CRÔNICAS DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

14/07/2014 14:25

 

Luís Fernando Veríssimo é escritor brasileiro. Famoso por suas crônicas e contos de humor. É também jornalista, tradutor, roteirista de programas para televisão e músico. É filho do escritor Érico Veríssimo.

 
Crônicas: 
 
 
1 - Minhas Férias
 
 
Eu, minha mãe, meu pai, minha irmã, Su, e meu cachorro, Dogman, fomos fazer camping. Meu pai decidiu fazer camping este ano porque disse que estava na hora de a gente conhecer a natureza de perto, já que eu, a minha irmã  e o meu cachorro  nascemos em apartamento, e, até cinco anos de idade, sempre que via um passarinho numa árvore, eu gritava “aquele fugiu!” e corria para avisar um guarda; mas eu acho que meu pai decidiu fazer camping depois que viu os preços dos hotéis, apesar da minha mãe avisar que, na primeira vez que aparecesse uma cobra, ela voltaria para casa correndo, e minha irmã  insistir em levar o toca-disco e toda a coleção de discos dela, mesmo o meu pai dizendo que aonde nós íamos não teria corrente elétrica, o que deixou minha irmã  muito irritada, porque, se não tinha corrente elétrica, como ela ia usar o secador de cabelo? Mas eu e o meu cachorro gostamos porque o meu pai disse que nós íamos pescar e cozinhar nós mesmos o peixe pescado no fogo, e comer o peixe com as mãos, e se há uma coisa que eu gosto é confusão. Foi muito engraçado o dia em que minha mãe abriu a porta do carro bem devagar, espiando embaixo do banco com cuidado e perguntando “será que não tem cobra?”, e o meu pai perdeu a paciência e disse “entra no carro e vamos embora”, porque nós ainda nem tínhamos saído da garagem do edifício. Na estrada tinha tanto buraco que o carro quase quebrou, e nós atrasamos, e quando chegamos no lugar do camping já era noite, e o meu pai disse “este parece ser um bom lugar, com bastante grama e perto da água”, e decidimos deixar para armar a barraca no dia seguinte e dormir dentro do carro mesmo; só que não conseguimos dormir, porque o meu cachorro passou a noite inteira querendo sair do carro, mas a minha mãe não deixava abrirem a porta, com o medo de cobra; e no dia seguinte tinha a cara feia de um homem nos espiando pela janela, porque nós tínhamos estacionado o carro no quintal da casa dele, e a água que o meu pai viu era a piscina dele e tivemos que sair correndo. No fim conseguimos um bom lugar para armar a barraca, perto de um rio. Levamos dois dias para armar a barraca, porque a minha mãe tinha usado o manual de instruções para limpar umas porcarias que meu cachorro fez dentro do carro, mas ficou bem legal, mesmo que o zíper da porta não funcionasse e para entrar ou sair da barraca a gente tivesse que desmanchar tudo e depois armar de novo. O rio tinha um cheiro ruim, e o primeiro peixe que nós pescamos já saiu da água cozinhando, mas não deu para comer, e o melhor de tudo é que choveu muito, e a água do rio subiu, e nós voltamos pra casa flutuando, o que foi muito melhor que voltar pela estrada esburacada; quer dizer que no fim tudo deu certo.
 
Veríssimo, Luis FernandoO Santinho. Rio de Janeiro. Objetiva
 
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2 - Inimigos
 
“O apelido de Maria Tereza, para Norberto, era ‘Quequinha’. Depois do casamento, sempre que queria contar para os outros uma de sua mulher, o Norberto pegava na sua mão, carinhosamente, e começava:
 
- Pois a Quequinha...
 
E a Quequinha, dengosa, protestava:
 
-Ora, Beto!
 
Com o passar do tempo o Norberto deixou de chamar a Maria Tereza de Quequinha. Se ela estivesse ao seu lado e ele quisesse se referir a ela, dizia:
 
-A mulher aqui...
 
Ou, às vezes:
 
-Esta mulherzinha...
 
Mas nunca mais Quequinha.
 
