O Desafio do Professor de Português

07/09/2014 18:57

 

 

De tempos em tempos presenciamos polêmicas na mídia em torno do ensino de português e do que deve ou não ser ensinado na sala de aula.

É interessante pensarmos no que o professor de português deve ensinar ao considerar que o aluno/falante do idioma já possui conhecimentos sobre a sua língua materna. Dizer “nóis pega o peixe” ao invés de “nós pegamos o peixe” não faz do aluno um “não falante da língua portuguesa, pois a última não se trata de uma frase agramatical, mas sim de uma frase que não está de acordo com a norma culta da língua – aquela utilizada pelos falantes considerados cultos.

Então, por que ensinar português aos falantes de português?

Foi-se o tempo em que ensinar a nomenclatura gramatical era a principal tarefa do docente de língua portuguesa. Atualmente (e desde a “virada pragmática” dos anos 80) esse ensino não se demonstra eficaz, uma vez que os índices de leitura do país sugerem (conforme afirma ROJO, em 2009) que conhecer a nomenclatura gramatical de uma língua não é o mesmo que usá-la efetivamente enquanto mecanismo de interação e de posicionamento no mundo.

Desse modo, decorar regras, tipos de frases, tempos verbais já não é prioridade nas salas de aula que, recentemente, praticam (ou deveriam praticar) um ensino voltado para o aprimoramento das práticas de leitura e escrita em uma perspectiva social, de forma a aliar texto e gramática. Para tanto, muito tem se falado na utilização das práticas de gêneros textuais na escola com a finalidade de preparar o aluno para a vida em sociedade e, assim, letrá-lo.

Em 1998, Magda Soares definiu letramento como o uso social das práticas de leitura e escrita. Letrar é, portanto, um dos aspectos centrais no ensino de português, bem como proporcionar ao aluno a apropriação da norma culta da língua. Além disso, é importante levá-lo a refletir sobre as possibilidades de uso e, assim, possibilitar uma visão crítica da língua para que ele possa ser capaz de ler além da superfície de um texto.

Angela Kleiman, em 2002, empregou uma metáfora para explicitar os aspectos cognitivos que envolvem a leitura, a “metáfora do iceberg”. Segundo a autora, quando lemos algo, o conjunto de palavras que decodificamos é apenas a ponta do iceberg, enquanto o sentido completo do texto é a maior camada, aquela que não vemos (por estar embaixo d’água). Assim, só compreendemos a totalidade de um texto se apresentamos um conhecimento de mundo que nos leva à interpretação global – o que está explícito somado ao que não está.

Podemos entender compreensão conforme afirma Faraco (2009, p. 42), quando diz que “a compreensão não é mera experienciação psicológica da ação dos outros, mas uma atividade dialógica que, diante de um texto, gera outro(s) texto(s). Compreender não é um ato passivo (um mero reconhecimento), mas uma réplica ativa, uma resposta, uma tomada de posição diante do texto”. O leitor, portanto, é ativo durante o processo de leitura e mobiliza seus conhecimentos para a compreensão integral do texto.

Desse modo, voltando à pergunta sobre o que o professor de português deveria ensinar, podemos refletir de que forma levaremos nossos alunos a maximizarem o conhecimento que já possuem da própria língua, de modo que se tornem críticos perante os mecanismos textuais utilizados para produzir sentidos. É preciso, assim, ter como objetivo fazer com que os discentes sejam capazes de atuarem como cidadãos efetivos na sociedade e, de tal modo, proporcioná-los a possibilidade de acesso a um possível prestígio social, que está atrelado à variedade mais prestigiada da língua.

O desafio do professor de português é lecionar de forma a levar em consideração esses aspectos. Mas, como fazer isso?

Neste texto, sugiro alguns caminhos recomendados por especialistas da área e vivenciados por mim através de resultados de pesquisas das quais participei durante a graduação no curso de Letras.

