pessoas, ignorar igual as outras pessoas fazem. Mas o maior problema disso tudo, é que, quem te magoa, é alguém a qual você se dedicou emocionalmente.

Uma vez, uma pessoa muita próxima de mim foi se confessar. O maior “pecado” dessa pessoa era não conseguir perdoar, esquecer o que as pessoas haviam lhe feito de mau, e o padre lhe disse o seguinte: “Perdoar, não é esquecer. Somos humanos, sentimos raiva, sentimos medo, desespero. Você não vai esquecer, a não ser que tenha amnésia. Você vai apenas deixar pra lá, ignorar, fingir que esqueceu. Não vai olhar para a pessoa e ver as coisas ruins, mas sim as boas. Vai tratar essas pessoas bem, de forma educada, nunca com raiva ou desejo de vingança. Isso é perdoar”. Não esqueço até hoje de como essa pessoa, próxima de mim, parecia aliviada, pois ela sabia que, então, já havia perdoado, que aquela culpa que sentia por não esquecer, não tinha mais sentido. Queria me sentir assim também.

Não que eu olhe para alguém e pense: “Você é um belo de um ignorante” (é a pior ofensa que consigo pensar sem precisar de recorrer aos famosos “palavrões”. Dito isso, todos vocês sabem o que eu realmente queria dizer). Não que, também, tenha tratado essas pessoas mal, de forma grosseira. Mas, todas as vezes que olho ou lembro dessas pessoas, por alguns segundos de ouro, consigo lembrar apenas das coisas boas, mas depois eu lembro, lembro de como me magoaram. Por favor, não pensem que minhas mágoas são coisas como “uma apaixonite não correspondida” e esses “melodramas aborrecentes”, nem eu suporto isso. Se bem que eu preferia que fossem. Mas já chega de falar sobre mim (5 parágrafos já foram mais que o suficiente).

O que eu quero dizer depois desse (quase) desabafo, é que perdoe, e, se for preciso, finja ter amnésia. Sabe esse peso que, depois de se ouvir um sábio conselho de um padre, aquela pessoa do quarto parágrafo sentiu desaparecer após perceber que havia perdoado? Deve ser ótimo senti-lo. Experimente.

A música que vou recomendar junto à esse texto, é Wish You Were Here do (perfeito) Pink Floyd. Alguém provavelmente vai pensar “mas o que essa música tem a ver com o texto?”.  Assisti uma vez uma entrevista com alguns membros da banda e eles foram falar sobre essa música, a minha favorita deles. Eles disseram -não com essas palavras- que o mais interessante dessa música, é que ela não possui apenas um sentido, mas sim vários, e que cada um atribuía à música o sentido que melhor interpreta quando a escuta. No meu caso, eu atribuo o sentido de que: mesmo que as pessoas nos magoem, mesmo que passemos a sentir raiva delas, ou que (como eu) não consigamos perdoar, continuamos a amar essas pessoas.

 

 

Maria Letícia Nolasco é aluna do CAOP e escreve mensalmente neste espaço.

Confira outros textos da autora no link: Coluna da Maria Letícia.