Onde está o meu passado?

16/01/2017 19:58

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Sim. O título dessa crônica é uma pergunta retórica. Até porque você, leitor esperto, me responderia que o meu passado está dentro de mim, ou lá atrás, no tempo cronológico. Mas o buraco é mais embaixo. Ao completar a chamada metade da vida, tenho pensado bastante a respeito do lugar e do não lugar das coisas que vivi na infância. E olha que lá se vão bons anos. Não vejo mais tantas borboletas brancas a brincarem nos verdes jardins de primavera. Onde estão? E os vagalumes nas noites de verão, quando brincávamos na rua até tarde, sem nos importar com a quantidade de carros, ou o programa na TV ou na internet (esta que inexistia!). Esses vagalumes eram nossa diversão de luz e cores da infância. Onde estão?

E as cenouras com gosto de cenouras, e não de agrotóxicos, que apanhava no quintal de meu avô, tal qual o Pernalonga, ávido por um lanche? E depois, tomava um suco de cenoura, laranja, couve e beterraba. Tudo apanhado ali, com gosto de natureza. Onde estão? Sem falar nos morangos silvestres, angás (ou ingás), C. (!) de pinto - bolinhas pequeninas roxas, peludas, contudo super doces - que eu apanhava em longas e deliciosas caminhadas pelo meio do mato, nas tardes de outono e inverno, perto da casa de minha mãe? Atualmente nem a água pode se beber desses matos e grotas. Onde estão?

E os lindos e flamejantes rolos de esponja de aço, que genericamente chamamos de Bombril, que colocávamos fogo e rodávamos nas noites em que a energia elétrica acabava? Espetáculo de brincadeira! Sem falar que os esconde-esconde e rouba-bandeiras eram diversão gratuita pura! Sem passar de fase ou morrer no final, como clamam os jogos digitais. Aliás, morríamos sim, de cansaço no final. Onde estão?

E nas gélidas noites de inverno, na cozinha do sobrado da rua do Barão: aprendendo a torcer para o meu time, junto com meu saudoso avô, com os pés numa bacia com água quentinha, quentinha. Que sensações de vida! Onde estão? E as fotos tiradas com máquinas não-digitais? Não apelava-se para a repetitiva frase “tire outra, pois essa ficou feia”. Não era permitido tirar outra por este motivo, pois nem se sabia da existência nítida da foto! E dávamos graças aos deuses se saíssem todas! Alegria total era revelar, conferir e colocá-las num álbum. Doces passados visuais. Onde estão?

Sei que estou saudosista demais. Sei das benéfices do presente e seu maravilhoso mundo moderno. Sei que as coisas mudam, que o mundo evolui, que o passado fica pra trás, que o mote atual é a digitalização do ser... enfim, a lista é longa pra ser citada agora. Mas a questão que coloco é:  precisamos esquecer e trocar tudo tão rápido assim? Não podemos preservar o que é bom, natural, e benéfico pra nós?

Sim! Este texto tem perguntas demais. Mas elas são pra mim, pra você e todo mundo que o ler. Pra refletirmos mesmo. Não dá pra engolir tudo goela abaixo assim, na boa. Fica a dica.

Abraço cordial!!!

 

 

 

Eduardo C. Souza  é professor de História, escritor romancista, contista e cronista. Escreve mensalmente neste espaço.