Os Coletivos Inventados

17/09/2011 17:20

Brasileiro nem sempre percebe que se tornou uma fábrica de criar coletivos que não existiam antes, como "livraiada" e "roupaiada"


John Robert Schmitz

Quando se pensa em substantivos coletivos do português, diria que vem à mente aqueles coletivos que as crianças aprendem na escola, isto é, os substantivos no singular que descrevem um grupo de animais, pessoas ou coisas: uma alcateia de lobos, um bando de músicos e uma penca de chaves. Nem sempre os pequenos aprendizes chegam a utilizar no dia a dia todosos coletivos que constam das listas. 

Não é fácil encontrar uma alcateia de lobos a não ser, talvez, que o contato seja no cinema no momento de assistir a um faroeste. Os que visitam os jardins zoológicos nas cidades podem, às vezes, ver alguns lobos enjaulados, bastante apáticos, mas nunca uma alcateia. Quem vive à beira de um rio ou perto do mar têm mais possibilidades de ver na água um cardume ou até cardumes de peixes. O vocábulo "cardume" é adquirido pelos aprendizes num contexto real e assim devidamente incorporado ao léxico de cada um. O ensino de meras listas de vocábulos, sem inserção em contextos reais de uso, nem sempre funciona.  

Escondidos

Os substantivos coletivos no singular designam grupos ("povo", "feixe", "bando"), mas eles podem também ser utilizados no plural para indicar várias coletividades: rebanhos (de ovelhas), coros (de cantores) e caravanas (de peregrinos). Diria que todos os idiomas possuem formas de indicar grupos, pois em francês temos "une bande (une volée) d´oiseaux", em italiano "um stormo de uccelli" e em espanhol "una bandada de aves".

Em português existem outros coletivos que eu chamo de "escondidos" porque vários falantes os usam frequentemente nas interações informais cotidianas, mas nem sempre têm consciência que dizem "livraiada" (um monte de livros), "malaiada" (um número exagerado de malas), "louçaiada" (uma pilha de louças sujas), "roupaiada" (camisas, blusas, vestidos e calças jogadas na cama e no chão). 

Terminação 
Tais coletivos andam, de fato, "invisíveis" e os gramáticos e lexicólogos, mais preocupados com a língua escrita formal, nada comentam. Segundo a gramática Maria Helena Moura Neves, no excelente capítulo dedicado aos "substantivos coletivos" de sua Gramática de Usos do Português(editora Unesp, 2000: 214), há dois tipos de coletivo, os genéricos (como "classe", "grupo" e "lista") e os específicos (como "brigada", "orquestra" e "tripulação"). Vocábulos como "papelaiada" e "sapataiada" seriam, na prática, coletivos específicos "presentes" na língua falada informal, mas sem a conscientização de um bom número de falantes.  

Um fato interessante com respeito aos coletivos "escondidos" é que eles ocorrem no gênero feminino com o sufixo -aiada e não no masculino -*aiado, pois não se obtêm *"livraiado", "malaiado" ou "roupaiado" em português. 

Pode ser que nem todos os falantes empreguem na fala essas formas de coletivo. Pode ser também que ocorram em algumas regiões do país com mais frequência do que em outras. É possível que haja exemplos escritos em textos que reproduzem a oralidade informal (crônicas e diálogos em romances, por exemplo). 

Aflição
É, evidentemente, impossível saber o que os falantes pensam quando recorrem a coletivos terminados em -aiada. Parece-me que quem diz "livraiada" ou "louçaiada" passa certa aflição ou irritação com respeito à situação em que ele e outro locutor se encontram num dado momento. Um dado indivíduo pode gostar de livros, mas lança mão do coletivo para alertar que há um problema com a quantidade de livros e outro reclama da falta de ajuda dos convidados com a lavagem da louça.

"Não vai ser possível enfiar essa livraiada no ovo do apartamento que você alugou!"

"Puxa, sobrou para a gente! A festa acabou tarde, os convidados foram embora e ficou umalouçaiada para a gente lavar."

Os substantivos coletivos com o sufixo -aiada servem os usuários do português para designar, no português falado informal, grupos de coisas encontradas na vivência diária. Ao mesmo tempo, tais formas permitem que os falantes transmitam a sua impaciência diante casos de excesso e de exagero. É uma hipótese. Há sempre outros elementos despercebidos no idioma, uma verdadeira seara para pesquisa. 
 
John Robert Schmitz é professor do Departamento de Linguística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas 

Fonte: https://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12377