Os Opostos do "Mas".

02/06/2012 19:41

 

 

Responsáveis por relacionar ideias contrastantes, as conjunções adversativas nos ajudam a ver que o sentido é uma construção cultural

Sírio Possenti

 



 

Este texto é motivado pela carta de uma leitora. A professora diz, em resumo, que não se deveria começar orações com "mas", porque as conjunç

ões adversativas "unem orações sindéticas adversárias". Não vou fazer propriamente um debate com a autora da carta, mas aproveitar o pretexto para tratar de dois aspectos do tema. Um é sobre a posição da conjunção "mas". Outro, sobre o funcionamento da adversativa. 

Antes, uma questão teórica: a definição de "adversativa". As gramáticas tratam precariamente das conjunções. Gastam menos de uma página com cada uma delas, e os exemplos que fornecem são pouco representativos. Em geral, são os mais simples. O efeito é que simplificam os fatos! 

Em três gramáticas que consultei, a posição do "mas" é sempre descrita da mesma forma: entre duas orações coordenadas simples e breves. Mesmo assim, a questão merecerá um comentário. 

Vejamos as definições das gramáticas. Bechara diz que as adversativas "enlaçam unidadescoordenadas". Cunha e Cintra, que "ligam dois termos ou duas orações". E Rocha Lima, que "relacionam pensamentos contrastantes". Observe-se a diferença na identificação das entidades relacionadas: unidades, termos ou orações, pensamentos. Por que não só "orações"? Já veremos. 

Consideremos um dado, o início de um texto de Luis Fernando Verissimo: "Alguns dizem que é o envelhecimento, outros que é a morte, ainda outros que é o egoismo ou o chulé, mas eu acho que a maior danação que Deus legou ao homem foi a danação de Babel". A preposição "mas" enlaça, liga ou relaciona uma oração ("mas eu acho", etc.) a outras três, que a antecedem. 

Unidades
Uma forma de lidar com o dado seria perguntar se a redação está correta, em termos normativos. A resposta dependeria da gramática seguida. Para Cunha e Cintra, o texto começa mal, porque "mas" não liga dois termos ou orações. Mas a resposta será outra se seguimos a tese de que a conjunção enlaça unidades coordenadas ou relaciona pensamentos contrastantes (comecei este período com "mas" de propósito). Falta esclarecer que as unidades ou pensamentos podem ser múltiplos, como os que precedem "mas" no exemplo. 

Outra atitude seria considerar o texto como um fato indiscutível (há outros mais "radicais", como veremos adiante) e, a partir dele, avaliar as gramáticas - elas devem explicar os fatos da língua, afinal. Uma das conclusões seria que Cunha e Cintra erraram sua análise das adversativas e os outros dois gramáticos apresentam uma doutrina muito vaga: o que são unidades e pensamentos? Devem corresponder a períodos simples (e breves) ou podem corresponder até mesmo a diversos parágrafos, que podem representar um "pensamento" ou "unidade", em oposição aos quais "mas" coloca outro pensamento ou unidade? 

Divisão
Um parêntese: consultei um jornal do dia (Folha de S.Paulo de 28/12/2011) para ver se encontrava "mas" no início de parágrafos. No primeiro editorial, há uma ocorrência de "todavia" no início do quinto parágrafo (são conjunções sinônimas). Deve-se entender que o parágrafo se opõe a tudo o que foi dito antes dele. "Todavia" divide um texto em duas partes: tudo o que o segue se opõe a tudo o que o antecede. No caso, os primeiros parágrafos fornecem dados favoráveis ao Brasil. Do quinto parágrafo em diante, apresenta-se uma série de problemas. 

No segundo editorial, há uma ocorrência de "mas" no início do oitavo parágrafo, que introduz um contraste em relação ao sentido dos sete parágrafos anteriores. De fato, "mas" introduz quatro parágrafos! Resumindo, opõe quatro parágrafos aos sete primeiros! Divide o texto em duas partes, como "todavia".

Contraste
Em resumo, as conjunções adversativas têm a seguinte propriedade: marcam algum tipo de contraste entre uma parte do texto e outra. Quando o texto equivale a período com duas orações, a conjunção opõe estas duas partes. "Faz frio, mas vou sair" é um texto no interior do qual há dois "pensamentos" contrastantes que equivalem a duas orações breves. Mas o texto pode ter outras estruturas: pode ser como o de Verissimo (um período com diversas orações antes do "mas" e uma depois), e pode ser como os editoriais (dividido em duas partes com diversos parágrafos cada uma). 

"Mas" é uma conjunção que faz coesão entre partes de textos e não apenas uma conjunção que constrói períodos compostos. Se encontramos uma página perdida que começa com "mas", saberemos que não pode ser o começo de um texto. A não ser que seja de um livro de Clarice Lispector... 

Quanto à posição, "mas" ocupa sempre a mesma: início de oração. Não há proibição para emprego de "mas" nesta posição, como dá a entender parte da carta mencionada. Provavelmente, ela quis dizer que não se deve começar períodos (ou parágrafos) com "mas". 

No entanto (ou "mas"!), há muitos casos desse tipo. A única exigência é que "mas" introduza uma unidade (oração ou trecho) que se opõe ao que vem antes. Algumas gramáticas dizem que não se deve começar períodos com "porém". Mas (!) essa regra está em franco desuso. 

Adversativas
A segunda questão é a verdadeira natureza das unidades que as adversativas contrastam ou opõem. Começo com uma pergunta: alguém seria capaz de dizer qual é a oposição em "queria lavar as mãos, mas não havia água", em "aplicou na Bolsa, mas teve prejuízo", em "trabalha duro, mas continua pobre"? 

Em nenhum desses casos há uma posição explícita entre as duas orações. O que existe é uma oposição entre um implícito que inferimos da primeira oração e o sentido da oração que segue "mas": não havia água, não aprendeu, não ganhou dinheiro.

Um exemplo: "estudou" implica normalmente que "aprendeu" e que, portanto, "passou" (o lugar-comum é "quem estuda aprende"). "Não passou" se opõe a "passou" (um sentido implícito ou inferido de "estudou") e não diretamente a "estudou".

Lugares
As adversativas são um "lugar" muito interessante para mostrar que a questão do sentido é cultural, ideológica. Não diríamos "A casa é grande (gostaríamos de comprar), mas é cara (não podemos comprar)" se ter bom tamanho não fosse considerado uma qualidade para uma casa. "Cara" e "grande" não são "adversárias". As verdadeiras adversárias, no exemplo, são as conclusões: é grande: queria comprar, mas  é cara: não posso comprar.

Para concluir, cito de memória um "pensamento" de Millôr Fernandes. Se você está sendo julgado e o promotor faz uma série de elogios, dizendo que é bom pai, bom marido, bom cidadão, que é culto e sofisticado, não é violento, não bebe e não fuma e, de repente, diz "mas", você está perdido. Significa que vem uma lista de predicados negativos.


Sírio Possenti é professor associado do departamento de linguística da UNICAMP e autor deHumor, Língua e Discurso (Contexto)

 

Fonte:https://revistalingua.uol.com.br/textos/76/os-opostos-do-mas-250637-1.asp