Os Danos da Concisão

05/06/2011 14:23

Uma das qualidades do bom redator, ser conciso não significa escrever pouco, mas evitar redundâncias e cortar o excesso sem comprometer a eficácia da comunicação

Natalia Gómez


 
O fenômeno é democrático, atinge diferentes meios expressivos e até os redatores tarimbados, e é provável que seja fruto de uma era de consumismo desenfreado, impaciência e pressa sem critério. Na disputa pela atenção do leitor, diferentes mídias e manuais de escritaprêt-à-porter vendem como eureca a solução dos textos mais curtos, em doses, com o essencial das informações e afirmações em jogo. 

O problema é que a oferta alcança não só os candidatos a bons redatores, mas a demanda de quem deseja fazer pouco, mas ter muito. A falta de tempo e paciência para leitura pode até já estar inscrita no código genético da comunicação contemporânea. Está lá, ao menos, nas abreviações de relatórios de trabalho, nos anúncios publicitários mais lacônicos, nas exigências de redações para vestibulares, nas versões simplificadas de obras literárias de fôlego, nos resumos de fatos da semana, nas notas informativas da internet, nas colunas de fácil digestão.

Para especialistas, no entanto, a fórmula "menos é mais" nem sempre é válida em qualquer circunstância quando o assunto é redigir um texto de qualidade. A concisão depende do contexto, não deve ser vista como cláusula pétrea da escrita. 

- A concisão não pode ser vista como algo absoluto, deve ser relativizada - afirma Maria Helena de Moura Neves, professora de letras do Mackenzie e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara. 

A elefantíase da concisão faria perder de vista a eficácia da página em nome de habilidades aparentes do escritor. Não é problema novo. Em 1957, o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) batizou o fenômeno de "superstição de estilo" no livro Discussão (Bertrand Brasil, 1994: 15). A expressão traduz a crença de que toda concisão é sempre virtude, mas toma por conciso "quem se demora em dez frases breves e não quem maneje uma frase longa", escreve Borges. 

Imposição
Segundo Maria Helena, lições de retórica como clareza, propriedade e concisão costumam ser mal compreendidas nos dias de hoje, pois são impostas sem a consideração de certas variáveis, como o público leitor a quem se dirige o texto, o veículo ou suporte em que é escrito, a finalidade e o momento em que ele é redigido. 

- "Concisão" é um substantivo abstrato que, sozinho, pode significar muitas coisas - diz a professora.

Para ela, é imperdoável o fato de o leitor sentir falta de informações relevantes ao ler um texto, seja de qual gênero for. 

O contrário de concisão não é, portanto, ser prolixo, exagerado, verborrágico, difícil de entender. Prolixidade, claro, também é uma forma de elefantíase expressiva. Mas o antônimo da concisão é outro. É a insignificância. 

Em qualquer informe que emitimos, um comunicado sobre um desastre, por exemplo, pode ser muito breve quando ainda não se tem mais detalhes sobre o fato. Mas o espaço para textos longos - com detalhes - deveria ser condicionado ao desejo natural de um leitor ter acesso a informações ampliadas. Por isso, outra distinção a ser feita é que concisão não significa necessariamente escrever pouco. 

Ser conciso significa evitar a repetição de ideias e palavras, e cortar informações desnecessárias num dado contexto. Não é preciso escrever pouco para atingir este objetivo. 

- Concisão não significa texto curto, ainda que seja um recurso para se conseguir reduzir a extensão de um texto - afirma Carlos Minchillo, professor de português e doutorando em literatura brasileira na USP.

Segundo Minchillo, que já deu aulas sobre esse tema a jornalistas da Folha de S.Paulo, muitos leitores estão acostumados a textos curtos em algumas esferas, como a do jornalismo e da publicidade, e tendem a preferir textos desse feitio em outras áreas. No entanto, em excesso, tal prática diminui a dimensão expressiva de um texto. 

- Eliminando certas expressões e jogos verbais que parecem dispensáveis do ponto de vista informativo, pode-se perder muito do sabor do texto - diz Minchillo. 

Pontos cegos

O risco de condensar frases e cortar dados, sem critério outro que encurtar um texto a fórceps, é criar pontos cegos no texto em vez de obter maior facilidade no entendimento. Por isso, Minchillo defende que é preciso revisar o material já escrito para, se for o caso, até devolver o que foi retirado, desde que se evite tornar o texto muito esquemático ou sem graça, devido à falta de contexto. 

- Às vezes é preciso reincorporar o que foi alterado - afirma o professor.

No caso da literatura, a concisão é um recurso de estilo potente, mas nunca obrigatório. Com experiência de quem compõe minicontos de 140 caracteres no Twitter, o escritor Marcelino Freire explica que é preciso procurar as palavras como um garimpeiro procura seu ouro, mas isso não significa que o texto deva ser, por consequência, curto. 

- A questão é a expressão do texto e não seu tamanho - diz. 

Freire explica que uma obra extensa como Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust - que tem sete volumes -, não apresentam excessos porque seu autor leu e releu até encontrar as palavras exatas.

Em alguns casos, o texto literário pode ser propositalmente repetitivo, gerando um efeito poético, segundo Maria Sílvia Cintra Martins, professora do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Muitas letras de música, por sua vez, deixam de respeitar a norma de concisão tendo em vista um objetivo poético. Para Maria Sílvia, a escrita concisa de Graciliano Ramos, por exemplo, deve ser encarada como um estilo e não como o único estilo possível.  

