O Ponto de Vista de Marte

17/09/2011 17:09

Caso de concordância em episódio envolvendo livro didático ganha contornos de fábula


Sírio Possenti

Aproveitando a celeuma provocada pelo livro Por uma vida melhor, proponho uma espécie de experimento mental, para que fique mais clara a relação entre fazer gramáticas que levam em conta constitutivamente certa tradição escrita e cultural e fazer gramáticas que não incluam tais elementos, pelo menos provisoriamente, seja por não existirem (como quando brancos pesquisam línguas indígenas) seja por ser importante conhecer a gramática dos falantes que foram, de alguma forma, excluídos de tal tradição cultural, baseada na escrita.

Chega o marciano
Suponha que você não seja um estudante preocupado com provas e vestibular, mas um marciano que chegou à Terra, mais precisamente ao Brasil, com a missão de descobrir como se fala por aqui, tendo em vista futuros contatos. Desembarca em um lugar qualquer, munido de um gravador, e a primeira conversa que ouve é:

"Os menino saiu daqui agorinha mesmo. Eles foi buscar as marmita."

Vê que a sequência sai da boca de um ser humano que se dirige a outro, mas desconsidera questões ligadas à interação. Seu interesse é relativo só à estrutura da língua. Um brasileiro típico (de fato, pouco típico, que tem oportunidades culturais e escolares relativamente boas) diria que a frase contém erros. Mas o marciano não sabe que alguém pode falar errado, só descreve o que ouve. Para ele, não há erros. O falante sabe falar (assim como sabe comer, beber e andar). Se não soubesse, não falaria. Tem a atitude que missionários ou linguistas têm em relação às línguas indígenas.

Suponhamos que o marciano fique por aqui mais tempo e recolha outras ocorrências. Acabará enviando a Marte um relatório no qual, entre outras coisas, descreverá regras a que nós chamamos "de concordância". Se só ouvir construções do mesmo tipo, concluirá que o português é uma língua na qual o plural dos grupos nominais segue uma regra que ele formula assim: o plural é marcado no primeiro elemento do grupo. Um colega dele, que foi pesquisar como se fala nos EUA, descreverá o mesmo campo no inglês e informará que nesta língua o plural é marcado no segundo elemento do grupo. O marciano de lá só anotou fatos como the boys..., the books,... e nunca fatos como *Thes boy..., *thes book..., que é como seria a concordância em inglês se essa língua tivesse, nesse aspecto, gramática igual à do português. 

O marciano descreverá a concordância verbal de modo análogo. Mas agora, comparando seus dados com os do colega que descreve o inglês, encontra semelhança grande com o sistema dessa língua, que praticamente não flexiona os verbos. 

Plural marcado
O marciano que veio ao Brasil, inspirado pelos dados do inglês, resolve testar melhor suas conclusões sobre a concordância nominal em português. Procura ocorrências de O meninos..., O livros..., Uma casas... Ouve de novo todas as fitas e verifica que esse tipo de construção nunca foi usado por ninguém. Fala com brasileiros dos quais ficou amigo e pronuncia essas sequências, para testar a reação deles. Descobre que é sempre de estranheza ou riso. Perguntam-lhe o que é isso que ele está falando, dizem que nunca ouviram ninguém falando assim (nem artista de TV imitando pobre, nordestino ou paulista...). O marciano tem sorte. Também ouve:

"Os meninos já saíram. Eles foram buscar uns lanches."

Com dados desse tipo, proporá uma descrição do português que o leva a concluir que nem todos os brasileiros falam do mesmo jeito. Para os marcianos, a descoberta significará que há regras diversas no interior da mesma língua, exatamente como há diferenças entre línguas diferentes. Não se espantam.

Valores sociais
Moral da história: como o marciano não tem nada a ver com os valores sociais que associamos às diversas formas de falar, dirá que o português é uma língua que tem mais de uma gramática - pelo menos no que se refere à concordância. Talvez mude de opinião, se ficar por aqui mais tempo e adotar como profissão pesquisar a língua do país. Descobrirá que há outra maneira de formular sua teoria: em vez de dizer que cada língua tem mais de uma gramática, poderá preferir dizer que cada língua tem uma gramática que varia conforme se trata de um tipo ou outro de falante. 

Mas o marciano nunca dirá que quem fala "Os menino saiu..." não segue regras, não segue uma gramática, não sabe falar. É que ele verificou que há uma regularidade, uma constância na construção de tais estruturas. E é a isso, afinal,  que se chama de regra na Terra.

A conclusão é que, em relação a um fato qualquer de qualquer língua, podemos ter mais de uma reação. Uma seria corrigir (muitos só fazem isso). Outra seria entender, descrever, procurar as regularidades. Ou seja, diante dos fatos da língua, podemos nos comportar como um juiz ou como um cientista; como um missionário ou como um antropólogo. Em um dos casos, agimos como quem quer mudar os fatos (achamos que se trata de "acertar"). No outro, comportamo-nos como quem quer compreendê-los (eventualmente, para, depois, mudar, adaptar). 

Conforme a atitude assumida, faremos uma gramática normativa ou uma descritiva. Um dos problemas - em sociedades como a nossa - é que as duas atividades são associadas à palavra gramática e a outras, como regra e erro. Corrigimos segundo uma gramática e explicamos segundo uma gramática que só em parte coincide. 

Uma das funções da sociedade (do governo, do país) é estabelecer uma relação adequada entre os dois tipos de gramática. Caso contrário, não conheceremos nossa língua real, e, ao mesmo tempo, consideraremos, equivocadamente, que muitos cidadãos não sabem falar, só porque sua gramática é diferente da "nossa". Aliás,  às vezes, nem é tão diferente.

Sírio Possenti é professor associado do departamento de linguística da Unicamp e autor de Humor, Língua e Discurso (Contexto)

Fonte:https://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12378