O Vento Fala?

27/12/2012 15:57

 

  Há pouco tempo eu pensava que não, mas pude aprender que sim. Muitos dizem: “Esse cara está ficando é louco”; “Coitado, ouvindo o vento”... No começo eu achava meio estranho isso, mas com o tempo foi fazendo sentido.

  Sempre fui muito durão, não me emociono por nada. Mas o tempo passa, aprendizado vem, experiências ficam, e fui ficando só, sem ninguém pra desabafar. Foi assim que comecei a ouvir o vento. Vou lhes contar uma história:

  Em certo dia que não me recordo, estava eu ali prestando atenção na professora e olhando o céu, até que me chega uma mensagem: “O vento já falou com você hoje?”. Foi meio que estranho isso, mas respondi assim: “Não! Por quê? Ele falou com você?”, bem rápido ela respondeu: “Sim, ele fala comigo todos os dias.” Nisso eu fiquei pensando: Como ela pode ouvir o vento? Perguntei com um espírito meio que sarcástico: “O que ele falou com você?”. Ela bem esperta disse: “Ele me fez bem, me fez ter uma esperança... Esperança de um mundo melhor!”. Logo pensei comigo: “Mundo melhor? Acho que ele mentiu nisso!”. Mas tentando brincar com ela, eu disse: “Como posso ouvi-lo também?”. Ela disse: “Sinta-o, ouça-o”. Eu não entendi, mas continuei a brincadeira: “Acho que não fui sensível o suficiente pra senti-lo ao ponto de ouvi-lo.” Ela disse: “Você não pode entender essa linguagem.”. Logo brinquei com ela: “Eu estudo inglês, espanhol, hebraico e conheço um pouco do grego. Isso não é suficiente?”. Ela respondeu: “Não, você tem que entender a linguagem universal.” Mudei de assunto, mas isso ficou na minha mente.

  Eu sou um jovem muito curioso, gosto de conhecimento histórico e filosófico, gosto de sociologia, gosto de aprender. Por isso fui me afastando um pouco das pessoas, talvez por não concordar com o que fazem, prefiro me resguardar do que ficar debatendo  tudo (apesar de eu amar um bom debate). Reflito, analiso, debato comigo, fico nervoso por ver as pessoas quebrando a cara por não ter o mínimo de bom senso de parar e pensar um pouco no que fazem. Por isso fico mais isolado, mas isso acaba comigo. Leio muito, pesquiso muito, aprendo muito e isso só vai piorando a minha mente. Por quê? Por não ter ninguém por perto que me entenda.

  Logo me lembrei do que ela disse: “Já ouviu o vento hoje?”. Parei, me isolei, meditei...

Opa! O que foi isso? Senti uma coisa diferente. Senti um vento passar, e minha alma se alegra! Achei aquilo estupendo. Daí em diante comecei a focar em pequenos detalhes que passam despercebidos. A cada dia que passava eu o sentia, mas decidi não só ouvi-lo, comecei a conversar com ele. Sabe o que é legal? Tudo que eu dizia a ele me respondia de uma forma sábia em que eu ficava maravilhado com tal sabedoria. Isso foi ficando cada vez mais legal, ainda mais que eu o ouvia e via sua fisionomia no céu.

  Um dia ela me chamou para encontrá-la, só que eu não fui. Preferi deixá-la com quem ela realmente gostava. O vento passou e disse para eu ir ao encontro dela, só que eu não fui. Preferi ir ler um bom livro. Ao sair de casa vi que o céu não estava muito alegre, percebi que o vento estava bravo por eu não ter ido vê-la. Fui para um lugar que eu gosto muito, comecei a pensar e observar o céu. Achei uma coisa estranha, de um lado estava lindo, de outro parecia as trevas se aproximando. De repente o vento ficou furioso, as trevas se aproximaram, e eu ali, parado querendo entender o vento. Minha mochila quase que saiu das minhas costas de tanto que o vento estava nervoso. Só que eu não o entendia. Foi então que percebi: como eu estava meio triste por não ter ido ao encontro dela, eu não conseguia concentrar em meus pensamentos. Foi então que percebi que não era o vento que falava, vi que era só minha mente dizendo o que queria.

  Isso foi muito estranho, lembrei de uma música da Cássia Eller que diz assim: “Bobeira é não viver a realidade”. A realidade é formada por nós mesmos. As palavras estão no ouvido de quem quer ouvir, o que eu ouvia era o que eu queria ouvir. Então você que está lendo esse texto deve estar pensando: O vento não falou com ele. Mas eu digo que sim, foi ele que me fez pensar nisso tudo que eu disse, foi ele que me fez refletir que eu preciso ouvir as pessoas, foi ele que me mostrou que não sou nada sem ninguém.

  A vida é assim! A loucura da sabedoria nos torna pessoas mais sensíveis com o que está ao nosso redor. Eu digo a você, caro leitor, já ouviu o vento hoje? Se não, tente ouvi-lo!

 

Marco Túlio Paim Ribeiro