E o lepo-lepo?

08/04/2014 19:28

 

 

O carnaval passou. Ainda bem. O ano tinha mesmo que começar. Como a quinta e a sexta feiras ainda soavam como ressacas carnavalescas, resolvi tirar uma dúvida virtual: Acessei o youtube para tentar descobrir quantas visualizações tinham as duas músicas-chicletes deste ano na rede. Quais sejam: “lepo-lepo” e “beijinho no ombro”. Fiquei pasmo: A primeira que citei tinha 5 milhões de visualizações, e a segunda tinha 15 milhões. Sim, ouvinte e incrédulo leitor: Duas músicas com 20 milhões de visualizações. É como se um em cada dez brasileiros tivesse ouvido uma das tais músicas. É muito? Demais, admito.

Debrucei-me no computador para tentar entender, bem racionalmente, a razão de tanto estardalhaço. Vi os dois clipes. O do beijinho causou-me mais impacto visual do que sonoro. Tem até referências medievais no clipe. Um “chiquerê” só!  Já o lepo-lepo foi para mim uma inovação sonoro-sociológica. Ironias da minha parte? Não. Pense comigo: Qual é o tema das músicas tipo funk ostentação? Respondo: Aquele cara que rasga dinheiro, tem super carros potentes vermelhos, amarelos ou (agora) brancos, motos de corrida, roupas de grifes caríssimas, bebidas que custam o olho da cara, certo? E com isso tudo ele conquista as mulheres. Você sinceramente acha que ele seja o cara?

Agora pense no cara do lepo-lepo: Como a própria letra sugere, ele não tem carro, não tem teto, o salário está atrasado e se a mulher quiser ficar com ele é porque gosta. Isso não é inovador? Convenhamos: O sujeito é pobretão, mas é amado. E olha que estamos imersos numa sociedade capitalista! O outro precisa ter todo aquele aparato pra se dar bem. E olha que talvez nem seja amado e sim usado pelas coisas que ostenta. Entende agora o meu ponto de vista aparentemente maluco? Não quero aqui discutir se o cara é um amante latino, irresistível. Só digo que em matéria de sentimento e felicidade o cara do lepo-lepo pode estar em vantagem se o assunto for ser e não ter. Também não estou dizendo que as músicas A, B, C, ou Z sejam melhores que outras. É só um texto para refletirmos um pouco. Os Estadunidenses (sempre eles!!) têm uma frase de filme que eu gosto muito: Estamos num país livre. E é verdade. Cada um gosta da música que quer. Eu, pessoalmente acho que qualquer música é valida; só depende do contexto. Ou você vai querer ouvir música clássica em plena folia do momo? E como já dizia o artista (que agora esqueci o nome): Falem bem ou falem mal, Mas falem! Porque enquanto você fala, você pensa. E se você pensa se torna alguém mais esclarecido e crítico. Só tome cuidado para o seu ser culto não passar a ser curto no que se refere à intolerância para com a cultura do outro.

Ah! Você ainda está esperando para saber minha opinião sobre as músicas mais tocadas no carnaval deste ano? Desculpe, essa ficarei te devendo uma resposta exata. Procure nas entrelinhas...

Abraço cordial!!!

Como é um texto sobre música, dedico-o então aos ótimos músicos Marquinho Aniceto e Ulysses Batista.

(Eduardo C. Souza é professor de História e escreve mensalmente neste espaço. Ele defende que música boa é aquela que te faz bem. E ponto). 

 

Confira outros textos do autor no linkColuna do Eduardo.