O samba de Aroldo

02/02/2018 15:30

 

Aroldo era um garoto esperto. Adorava o carnaval, especialmente o desfile das Escolas de samba. Todos os anos, ia com sua mãe prestigiar o evento. Lá na sua cidade, os desfiles ocorriam no sábado.  Existem duas lendas quase verdadeiras sobre os desfiles e as Escolas de samba: Torcer por tal Escola de samba é como torcer por um time de futebol: “Não se muda a camisa!”, dizia seu primo Caio. E os desfiles são como a noite de Natal: Se o Papai Noel demora a aparecer, tendemos a cair no sono. Assim o é com sua Escola preferida.

Essas máximas eram seguidas por Aroldo. A ordem dos desfiles era aleatória todos os anos. Ultimamente, sua Escola, A Império do Morro Santana, ficava sempre entre as últimas na noite.

- Mas quero ver a pomba passar toda linda e branquinha! -  pensava o garoto

E o sono tendia a pesar. Como fazer para espantá-lo? Comer, beber e andar. Claro! Mas aí, residia um grande problema: Sair para comprar comida, bebida e para ir ao banheiro, significava perder o lugar na corda que separava Aroldo de sua escola de samba do coração.

Helena, a mãe do garoto, ia com toda paciência do mundo ao evento. Segurava sua mão, avisava a ordem do evento, balançava sua mão quando o sono teimava em ficar. Mas seu verdadeiro temor era quando Aroldo pedia as “coisas proibidas”:

- Mãe, quero comer um misto quente e beber um guaraná.

O dinheiro já estava reservado. O temor seria sair com o menino para buscar as coisas, ouvi-lo dizendo que queria ir ao banheiro e perder o lugar na corda. Ou pior: Sair, voltar e não encontrar o seu filho no local.

Então não havia dúvidas: deslocar-se era sinônimo de perder a vaga. E lá iam eles dois, a procurar um banheiro químico mais próximo para alívio do garoto.

E a fila teimava em não andar! E o tempo passava lento ali naquele local com odores nada agradáveis. De repente, o narrador anunciou: É agora, pessoal! A Império do Morro Santana vem aí na Praça Tiradentes!

- Mãe! A escola já vai começar! Vamos, Vamos!

A fila ainda arrastava. O garoto colocava as mãos na região genital a apertar o local, como quem segura o xixi. Os primeiros tambores e repiniques agitaram o povo! Os foguetes anunciando a pomba alva estouraram no céu daquela praça colonial. O povo se agitou. Aroldo não pensou duas vezes: abaixou a bermuda xadrez ali mesmo, abriu as pernas para não molhar seu kichute novinho e respirou aliviado, tendo o líquido a escorrer nas pedras do calçamento da praça. A mãe, sem ter o que fazer, apenas olhou a cena e padeceu no paraíso, como diziam ser o papel delas no mundo.

Depois do fato consumado, correram de volta para a corda, a implorar um lugarzinho que fosse para ver a Escola do coração. Bem a tempo. Aroldo pôde visualizar a comissão de frente chegando pertinho de seus olhos, com aquelas mulheres e seus trajes ousados. A primeira ala, que linda, toda colorida, representando a natureza.

- As baianas, mãe! Lembra quando vovó desfilava? E essa ala com um monte de gente de branco, que não entendo!

E a mãe, a curtir a alegria do moleque, sorria por dentro. A bateria estremecia o chão de tão potente! Chegava a arrepiar os cabelos do braço de Aroldo. E lá vinha ela, a pomba branquinha. Naquele ano, até uma luz especial a iluminava. Brilharam também os olhos do garoto.

E assim era, todos os anos, no sábado. O abre alas do carnaval, abria os olhos e o coração daquele menino, a segurar na corda da praça, como quem segura uma última corda de um navio naufragando, para ver sua Escola de samba preferida. Que aliás, conseguiu o título naquele ano. 

 

 

Eduardo C. Souza  é professor de História, 

escritor romancista, contista e cronista. 

Escreve mensalmente neste espaço. 

 

 

Eduardo C. Souza  é professor de História, escritor romancista, contista e cronista. Escreve mensalmente neste espaço.