Os Sentimentos são Universais?

10/06/2011 21:07
Nem todas as sensações e sentimentos têm designações em diferentes línguas

Aldo Bizzocchi

Línguas diferentes não apenas usam palavras diferentes, elas dizem coisas diferentes, mesmo quando querem dizer a mesma coisa. É por isso que a boa tradução não traduz significados e sim sentidos. A tradução literal quase sempre conduz ao nonsense. Imagine se traduzíssemos "muito obrigado" para o inglês como very obliged e "de nada" como of nothing! Ou seja, expressões como "muito obrigado" e thank you very much não têm o mesmo significado, mas têm o mesmo sentido.

Entre línguas culturalmente próximas como o português e o inglês, é possível traduzir o sentido de uma frase ou texto com relativa facilidade, pois elas reproduzem a mesma visão de mundo, fruto de uma herança comum: mesma origem indo-europeia, mesma influência cultural greco-romano-cristã. À medida que nos afastamos da nossa civilização em direção a outras culturas, com suas maneiras próprias de ver o mundo, mais e mais vamos nos deparando com sentidos estranhos à nossa concepção de vida. É o caso da saudação namastê, do sânscrito, que significa "curvo-me a ti" ou de txai, da língua kaxinawá, do Acre, que quer dizer "você, metade de mim". Por sinal, modos muito belos e sensíveis de tratar o próximo, não?

Há palavras estrangeiras que, por representarem conceitos que não temos, mesmo quando têm seu significado traduzido corretamente, não fazem sentido para nós. Podemos compreender o significado da palavra kuarup - "ritual fúnebre dos índios do Xingu em honra a Mawutzinin" -, mas não temos nenhuma referência cultural do fato social por ela designado. Aliás, se fosse possível chegar ao sentido a partir do significado, seria fácil fazer um cego de nascença compreender a diferença entre o vermelho e o azul: bastaria dar-lhe as definições dessas cores que estão no dicionário. 

Mas, apesar de toda a diversidade de visões de mundo, parece que alguns conceitos são universais: toda língua tem palavras para "sol", "lua", "dia", "noite" etc.

Elementares
Na passagem da percepção biológica à criação do conceito, analisamos o fenômeno percebido em termos de "partículas elementares" da significação, como se fossem os quarks e léptons que constituem toda a matéria do Universo. Essas partículas se dividem em três tipos: as latências, isto é, tudo o que podemos pensar a respeito do objeto; as saliências, ou traços que se destacam no objeto (por exemplo, o aspecto circular e luminoso do Sol); e as pregnâncias, traços que o indivíduo ou a comunidade deliberadamente destacam no objeto (por exemplo, o caráter sagrado da vaca na Índia).

Portanto, certos conceitos são universais porque não são produto de uma criação cultural e sim da própria natureza ou da biologia do ser humano. Um desses universais são as sensações e os sentimentos. Todas as pessoas, não importa a cultura a que pertençam, sentem dor, prazer, medo, frio, calor, amor, ódio, indignação. Esses estados de espírito são produto de reações químicas em nossos neurônios e, por isso, ocorrem de maneira igual em todos os indivíduos (exceto, é claro, naqueles portadores de alguma patologia).

No entanto, nós falantes do português nos orgulhamos de ser os únicos a ter uma palavra para "saudade". Embora essa fanfarronice chauvinista não passe de mito, pois várias línguas têm termos equivalentes, é verdade que nem todos os idiomas possuem uma palavra que expresse exatamente o conceito de "saudade". Isso não quer dizer que outros povos não sintam a tristeza causada pela ausência de alguém ou algo que muito se ama. Seria jacobino demais da nossa parte achar que somos o único povo no mundo a experimentar esse sentimento.

Hediondo
Há certas emoções que, embora todos os seres humanos vivenciem, nem todas as línguas nomeiam. Segundo o psicólogo cognitivo americano Steven Pinker, no livro O Instinto da Linguagem, o alemão tem o curioso termo Schadenfreude, que representa a satisfação que se sente diante da desgraça de alguém desprezível. Ora, como diríamos isso em português? Na verdade, não dizemos. Entretanto, quem já não experimentou esse sentimento alguma vez na vida? (A comoção pública após a condenação do autor de um crime hediondo é um bom exemplo.)

Portanto, nem todas as sensações e sentimentos têm designações em todas as línguas. Nesse caso, o que é universal é o sentido, que, na prática, é o próprio estado de espírito, e não o significado, prisioneiro que é da palavra que o contém. E as palavras não são as coisas. Ou, como diria William James, "a palavra 'cão' não morde".

Aldo Bizzocchi é doutor em linguística pela USP e autor de Léxico e Ideologia na Europa Ocidental (Annablume)
 

 

Fonte:https://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12243