(O tempo, o tempo. O amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo. O tempo ataca o silêncio. O tempo usa armas químicas.)
 
Com o tempo, Norberto passou a tratar a mulher por Ela.
 
-Ela odeia o Charles Brason.
 
-Ah, não gosto mesmo.
 
Deve-se dizer que o Norberto, a esta altura, embora a chama-se de Ela, ainda usava um vago gesto de mão para indicá-la. Pior foi quando passou a dizer ‘essa ai’ e a apontava com o queixo.
 
- Essa ai...
 
E apontava com o queixo, até curvando a boca com um certo desdém.
 
(O tempo, o tempo. Tempo captura o amor e não o mata na hora. Vai tirando uma asa, depois cura)
 
Hoje, quando quer contar alguma coisa da mulher, O Norberto nem olha na direção. Faz um meneio de lado com a cabeça e diz:
 
- Aquilo...”
 
VERÍSSIMO, Luis FernandoNovas comédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1996.
 
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3 - A bola
 
O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar sua primeira bola do pai. Uma número 5 oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola. O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “legal”, ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.
 
- Como é que liga? – Perguntou.
 
- Como, como é que liga? Não se liga.
 
O garoto procurou dentro do papel de embrulho.
 
- Não tem manual de instrução?
 
O pai começou a desanimar e pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.
 
- Não precisa manual de instrução.
 
- O que é que ela faz?
 
- Ela não faz nada, você é que faz coisas com ela.
 
- O quê?
 
- Controla, chuta...
 
- Ah, então é uma bola.
 
Uma bola, bola. Uma bola mesmo. Você pensou que fosse o quê?
 
- Nada não.
 
O garoto agradeceu, disse “legal” de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da TV, com a bola do seu lado, manejando os controles do vídeo game. Algo chamado Monster Ball, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de Blip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio. Estava ganhando da máquina.
 
O pai pegou a bola nova e ensinou algumas embaixadinhas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.
 
- Filho, olha.
 
O garoto disse “legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e o cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro do couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês pra garotada se interessar.
 
Veríssimo, Luis FernandoA bola. Comédias da vida privada; edição especial para as escolas. Porto Alegre: L&PM, 1996. P. 96-7
 
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4– O que faz bem pra saúde? - Luis Fernando Veríssimo

 
Cada semana, uma novidade.
A última foi que pizza previne câncer do esôfago.
Acho a maior graça.
Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas peraí, não exagere...
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.
Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz eu me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois eu rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas, me incham o cérebro, volto cheio de ideias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais os médicos deveriam proibir - como doem!
Essa história de que sexo faz bem pra pele acho que é conversa, mas mal tenho certeza de que não faz, então, pode-se abusar.
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem: você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde.
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda.
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou muçarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, UAU!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca.
Beijar é melhor do que fumar.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Tomo pouca água, bebo mais que um cálice de vinho por dia, faz dois meses que não piso na academia, mas tenho dormido bem, trabalhado bastante, encontrado meus amigos, ido ao cinema e confiado que tudo isso pode me levar a uma idade avançada.
Sonhar é melhor do que nada.
 
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5 - PAPOS
 
“- Me disseram...
 
- Disseram-me
 
- Hein?
 
- O correto é ‘disseram-me’. Não ‘me disseram’.
 
- Eu falo como quero. E te digo mais... Ou ‘digo-te’?
 
- O quê?
 
- Digo-te que você...
 
- O ‘te’ e o ‘você’ não combinam.
 
- Lhe digo?
 
- Também não. O que você ia me dizer?
 
- Que você tá sendo grosseiro, pedante e chato. E que vou te partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?Aaahh
 
- Partir-te a cara.
 
- Pois é. Partir-la-ei  se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.
 
- É para o seu bem.
 
- Dispenso as suas correções. Vê se esquece- me. Falo como bem entender. Mas uma correção e eu...
 
- O quê?
 
- O mato.
 
- Que mato?
 
- Mato-o. Mato-lhe. Matar- lhe- ei- te. Ouviu bem?
 
