Gramática na Cabeça

04/06/2011 14:06

As aulas nem sempre se dedicam a entender a língua, mas a corrigir uma lista de erros


Sírio Possenti

Provavelmente, não há campo de estudos em que as pesquisas são tão desconsideradas quanto o da gramática. A maioria dos cidadãos, mesmo entre os cultos, pensa que gramática é um compêndio com regras definitivas, seguidas por escritores, e que todos devem seguir em toda circunstância, sob pena de estarem errados. Os agrônomos e agricultores se informam sobre as descobertas da Embrapa, mas os "especialistas" em língua não se informam sobre as descobertas em aquisição de linguagem (falada e escrita), história da escrita, sociolinguística. É estranho, muito estranho! 

Mesmo as pessoas cultas que sabem que línguas mudam (muitas formas mudaram do latim para o português e do português de uma época para o de outra) pensam, no fundo, que as línguas mudavam antigamente, mas agora, não. Acontece que estão mudando na nossa cara!
 

Por isso, as aulas de português, em geral, não se dedicam a compreender a língua que se fala (no Brasil), mas a corrigir uma lista de supostos erros. Com resultado nulo. (Imaginem se o mesmo ocorresse com botânica ou zoologia: a tarefa dos professores seria ensinar alunos a corrigir plantas e bichos!).
 

Considere-se um aspecto da gramática, a regência verbal. Aprende-se que os verbos são transitivos (diretos ou indiretos, etc.) ou intransitivos (etc.). Dão-se exemplos (dormir, comer feijão, dar aos pobres). Mas, em seguida, as gramáticas e manuais fornecem uma pequena lista de verbos cuja regência é uma na fala da maioria das pessoas e outra no "português correto"! Por isso, os compêndios pensam que devem corrigir a realidade, ensinando que a regência antiga é a correta.
 

 


Erro genérico
Pode-se discutir essa doutrina: escrever bem é escrever sempre como os mais antigos? (A literatura mostra que não...). Também se pode discutir a quem cabe essa decisão (diria que é decisão que cabe aos editores). O que está fora de discussão, porque os fatos o demonstram, é a inutilidade dessas "aulas". Por mais que se repita, ano após ano, que a regência de "preferir" é "preferir
 a" e não "preferir do que" ou "preferir mais do que", a maioria absoluta dos cidadãos, mesmo os cultos, continua a "errar". 

(O mesmo vale para outras listas de erros: em aulas, em sites ou em revistas, pessoas "sérias" se dedicam a escrever colunas informando que certas formas são erradas e que as certas são as outras. Mas precisam fazer isso sempre, porque ninguém aprende! A conclusão tem sido que os "alunos" são despreparados ou desinteressados. Mas está na hora de aceitar que essas aulas e essas listas não servem para nada.)
 

Ora, se todos aceitaram a nova concordância, por que a escola não pode aceitar? A escola deve continuar reprovando (ou diminuindo a nota) de alunos que não sabem que se "assiste
 ao filme" e dizem que "assistiram o filme", que não sabem que se "namora a Maria" ou "o Pedro" e continuam dizendo que "namoram com a Maria" ou "com o Pedro", e que "preferem isso do queficar sem namorar", que "se esqueceram que" aprenderam outra regência?  

Se as línguas mudam, por que não aceitar que estão mudando também agora? Por que não
 verque vivemos em uma época em que a mudança está sendo implementada, ou já foi implementada? Que já foi implementada na fala (não tem volta!) e não é implementada também na escrita apenas porque somos muito conservadores, porque perseguimos aqueles que adotam as novas formas?  

Outro exemplo: quando vamos aceitar que "sentar na mesa" não quer dizer "sentar sobre a / em cima da mesa"? "Em"
 quase nunca significa "sobre" ("mora na cidade" quer dizer 
"mora
 em cima da cidade"?). Nessa aulinha corrente, cometem-se dois erros: não se aceita a mudança da língua (erro histórico) e se ensina erradamente o sentido de "em" (erro de análise semântica)!  

Aceitar a mudança
Só há uma saída para a escola se ela quiser ser mais bem-sucedida: aceitar a mudança da língua como um fato. Isso deve significar que a escola deve aceitar qualquer forma da língua em suas atividades escritas? Não deve mais corrigir? Não! Isso não deve significar que a escola deve aceitar "de tudo", "qualquer jeito" de escrever, que não deve mais corrigir. Um dos papéis da escola é permitir que todos tenham acesso a um conjunto básico de bens culturais. Assim, deve fazer o possível para que todos os alunos aprendam a escrever no chamado português correto (o que não está fazendo!).
 

Para isso, ela deve saber que o português correto não é só o de antigamente. Há um português correto (falado pelas pessoas cultas) que é diferente (as diferenças são conhecidas) do português de antigamente. Essas diferenças não precisariam mais ser objeto de tantas aulas, cujo resultado é nulo exatamente porque se trata de formas que ninguém mais usa (a não ser os profissionais da escrita, e, muitas vezes, nem eles, como se pode ver todos os dias nos jornais e em outros impressos).

Um só português?
Há outra dimensão a ser considerada: de fato, no mundo real da escrita, não existe apenas
 um português correto, que valeria para todas as ocasiões e para todos os "suportes": o estilo dos contratos não é o mesmo do dos manuais de instrução; o dos juízes do Supremo não é o mesmo do dos cordelistas; o dos editoriais dos jornais não é o mesmo do dos cadernos de cultura dos mesmos jornais. Ou do de seus colunistas! 

O que a escola precisaria fazer, se quisesse que os alunos "cheguem perto" de dominar estes vários estilos, é ler e analisar textos escritos nesses diversos estilos, chamar a atenção para as diferentes construções, levar os alunos a escreverem e reescreverem textos até "chegarem perto" de dominar estes estilos.

O que a escola não deve mais - é inclusive um gasto inútil! - é fazer listas para os alunos decorarem. Se for minimamente competente (isto é, se seus especialistas souberem o que estão fazendo, se conhecerem seu serviço), deverá ter descoberto, já, que não é assim que se aprende uma língua, especialmente suas formas antigas ou irregulares. A verdadeira gramática está (estará?) na cabeça dos falantes.

Listas, fora!
 

Sírio Possenti
 é professor associado do departamento de linguística da Unicamp e autor de Língua, Texto e Discurso (Contexto)

 Fonte: https://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12305