Olhares

12/03/2014 19:51

 

 

Aristóteles teve sua vida marcada em livros de todas as formas possíveis. Em um desses livros o filósofo disse uma frase que até hoje pode ser colocada no meio de qualquer dilema: Se conhecer é o início de toda sabedoria (traduzido a grosso modo). Talvez eu não deveria estar citando essa frase, não tenho conhecimento algum de filosofia e não sei sob quais circunstâncias ele estava quando escreveu essas palavras, mas por elas percebo o quanto nunca soube nada sobre mim mesmo.

Aos poucos nós nos conhecemos cada vez mais, somos enganados por nós mesmos, acreditamos nas mentiras dos nossos corpos, porque somos orgulhosos e nos recusamos a encarar a nossa verdadeira face. Obviamente não espero resultados significantes de muitos, muito menos de mim. Até porque vejo pessoas diferentes sempre que me olho no espelho, mas muito além de idade e de conhecimento, olhar para dentro é um trabalho duro e complicado e é de se admirar os que o compreendem.

O que vejo muito, mas muito mesmo, são pessoas buscando conhecer as outras pessoas como puderem, para saber o jeito dela ao falar, como mente ou como age diante de certos assuntos, porque é próprio da natureza humana essa curiosidade buscada para se proteger. Mas essas pessoas procuram conhecer outras quando, na verdade,  não conhecem nem a si mesmas, e isso abre uma grande brecha para um problema atual, enorme, que é próprio daqueles que não conseguem se enxergar por dentro: o julgamento.

Chega a ser absurdo o número de pessoas que julgam os outros sem um pingo de humanidade, sem nem tentar ver o lado das pessoas. Nem vale a pena citar os casos porque todos já sabem de um ou outro caso que foram mais marcantes, mas está presente em todo lugar, todo! Vemos em algumas notícias, países inteiros usando religião e política como desculpas para julgar mais e mais pessoas, sem tentar ser um pouco complacente com o outro e pensar nas famílias. Mas isso é o que todos já estão cansados de ouvir: temas sobre bullying e sobre como devemos ser bom com o próximo. Mas não, não acho que esses que se dizem “juízes da vida” devem ser bons com os outros, mas que sejam bons consigo mesmos, que sejam sinceros e percebam o que causa esse senso crítico dentro de cada um, porque os sábios são muito mais do que aqueles que observam e duvidam, são aqueles que encontram a felicidade entre os outros e dentro de si.

Dentre todas as frases de Aristóteles que eu poderia ter falado eu falo justamente dessa, que trata do olhar humano como uma forma de sabedoria, na qual há pessoas que sabem olhar e pessoas que fingem olhar. Esse e vários outros filósofos discutem ideias sobre como alcançar a sabedoria –que devia ser pelo menos uma meta na vida de cada um–, mas alguns não aceitam as ideias, se recusam a entendê-la, recusam a sabedoria própria. Claro que aqui eu falo de diversas sabedorias, porque não suponho que a sabedoria seja absoluta para ser alcançado por alguns. Creio que cada um tem o seu limite e o seu momento de clareza e alcança, em algum momento, sua própria sabedoria, seja ela como for.

Quem sabe eu esteja falando só por falar, afinal, não consigo olhar dentro de mim mesmo o suficiente para descobrir minha própria sabedoria. Vai ver ela vem com idade e com experiência, ou vai ver que ela vem para aqueles que conseguem olhar dentro de si e achar razão para olhar dentro de outros.

 

Giordano Devêza é aluno do 9º ano e escreve mensalmente neste espaço.