- Eu só estava querendo...
 
- Pois esqueça-o e para- te. Pronome no lugar certo é elitismo.
 
- Se você prefere falar errado...
 
- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem- me?
 
- No caso... Não sei.
 
- Ah, não sabes? Não o sabes? Sabes-lo não?
 
- Esquece.
 
- Não. Como ‘esquece’ ou ‘esqueça’? Ilumine- me. Me diga. Ensines-lo-me. Vamos!
 
- Depende.
 
- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar- me- lo- ias se o soubesse, mas não sabes-o.
 
- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.
 
- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que me dás. Mas não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.
 
- Por quê?
 
- Porque, como todo esse papo, esqueci-lo.”
 
Veríssimo, Luis FernandoNovas comédias da vida pública – a versão dos afogados. Porto Alegre: L&PM, 1997.
 
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6 - Aquela bola – Crônica de Luis Fernando Veríssimo
 

Na volta do jogo, o pai dirigindo o carro, a mãe ao seu lado, o garoto no banco de trás, ninguém dizia nada. Finalmente o pai não se aguentou e falou:

- Você não podia ter perdido aquela bola, Rogério.

- Luiz Otávio… – começou a dizer a mãe, mas o pai continuou:

- Foi a bola do jogo. Você não dividiu, perdeu a bola e eles fizeram o gol.

- Deixa o menino, Luiz Otávio.

- Não. Deixa o menino não. Ele tem que aprender que, numa bola dividida como aquela, se entra pra rachar. O outro, o loirinho, que é do mesmo tamanho dele, dividiu, ficou com a bola, fez o passe para o gol e eles ganharam o jogo.

- O loirinho se chama Rubem. É o melhor amigo dele.

- Não interessa, Margarete. Nessas horas não tem amigo. Em bola dividida, não existe amigo.

- E se ele machucasse o Rubem?

- E se machucasse? O Rubem teve medo de machucá-lo? Não teve. Entrou mais decidido do que ele na bola, ficou com ela e eles ganharam o jogo.

- Você está dizendo para o seu filho que é mais importante ficar com a bola do que não machucar um amigo?

- Estou dizendo que em bola dividida ganha quem entra com mais decisão. Amigo ou não.

- Vale rachar a canela de um amigo pra ficar com a bola?

- Vale entrar com firmeza, só isso. Pé de ferro. Doa a quem doer.

- É apenas futebol, Luiz Otávio.

- Aí é que você se engana. Não é apenas futebol. É a vida. Ele tem que aprender que na vida dele haverão várias ocasiões em que ele terá que dividir a bola pra rachar e….

- Haverá – disse Rogério, no banco de trás.

- O quê?

- Acho que não é “haverão”. É “haverá”. O verbo haver não…

- Ah, agora estão corrigindo meu português. Muito bem! Eu não sou apenas o pai insensível, que quer ver o filho quebrando pernas pra vencer na vida. Também não sei gramática.

- Luiz Otávio…

- Pois fiquem sabendo que o que se aprende na vida é muito mais importante do que o que se aprende na escola. Está me ouvindo, Rogério? Um dia você ainda vai agradecer ao seu pai por ter lhe ensinado que na vida vence quem entra nas divididas pra valer.

- Como você, Luiz Otávio?

- O quê?

- Você dividiu muitas bolas pra subir na vida, Luiz Otávio? Não parece, porque não subiu.

- Ora, Margarete…

- Conta pro Rogério em quantas divididas você entrou na sua vida. Conta por que o Simão acabou chefe da sua seção enquanto você continuou onde estava. Conta!

- Margarete…

- Conta!

- Eu estava falando em tese…

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7 - O nariz
 
Era um dentista respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes, mas de uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles narizes de borracha com óculos de aros pretos, sobrancelhas e bigodes que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou-se à mesa de almoço – sempre almoçava em casa – com a retidão costumeira, quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço.
 
- O que é isso? – perguntou a mulher depois da salada, sorrindo menos.
 
- Isto o quê?
 
- Esse nariz.
 
