Escritor não é revisor

22/07/2013 19:38

Polêmica no Enem mostra que, por mais útil que seja revisar, o importante mesmo é saber escrever

Por Sírio Possenti*

O pano de fundo aqui é a correção das redações do Enem. Ficou claro, comparadas as análises da mídia com as poucas declarações com os pontos de vista do Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais], que há dois discursos sobre o que uma redação deve medir, o que se deve corrigir, o que deve ser penalizado. 

Resumindo os pontos de vista da mídia: deve-se castigar duramente as brincadeiras e os erros de grafia e concordância. Resumindo os pontos de vista do Inep: deve-se valorizar ao máximo o que há de positivo num texto, especialmente sua organização, sua coerência. Erros podem até ser relevados, se não forem escandalosos ou repetidos. 

Outro discurso que a mídia explorou foi a nota: chamadas anunciavam que, apesar de "descalabros", a redação obtivera 500 ou 560 pontos, o que soava como grande escândalo, porque era "subnoticiado" que a nota máxima era 1.000. Para quem pensa que 10 (dez) é nota excelente, uma 500 atribuída a textos com erros como "trousse" parece desleixo do governo em relação à escola, à educação, à língua...  

Ideias originais
Vou citar três textos para explicitar uma posição sobre o tema (aliás, tratado em Língua 91). Observo apenas, e espero que isso seja considerado parte de um debate, que a expectativa mais exigente, a da professora Daniela Aizenstein ("os aspectos importantes são: ideias maduras e originais, estrutura organizada e linguagem bem construída") é, a rigor, impossível de ser atendida. Quem tem ideias originais? Ou, alternativamente: o que é uma ideia original? É original esperar ideias originais de redações de estudantes de 18 anos? Este não é um velho clichê? 

Em Ladrões de Palavras (editora da Unicamp: 350-1), Michel Schnei-der descreve o procedimento de escrita do romancista francês Chateubriand: "o escritor fazia um primeiro rascunho, apressado, indecifrável", que dava ao copista, que o passava a limpo. O escritor corrigia de novo: "grandes riscos pretos cancelando o descartado, palavras novas, ainda mais elegíveis". A cópia era retomada, e "assim por diante". 

Schneider noticia uma prática da escrita de quem de fato escreve: a reescrita. Nenhum escritor entrega ao editor seu primeiro rascunho, nem o segundo, como nas redações de todos os tipos, porque este seguramente ainda tem problemas. 

Interessados no assunto deveriam ler (em vez de só "exigir" o fim dos "erros") ao menos "Uma narrativa sobre Kafka", em O Último Leitor (Companhia das Letras), de Ricardo Piglia. Conhecendo um pouco a rotina dos escritores em sua relação com secretários e revisores, as exigências em relação à escrita seriam formuladas em outro patamar. 

Quixote
Outro documento iluminador é a análise de processos de escrita (e publicação) no século 17, analisados em Inscrever & Apagar, de Roger Chartier (Editora Unesp). Os estudos que Chartier publica (com implicações interessantes sobre as questões da autoria e dos originais) consideram episódios do D. Quixote que se passam em tipografias (aspecto raramente mencionado por quem não lê Quixote e só ouviu falar dos moinhos de vento...). 

Chartier descreve em detalhes as práticas que vão do ditado (de cartas, etc.) à cópia feita por profissionais da escrita, os que sabem escrever corretamente e têm letra boa - dois predicados frequentemente ausentes nos escritores. Destaca os tipos (quatro) de revisores de uma "editora": os graduados nas universidades, que conhecem gramática, teologia e direito (...), mas ignoram as técnicas da profissão; os mestres impressores iniciados em língua latina; os compositores (...); e, por fim, os ignorantes, que mal sabem ler (e produzem textos mais comuns). 

Competências
O que importa destacar é que, de alguma forma, o autor está dispensado de saber um conjunto de coisas (de ter algumas competências, dir-se-ia hoje). O que se espera dele é que domine outras: em suma, que saiba escrever... (o recado é claro: escreva, você que sabe fazer isso, e deixe que nós "corrigimos" o necessário para que seu escrito resulte em obra publicada). É aqui que entra a questão do original: uma primeira edição pode estar longe de ser um original. 

Finalmente, cito o jornal Folha de S.Paulo (22/ 5/2013):  
 "Toda terça, lá pelas quatro da tarde, envio a crônica para a Andressa Taffarel, a Lívia Scatena e a Daniela Mercier, redatoras aqui do Cotidiano. Duas horas depois, mais ou menos, uma delas me devolve o texto com todos os meus descalabros diligentemente corrigidos e grifados de amarelo. São erros de ortografia e de digitação, vírgulas e mais vírgulas que vão pro beleléu, um ou outro ajuste ao padrão Folha - séculos 'XXI' que se adéquam aos ditames do 21, 'cowboys' que aprendem a falar sem a afetação do sotaque, como bons caubóis, 'quinze pras seis' que trocam a imprecisão das letras pela pontualidade dos números: 17h45".

O texto é de Antonio Prata. Os leitores do jornal o conhecem. É pena, provavelmente, que não conheçam as três redatoras que consertam o texto dele, que devem ser ótimas profissionais. Ponha-se o depoimento de Prata ao lado das avaliações que circularam sobre a correção do Enem. A conclusão é que, se Prata estiver dizendo a verdade (deve estar), teria sido penalizado por leitores e quase todos os jornalistas que comentaram o fato. Mas, provavelmente, o que é bom, muito bom, não teria sido mal avaliado pelos corretores das provas do Enem. 

Clichês midiáticos
No fundo, a "mídia", que, neste aspecto, só repete lugares comuns (e, pelo que Prata revelou, não os aplica a si mesma) espera que os estudantes estejam prontos para serem revisores. 

As orientações do Inep são bem mais interessantes: espera-se que o candidato esteja mais para Prata do que para as redatoras que corrigem o texto dele. Porque ele escreve! Elas não! Não concluo que não se deve ou não é bom saber ortografia e quejandos. Não defendo esta posição. Só constato que quem escreve (insisto em "escreve"), antigamente ou hoje, eventualmente ou geralmente - não é bom revisor. E vice-versa. 

O que as provas devem selecionar, de preferência? Sustento que, por mais interessante e útil que seja revisar, mais importante é escrever. Boa redação (nota 1.000, talvez) é a que, depois de revisada (por outros), merece 1.000. Simples assim.

 

Fonte: https://revistalingua.uol.com.br/textos/93/escritor-nao-e-revisor-292129-1.asp

 

*Sírio Possenti é Professor Titular do Departamento de Linguística da UNICAMP e autor de Humor, Língua e Discurso (Contexto)