Primeiramente, é muito relevante não desprezar os conhecimentos linguísticos que os alunos já possuem. No eixo da oralidade, por exemplo, declarar como “errada” a maneira de falar do discente pode causar prejuízo psicológico e desânimo ao invés de levá-lo à incorporação da norma culta da língua. O ideal seria possibilitar aos estudantes reflexão sobre a utilização da língua nos diversos espaços sociais que ocupam e em quais deles uma fala mais formal seria apropriada.

Nos aspectos de leitura e escrita torna-se essencial proporcionar aos discentes o contato com os diversos gêneros textuais, de forma a levá-los a apropriarem-se dos mecanismos gramaticais e discursivos presentes em cada gênero de texto. Segundo Bakhtin (1992, p.262) gêneros textuais são “tipos relativamente estáveis de enunciados.” Referem-se, portanto, aos diversos textos com os quais nos deparamos socialmente e que fazem parte de nossa existência enquanto cidadãos no mundo, tais como e-mail, carta, declaração, relatório, notícia, resenha, conto, receita, manual, etc.

Nesse sentido, o método que tem demonstrado-se mais apropriado para o planejamento de aulas em torno de gêneros textuais são as sequências didáticas propostas por Schneuwly e Dolz (2010). São atividades elaboradas em módulos nos quais o aluno reconhece o gênero, passa por etapas de apropriação dos mecanismos discursivos presentes no texto e, em uma etapa final, produz e reescreve o gênero aprendido. Os módulos centrais da sequência podem ser quantos forem necessários e, geralmente, abarcam questões de uso da língua e de gramática.

Assim, é importante induzir os discentes à reflexão sobre os métodos de construção de sentido, o porquê do autor do texto ter realizado algumas escolhas linguísticas em detrimento de outras e, principalmente, qual era a intenção por trás das palavras contidas na escrita.

Outro aspecto fundamental que deve ser abrangido pelos professores de português é a leitura de obras literárias, clássicas ou não, pelos alunos. Os textos literários são essenciais para a vida escolar e extraescolar dos discentes, uma vez que através deles, os alunos podem perceber o trabalho que é realizado com a linguagem, além de deleitarem-se com a leitura. Porém, deve-se tomar bastante cuidado com qual autor e obra trabalhar de acordo com a faixa etária e o desenvolvimento dos alunos.

O caminho para o ensino de literatura, definitivamente, não é reescrever Machado de Assis de forma que fique “mais fácil”. “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é difícil para os seus alunos? Escolha alguns contos e faça-os acostumarem-se com a leitura de Machado, só depois trabalhe o livro. Tudo pede bom senso, com o professor de português não seria diferente.

Este texto teve como principal propósito incentivar a atualização da perspectiva de ensino de português, de modo que as aulas sejam mais eficientes e dinâmicas para os alunos.

Pensar a língua, portanto, enquanto interação social e forma de ação no mundo é primordial para dar início a essa nova perspectiva de ensino, na qual o objeto de estudo dos alunos – a língua- é entendido como algo vivo, dinâmico , mutável e dotado de poder, e esse poder é manipulado conforme os interesses de quem discursa.

Revisado por Patrick Wesolowski

Referências

BAKHTIN, Michail. Estética da Criação verbal. São Paulo, Martins Fontes [1979]. 1992.

KLEIMAN, A. Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social de

leitura e escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

_________. Texto e Leitor: Aspectos Cognitivos da Leitura. Editora Pontes, São Paulo, 2002.

ROJO, R. Letramentos Múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola, 2009.

SCHNEUWLY, B. e DOLZ, J. (trad e org Roxane Rojo). Gêneros orais e escritos na escola.

Campinas: Mercado de Letras, 2010.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

TRAVAGLIA, L. C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º

graus. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2002.

Fonte: https://causasperdidas.literatortura.com/2014/09/07/educacao-o-desafio-professor-de-portugues/