- Ah, vi numa vitrina, entrei e comprei.
 
- Logo você, papai...
 
Depois do almoço ele foi recostar-se no sofá da sala como fazia todos os dias. A mulher impacientou-se.
 
- Tire esse negócio.
 
- Por quê?
 
- Brincadeira tem hora.
 
- Mas isto não é brincadeira.
 
Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora, levantou-se e dirigiu-se para a porta. A mulher o interpelou:
 
- Aonde é que você vai?
 
- Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório.
 
- Mas com esse nariz?
 
- Eu não compreendo você – disse ele, olhando-a com censura através dos aros sem lentes. – Se fosse uma gravata nova, você não diria nada. Só porque é um nariz...
 
- Pense nos vizinhos. Pense nos clientes.
 
Os clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha. Deram risadas (“Logo o senhor, doutor...”), fizeram perguntas, mas terminaram a consulta intrigados e saíram do consultório com dúvidas.
 
- Ele enlouqueceu?
 
- Não sei – respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos. – Nunca vi “ele” assim.
 
Naquela noite, ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de dormir. Depois, vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar.
 
- Você vai usar esse nariz na cama? – perguntou a mulher.
 
Vou. Aliás, não vou mais tirar este nariz.
 
- Mas, por quê?
 
- Porque não!
 
Dormiu logo. A mulher passou metade da noite olhando para o nariz de borracha. De madrugada começou a chorar baixinho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado. Uma carreira brilhante, uma reputação, um nome, uma família perfeita, tudo trocado por um nariz postiço.
 
- Papai...
 
- Sim, minha filha.
 
- Podemos conversar?
 
- Claro que podemos.
 
- É sobre esse seu nariz...
 
- O meu nariz, outra vez? Mas vocês só pensam nisso?
 
- Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para outra, um homem como você resolve andar de nariz postiço e não quer que ninguém note?
 
- O nariz é meu e vou continuar a usar.
 
- Mas por que, papai? Você não se dá conta de que se transformou no palhaço do prédio? Eu não posso mais encarar os vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem mais vida social.
 
- Não tem porque não quer...
 
- Como é que ela vai à rua com um homem de nariz postiço?
 
- Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai. Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma diferença. Se não faz nenhuma diferença, por que não usar?
 
- Mas, mas...
 
- Minha filha.
 
- Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais meu pai!
 
A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não sabia o que esperar de um homem que usava nariz postiço. Evitava aproximar-se dele. Mandou o pedido de demissão pelo correio. Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra.
 
- Você vai concordar – disse o psiquiatra depois de concluir que não havia nada de errado com ele – que seu comportamento é um pouco estranho...
 
- Estranho é o comportamento dos outros! – disse ele. – Eu continuo o mesmo. Noventa e dois por cento do meu corpo continua o que era antes. Não mudei a maneira de vestir, nem de pensar, nem de me comportar. Continuo sendo um ótimo dentista, um bom marido, bom pai, contribuinte, sócio do fluminense, tudo como antes. Mas as pessoas repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples nariz de borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?
 
- É... – disse o psiquiatra. – Talvez você tenha razão...
 
O que é que você acha, leitor? Ele tem razão? Seja como for, não se entregou. Continua a usar o nariz postiço. Porque agora não é mais uma questão de nariz. Agora é uma questão de princípios.
 
Veríssimo, Luís FernandoO nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1994.p.73-74. Coleção para gostar de ler.
 
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8 - Brincadeira
 
Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:
 
- Eu sei de tudo.
 
Depois de um silêncio, o outro disse:
 
- Como é que você soube?
 
- Não interessa. Sei de tudo.
 
- Me faz um favor. Não espalha.
 
- Vou pensar.
 
- Por amor de Deus.
 
- Está bem. Mas olhe lá, hein?
 
Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.
 
- Sei de tudo.
 
- Co- como?
 
- Sei de tudo.
 
- Tudo o quê?
 
- Você sabe.
 
- Mas é impossível. Como é que você descobriu?
 
A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:
 
- Alguém mais sabe?
 