Internet
Para o escritor Rodrigo Petronio, a concisão na literatura brasileira é herança dos modernistas de 1922, que enxugaram os textos, inspirados pela ideia da rapidez de máquinas, automóveis e cortes cinematográficos, em reação ao parnasianismo do século 19, que tinha uma escrita mais rebuscada e descritiva. 

- Desde então, houve valorização da concisão, que não pode ser vista sempre como elemento positivo. Depende da visão de mundo que o autor quer passar - diz Petronio. 

No jornalismo impresso, as reportagens e os artigos de maior fôlego ainda encontram espaço em cadernos especiais e suplementos, que aprofundam temas tratados com maior objetividade no noticiário da semana. Alguns desses cadernos e revistas culturais (Piauí, Caros Amigos, Rascunho, etc.) fazem a pedagogia do espaço longo, na contramão dos comentários de blogs e informes de portais na web.  

- No dia a dia, as publicações impressas têm de ser mais objetivas porque competem com a agilidade da informação on-line, mas é possível aprofundar discussões em outros momentos - diz Marcelino Freire. 

A própria internet tornou-se, paradoxalmente, o espaço para o texto longo. Nada impede que um breve sumário sobre um assunto dê acesso, num clique, a um caudaloso texto escrito com as palavras necessárias, não mais do que as necessárias. Que texto longo não é sinônimo de verborragia. Nem concisão tem resultado confiável em qualquer circunstância.

Afinal, em certos casos, o leitor pode querer mais, e não menos.
(Colaborou Luiz Costa Pereira Jr.)

Concisão sem perdas
As perguntas e respostas que você deve fazer a si mesmo ao ler o que escreveu
Como ser conciso Sem prejudicar o texto
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Há formas mais curtas de falar o mesmo? Devo reincorporar algo que foi alterado?

Poucas e boas
Recursos de preenchimento, usados para "encher linguiça" em textos diversos, podem acenar ao vazio de ideias que ronda a cabeça de muitos redatores

Os manuais de estilística definem concisão como rigor, adequação da forma ao conteúdo. É uma característica muito próxima da clareza, pois o excesso de palavras tende a obscurecer o sentido. O conceito de concisão associa-se ao deinformatividade; um texto conciso geralmente tem um bom nível de informação, pois dispensa artifícios que visam apenas a encher a página. Esses artifícios, no entanto, tentam os redatores, sendo motivo de reflexões torturadas que às vezes rendem bons textos. Um aspecto da chamada metalinguagem consiste nesse exercício especulativo e doloroso, no qual o escritor enfrenta o silêncio e tem de o vencer. É a luta muitas vezes vã de que fala o poeta Drummond num de seus poemas.

A situação não é bem essa quando se trata de uma redação de vestibular, por exemplo. Neste caso, quem escreve não o faz por necessidade interior, compromisso estético ou desejo de mudar o homem. Visa cumprir um dever, realizar um exercício em que deve revelar organização do pensamento, uso adequado das palavras, defesa consistente de um ponto de vista.

Se a natureza do desafio é outra, contudo, a angústia talvez seja a mesma. Diante do aluno está a famigerada página com determinado número de linhas que ele deve a todo custo preencher. E não vale, como às vezes fazem os escritores, transformar essa dificuldade em tema. A banca não vai se sensibilizar com esse artifício, que funciona em produções literárias mas compromete a eficácia de um texto argumentativo.

Para contornar esse tipo de dificuldade muitos apelam a "recursos de preenchimento", cuja função é suprir o vazio de ideias; afinal, quem não tem o que dizer procura disfarçar isso da melhor (ou pior) maneira possível. Tais recursos inflacionam a forma e são um atentado à concisão.

Um dos meios de preencher linhas é lançar mão de definições equívocas. Definir é sempre um perigo; ao tentar conceituar pessoas, fenômenos, estados de alma, corre-se o risco de pecar por imprecisão. Ou por presunção. Se o objeto definido não se enquadra no juízo que se faz dele, evidencia-se logo o despropósito.

Além das definições equívocas, outra forma bastante recorrente de encher papel é o uso de lugares-comuns. A farta presença deles nas redações preocupa. Dizer o que todo o mundo diz, e às vezes com as mesmas palavras, constitui um dos maiores problemas da produção textual dos alunos. O lugar-comum indica padronização do raciocínio e falta de visão crítica. Dá aos textos um aspecto indiferenciado e os torna previsíveis, sugerindo que foram escritos por um só autor. Segundo Alcir Pécora, ele é "na verdade, um lugar de ninguém, uma cidade fantasma". Os lugares-comuns aparecem como ideias repetidas ou expressões cristalizadas. É preciso ler muito e consultar dicionários para escapar desses chavões.

Há muitas formas de exercitar a concisão. Uma delas é recolher de jornais, revistas ou das próprias redações trechos em que ocorre excesso de palavras e tentar enxugá-los o máximo possível. O hábito de fazer isso leva a pensar duas vezes antes de escrever o que vem à cabeça. 
  
Chico Viana é professor da UFPB, doutor em teoria literária pela UFRJ e autor de O evangelho da Podridão: Culpa e Melancolia em Augusto dos Anjos