De ônibus rola?

01/11/2013 22:06

   

 

Domingo à noite. Estava sentado em uma daquelas cadeiras azuis de uma rodoviária qualquer. A musiquinha de abertura do Fantástico alertava-me que, de fato, a segunda-feira já se anunciava ferrenha. Como o frio fora de época incomodava minhas nuas canelas, encolhi-me e fiquei ali à espera do ônibus que viria.

De repente ouvi de uma simpática moça sentada ao meu lado como era bom viajar de ônibus. “Como assim, cara pálida?” pensei comigo. Nestes tempos de aviões supersônicos a cortarem os céus em minutos ou supercarros velozes e furiosos a chegarem a estados diferentes em parcas horas, como gostar de ônibus ou metrôs, ou como diria o grupo “O Rappa”: O avião do trabalhador?

Ela então pôs-se a me contar como era bom no seu tempo de menina, em suas viagens para as praias do Espírito Santo, quando viajava aos pés de sua mãe, como um anjinho protegido. E a mágica de adormecer com o barulho do motor, pegar no sono e só acordar em um lugar novo, com cheiro de mar? Um lugar com o qual você sonhava ir o ano inteiro?

Pensei nisto tudo e comecei a tentar, também, ver o lado bom das rodoviárias: Nelas a simplicidade impera, certo? Não é nenhuma mostra ostentosa de malas “L.V.” e saltos agulha vermelhos a desfilarem nos galpões de embarque, como é nos aeroportos. A coxinha e o café pingado da rodoviária não existem nos aeroportos. Nesses você tem que se contentar em desembolsar pequenas fortunas, mais precisamente cerca de 20 ‘pilas’, para tomar um cappuccino  e comer um pão de queijo cheio de corantes, conservantes e anabolizantes. No aeroporto também não rola ficar vendo nos letreiros dos ônibus que chegam se o seu é aquele mesmo. E o cara vendendo água? Não tem igual àquela voz chiada e o barulho do chinelo arrastando.

Não sou algoz do progresso, nem amante do passado. Apenas valorizo o que é bom, seja para mim ou alguém próximo. Também tento saber e diferenciar o que me faz bem, do contrário. E cá pra nós: simplicidade é bom, não é?

Daí continuamos a conversa e o ônibus que os parentes da moça pegariam não vinha. Embora o frio aumentasse com o passar dos minutos, eu não queria que o dito viesse. E de outros ônibus desciam pessoas sonolentas a procurarem banheiros, cafés, coxinhas, cigarros... Embora confinados por horas a fio nestes ônibus, duvido e comprovo que nenhum dos aviões com classe econômica atuando em linhas regulares tenha as poltronas mais largas, macias e confortáveis do que estes bólidos sobre rodas. Sem falar no espaço para as pernas...

Comparações, saudosismos e romantismos à parte, o fato é que o ônibus que a moça esperava chegou. Para o meu desalento, claro. Seus parentes embarcaram, ocorreram aqueles acenos de mãos clássicos,  o programa do Fantástico com sua vinheta centenária prosseguiu e eu também tive que seguir meu rumo. Fiquei ali por mais alguns minutos a degustar cheiros, gostos, e rostos das rodoviárias de minha infância e adolescência, enquanto o barulho dos motores à diesel anunciava outras chegadas e partidas: o normal para nossas vidas.

Enquanto isso, a antes simpática e agora linda, educada e gentil moça de chinelos verdes e capuz bege ia embora. Senti que a veria de novo, com certeza...

Abraço cordial!!!

 

Desta vez você já sabe a quem dedico esta crônica, certo?

 

( Eduardo C. Souza é professor de História e escreve mensalmente neste espaço. Ele também adora cochilar com o barulho do motor dos ônibus).

 

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