De quem é a culpa?

03/03/2016 18:29

 

Dezembro. Aquele período pós-Natalino, do qual você não tem muita certeza de que época é, se é domingo permanentemente, ou se o ano que vem, nunca chegará. Escolhi uma mesa de shopping, enquanto minha mãe trocava alguns presentes que não haviam ficado perfeitos em seu gosto. Afinal de contas, mães são mães. Na mesa ao lado, dois jovens. Estavam plugados, “logados”, “linkados”, ligados e tantos outros termos referentes a essa onda digital e virtual que nos cerca. O papo era sobre a moça infiel e um certo carro que eles adoram rebaixar, pra ficar mais maneiro, como diziam. Dentro do possível, até era uma conversa amistosa.

Então, o assunto migrou para outro mais sombrio e violento: O caso do pai que havia sido filmado dando uma surra de cinto na filha. O caso e o vídeo ganharam o Brasil. Impossível não tratar do assunto. Impossível não ouvir a conversa. Só o sinal vermelho com a senha do meu almoço me tiraria a atenção. Esforcei-me para captar:

__ Cara! Você viu o pai batendo na filha? Covardia, mano!

__ Claro que vi! E compartilhei para os oito grupos que tinha no whatsapp! Vagabundo! Tinha que ser preso.

__ Mas ele foi preso.

__ Sério, mano?

__ Sério. Será que foi o que compartilhamos que chegou até a polícia? Sei lá. A gente queria que o cara pagasse, só isso. Você já imaginou se fosse aquela menina, apanhando?

__ Sei não. A culpa é quem? Do cara que bateu? Da gente que compartilhou? Da mulher que filmou?

__ Pelo amor de deus, cara! Você acha que foi a primeira vez que a menina apanhou? E a mulher, será que não apanhava também? A gente tinha que compartilhar mesmo!

__ Tenho medo, sei lá...

Após essas falas, não captei mais nada. Ouvia apenas as cadeiras da praça de alimentação se arrastarem. A minha senha acendeu no painel. Número 129. Lembrei-me de conversa com o amigo/padrinho, que também é advogado. Havia falado deste número no código penal, relativo à lesão corporal. Coincidência? Não acredito em coincidências, mas que há relações causas/consequências em tudo no universo.

Peguei minha refeição e confesso que ela desceu quadrada. Fiquei a pensar na mulher que havia filmado tudo e em sua culpa. Pensei na menina que apanhava e, quem sabe agora, será melhor tratada. E no homem agressor, que possivelmente virou vítima do sistema. Pensei ainda em cada pessoa que viu o vídeo, não se conformou e o compartilhou, na esperança de ser parte da justiça. E também naqueles meninos, que por vezes fazem uso irresponsável da tecnologia. E por fim, pensei em mim, que também não estou imune a isso tudo.

Assim que acabei minha refeição, fui andar pelos corredores e prometi, a mim mesmo, que não compartilharia mais vídeos em redes sociais, fosse de qualquer tipo. Afinal de contas, de quem é a culpa?

Abraço cordial!!!

(Eduardo C. Souza  é escritor- autor de Memórias de um Homem quase sensato.- autor de Memórias de um homem quase sensato- e professor de História. Escreve neste espaço mensalmente e aprendeu, na dor, a usar as redes sociais de forma ética e responsável.)