O que é chegar lá?

28/09/2013 14:26

 

 

Dia desses, numa roda de bate-papo, só gente boa na área. Discutíamos sobre um compromisso que rolaria dali há dias. Então a protagonista em questão pediu-me que fornecesse a placa de um carro que teria estacionamento privado no evento. Eu disparei logo: “Eu chego lá, hein?!...” Fui logo interrompido de forma simples, objetiva e direta com uma resposta que não poderia ser melhor: “Você já chegou lá, ôh tapado! A placa é do seu carro!”

Pus-me a pensar no que acontecera e na ideia que dá título a este texto: O que é, de fato, chegar lá? Onde será que este lá se encontra em cada um de nós? No coração? Na mente mais abrilhantada, ou em um canto secreto dos nossos sonhos? É fato que todos nós temos sonhos de consumo: casa, carro, moto, viagens, diplomas, casamento, filhos e por aí vai... Acho que só a lista daria uma crônica inteirinha.

Costumo brincar com o termo quando vejo uma foto bacana de alguém conhecido em rede social ou noutro lugar. É como se eu, querendo estar lá naquele momento, ou ter algo que quero muito e não podendo, disparo em letras garrafais: “EU CHEGO LÁ!!”

Mas chegar lá dá trabalho pra caramba! São horas a fio de treinamento, poupança, trabalho duro, horas-extras, sapos engolidos, espera e o principal para quase todos os que não nasceram com o bumbum virado para a lua: r-e-n-ú-n-c-i-a. Sim, porque quando queremos muito uma coisa, sempre deixamos de fazer outras que não sejam tão importantes. Despir um santo para vestir outro. Frase de mineiro, perfeita para a ocasião.

Portanto, não venha me dizer que você conseguiu comprar aquele apartamento duplex na praia de Jurerê Internacional ou viajar para os Alpes Suíços da noite para o dia. A menos, também, que você tenha ganhado na loteria. Aí, como diria o meu saudoso avô, são outros quinhentos... Literalmente.

Mas penso que talvez estejamos sendo míopes com relação ao chegar lá. Explico: Muitas vezes ficamos tão ensandecidos em chegar lá, nos finalmente, nos fins, que nos esquecemos de justificar os meios! E Maquiavel que me perdoe pelo trocadilho infame. E isso é sério, objetivo leitor: Queremos a casa própria dos sonhos, mas nem ligamos em morar com conforto no nosso aluguel; Sonhamos tanto com a BMW branca e nos esquecemos de cuidar do nosso fusquinha pau-para-toda-obra. Sonhamos com a viagem dos sonhos para a Europa e nem vamos visitar nossos parentes queridos lá da roça que, convenhamos, dão um banho de qualidade de vida em nós, mortais das cidades maiores e lotadas de estresse e poluição. Sonhamos tanto com o Doutorado que nos esquecemos de curtir as delícias da graduação ou de trabalhar no que se gosta.

E então entramos no perigoso círculo vicioso do querer sempre mais e a gente já sabe no que isso dá, não é mesmo? Quanto maior a expectativa, maior também a frustração de um fracasso. Os antigos já diziam que quanto maior o degrau, maior o tombo, certo?  Não estou dizendo que você ou eu não devamos sonhar. No dia em pararmos de fazê-lo, melhor escrever o epitáfio. Sonhe sim, mas aproveite o caminho até o sonho. Curta o momento, os degraus menores antes de chegar ao topo, antes de chegar lá. E quando o fizer, agradeça às suas entidades superiores por auxiliá-lo (Não vou discutir religião aqui, ok?).

Para terminar, dois importantes avisos: Tão importante quando chegar lá é perceber que chegou. Isso evita constrangimentos e falsas sensações de cada vez mais. E outra: Não se incomode com seu sonho. Ele é seu e ninguém tem nada a ver com isso.                                                       

                                                                                                                

Abraço cordial!!! Dedico esta crônica a uma galera do bem: ao casal José Ricardo e Lorena. Estes souberam chegar lá com consciência e muito Rock in Roll; ao casal Tarsila e Adriano que chegaram lá com estilo, classe e responsabilidade; aos meus ex-alunos que estão na graduação. Estes chegaram e irão ainda mais longe! E aos meus queridos alunos do ensino médio que, no ano que vem estarão lá, com certeza!

 

(Eduardo C. Souza é professor de História e escreve mensalmente neste espaço.

Ele tem chegado lá com mais consciência e parcimônia).

Confira outros textos do autor no linkColuna do Eduardo.