O Garoto, o Medo e a Coragem.

06/10/2013 19:47
 
 
 
 

O garoto vivia com o Medo. Aliás não vivia, sobrevivia a cada dia, pois o medo o impedia de viver. Ele o impedia de ver, sentir, ouvir, ser. Fazer com que qualquer coisa possa valer a pena. Não percebia que o curso da vida varia, mas a linha de chegada é a mesma para todos e qualquer outra ideia é uma hipótese sem valor. Não adiantava viver seu tempo, sua garantia, sem amor, imaginando que talvez um dia, numa outra outra dimensão, venha a sentir dor.

E nesse ritmo de sobrevivência, um dia quebrou, sem querer, sua caixinha e lá dentro encontrou a Coragem, que a mão lhe estendia. Ela sorria e dizia que lá fora havia uma vida florida a sua espera. O Medo tentou lhe impedir, mas apenas a Coragem ele quis ouvir, e com ela, partiu para uma aventura que nunca chegaria a ver, se sua caixinha não tivesse quebrado. Talvez nunca conhecesse a felicidade se continuasse sem a Coragem, acovardado, apavorado.

Tudo estava certo, até que ouviu novamente aquele sussurrar em seu ouvido. Era o Medo tentando, novamente, impedi-lo. Por um segundo, ele enxergou certa razão nas palavras dele. Era a Sensatez, não a Covardia, as duas eram parecidas, ele sempre confundia. E nisso ele lembrou de um livro que o Medo queria que lesse, e ele dizia que não podia deixar que a Coragem o enlouquecesse, e dizia, também, que a linha tênue entre a coragem e a estupidez é a sensatez. Não adiantava viver uma vida inteira em um segundo e logo depois morrer. Porém, a Coragem não a queria por perto, a Sensatez sempre a limitava, às vezes amarrava suas asas para que não voasse alto demais. Então tentou afastá-la sussurrando no outro ouvido: "A vida pode ser mais divertida só comigo". Então a Sensatez retrucou: "Escolha entre o que é certo e o que é fácil. A Coragem se mistura à insanidade, e sua escolha determinará quanto sua felicidade poderá durar."

Então ele fez sua escolha. Construiu uma nova caixa, uma maior dessa vez, para lá dentro colocar a Coragem, o Medo e a Sensatez. Não os trancar, mas apenas deixá-los lá, para que quando precisasse se decidir, a caixinha ele pudesse abrir. Guardou a caixinha em seu peito, e aprendeu a usar os três direito.

 

Recomendamos ouvir durante/após ler esse texto a música Little Talks- Of Monsters and Man:

 

 

Maria Letícia e Laura Ribeiro.



Maria Letícia Nolasco é aluna do CAOP e escreve mensalmente neste espaço.

Laura Ribeiro é aluna do CAOP e em breve terá uma coluna mensal no site.