O Ovo

03/06/2012 16:59

 

 

    Eu estava lá, sentada na sala, no sofá vermelho. O sol nascia, e pequenos raios entravam pelo feixe da cortina. Eles exibiam a poeira do ar de cidade grande. As pessoas começavam a acordar e fazer seus barulhos. Escutava o vizinho de cima andando, dando seus primeiros passos. Eu estava bem abaixo de sua cama e logo ali havia seu banheiro, em cima de minha copa. Como quase toda pessoa de hoje, tinha seus hábitos. Levantava-se da cama, tossia uma ou duas vezes, bem alto. Dava passos pesados até o banheiro, onde tomaria sua ducha e se aprontaria para o trabalho.

    Eu fiquei pensando onde será que estavam os meus hábitos. Porque eu não os tinha. Porque eu simplesmente não poderia me levantar e ir trabalhar, em uma rotina confortável. Qual era minha dificuldade de adaptação? Minha dificuldade estava bem ali, no cômodo no fim do corredor. Havia uma mesa de madeira barata. E sobre a mesa uma velha máquina de escrever, que me aguardava há semanas.

    Acendi meu cigarro, enquanto ouvia a ducha do banheiro de cima ser ligada. Há quanto tempo eu não tomava um banho? Não sabia.  Não sabia nem que dia era, nem que horas eram, nem quanto eu dormia ou qual foi a última vez que eu comera. Há muito tempo não sabia das minhas mais fúteis informações rotineiras.

    Talvez tudo que fizesse fosse mesmo sentar no sofá vermelho e fumar cigarros, esperando ânimo para me sentar em frente à máquina, escrever duas páginas, rasgá-las e ir ver algum filme tolo na TV. Rotina? Não. O que eu tinha era punição.

    Escrever é uma graça. Mas é quase um castigo. Escritores sofrem, e muito. Sofrem por perceberem demais, pensarem demais, e ainda serem judiados pelas palavras. Quando pior, são agraciados. Mas nada disso importava agora.

    Foi quando parei de pensar nisso tudo, peguei nos meus pulsos finos, e me vendo frágil e cansada, decidi que deveria comer.

    Apaguei o cigarro, e logo constatei que deveria comprar mais. Mais tarde talvez fosse à venda da esquina. Ou talvez pegasse o bonde para dar uma volta no centro, caminhar um pouco. Estão vendo? Perco o fio das coisas. Eu vivo através do pensamento.

    Onde estávamos? Sim, fui até a cozinha. Nada de interessante, nada parecia apetitoso. Vi uma barata entrando no armário. Não me importei. Abri a porta da geladeira: precisava de algo forte, que me passasse uma força para viver. Foi quando avistei o ovo.

    Sim. O ovo. O começo da vida, o embrião, o nascimento, a força. Era tudo. Era claro, vivo e forte. Oval, redondo, completo. Cheio. Mas o que eu faria? Quebraria o ovo e o comeria? Não seria cruel demais acabar com uma vida que está apenas começando? Que pelo menos se respeite o começo.

    Foi quando percebi que falava completas bobagens. A vida já abandonara há muito aquele ovo, e ninguém mais se importaria. Ele ali, abandonado no apartamento. Com certeza estava completamente livre de culpa. Outros já fizeram o serviço por mim. Agora só faltava eu me aproveitar disso.  E fingir que era uma inocente faminta e devoradora de assassinatos alheios.

    Bom, decidida, peguei o ovo. O analisei em toda sua forma. Perfeição. Suas curvas eram proporcionais, harmônicas, e a casca irritantemente livre de defeitos. Especialmente branca. Fechei a geladeira lentamente, e coloquei o ovo sobre a pia.

    Sentei-me na cadeira e acendi meu último cigarro. Dali, via claramente o ovo. Ele olhava pra mim, desafiador. Era mais que eu. Era natureza perfeita. Era morto e parecia ingênuo.

    No começo de tudo, as coisas parecem mesmo assim, ingênuas. Mas não devemos esquecer que é uma formação, um estágio de uma transformação maior. Nem sempre tão ingênua.

    Não duvidava, portanto, da bondade do ovo, mas da sua veracidade. Mas de qualquer forma, estava com fome e iria devorá-lo. Justa causa.

    Levantei-me, passos fortes - o vizinho de baixo me ouviria? Não importa, não saberia descrever meu próximo passo. De inconstante eu era imprevisível- e assim, com toda minha liberdade inconstante, adquiri novas forças e me senti novamente bem. Toquei no ovo, e delicadamente, deitei-o. Queria que pensasse que tive medo dele. Não queria dar medo; eu iria assustá-lo de uma só vez: abri a gaveta lentamente, aquela primeira gaveta. De lá puxei uma colher, em toda sua imperfeição de objeto e criação humana. E como imperfeição humana eu quebraria o ovo. Em um susto.

    Em um golpe forte, bati com a colher no ovo. Senti toda sua inerência de começo. Toda sua incalculável reminiscência que o atormentava. Suas inquietudes. Foi então que a casca se rompeu.

    Mas eu não tinha coragem para prosseguir. Estava espantada com tudo que descobrira do ovo após feri-lo. Era difícil para mim. Era violar o trabalho árduo da natureza.

     E não sabendo o que sairia dali, quebrei o ovo, e sua gema pulou, envolvida em sua clara, no chão. A casca ali na minha mão. Inútil. A gema, ainda forte, ainda extremamente ligada à clara, em uma relação que parecia inseparável. Em toda a inquestionável beleza do ovo, eu me calei. Seu nascimento na verdade acontecera ali. Antes fora proibido, mas eu o libertei usando meios estranhos a mim. Eu provara a ele que posso rompê-lo. E fizera com que ele conhecesse o chão gélido da liberdade. Agora, eu tinha medo dele. Temia o ovo. Temia sua liberdade. Temia-me. Porque minha coragem me transbordava. O que seria do meu ovo interno agora?

Sara Meynard.