Outras se tornavam agressivas:
 
- Está bem, você sabe. E daí?
 
- Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.
 
- Se você contar para alguém, eu...
 
- Depende de você.
 
- De mim, como?
 
- Se você andar na linha, eu não conto.
 
- Certo.
 
Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.
 
- Eu sei de tudo.
 
- Tudo o quê?
 
- Você sabe.
 
- Não sei. O que é que você sabe?
 
- Não se faz de inocente.
 
- Mas eu realmente não sei.
 
- Vem com essa.
 
- Você não sabe de nada.
 
- Ah, quer dizer que existe alguma coisa pra saber, mas eu é que não sei o que é?
 
- Não existe nada.
 
- Olha que eu vou espalhar...
 
- Pode espalhar que é mentira.
 
- Como é que você sabe o que eu vou espalhar?
 
- Qualquer coisa que você espalhar será mentira.
 
- Está bem. Vou espalhar.
 
Mas dali a pouco veio um telefonema.
 
- Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre nada daquilo.
 
- Aquilo o quê?
 
- Você sabe.
 
Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:
 
- Você contou para alguém?
 
- Ainda não.
 
- Puxa. Obrigado.
 
Com o tempo, ganhou uma reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.
 
- Por que eu? – quis saber.
 
- A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. – Recomendei você.
 
- Por quê?
 
- Pela sua descrição.
 
Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem-informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:
 
- Sei de tudo.
 
- Co- como?
 
- Sei de tudo.
 
- Tudo o quê?
 
- Você sabe.
 
Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigara. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que em uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que mais se ouvia era a dele, gritando:
 
- Era brincadeira! Era brincadeira!
 
Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.
 
Sabia demais.
 
(Luis Fernando VeríssimoComédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1995. P. 189-91.)
 
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9 - O estranho procedimento de dona Dolores
 
Começou na mesa do almoço. A família estava comendo – pai, mãe, filho e filha – e de repente a mãe olhou para o lado, sorriu e disse:
 
- Para a minha família, só serve o melhor. Por isso eu sirvo arroz Rizobon. Rende mais e é mais gostoso.
 
O pai virou-se rapidamente na cadeira para ver com quem a mulher estava falando. Não havia ninguém.
 
- O que é isso, Dolores?
 
- Tá doida, mãe?
 
Mas dona Dolores parecia não ouvir. Continuava sorrindo. Dali a pouco levantou-se da mesa e dirigiu-se para a cozinha. Pai e filhos se entreolharam.
 
- Acho que a mamãe pirou de vez.
 
- Brincadeira dela...
 
A mãe voltou da cozinha carregando uma bandeja com cinco taças de gelatina.
 
- Adivinhem o que tem de sobremesa?
 
Ninguém respondeu. Estavam constrangidos por aquele tom jovial de dona Dolores, que nunca fora assim.
 
- Acertaram! – exclamou dona Dolores, colocando a bandeja sobre a mesa. – Gelatina Quero Mais, uma festa em sua boca. Agora com os novos sabores framboesa e manga.
 
O pai e os filhos começaram a comer a gelatina, um pouco assustados. Sentada à mesa, dona Dolores olhou de novo para o lado e disse:
 
- Bote esta alegria na sua mesa todos os dias. Gelatina Quero Mais. Dá gosto comer!
 
Mais tarde o marido de Dona Dolores entrou na cozinha e a encontrou segurando uma lata de óleo à altura do rosto e falando para uma parede.
 
- A saúde da minha família em primeiro lugar. Por isto, aqui em casa só uso o puro óleo Paladar.
 
- Dolores...
 
Sem olhar par o marido, dona Dolores o indicou com a cabeça.
 
- Eles vão gostar.
 
O marido achou melhor não dizer nada. Talvez fosse caso de chamar um médico. Abriu a geladeira, atrás de uma cerveja. Sentiu que dona Dolores se colocava atrás dele. Ela continuava falando para a parede.
 
- Todos encontram tudo o que querem na nossa Gelatec, agora com pratileiras superdimensionadas, gavetas em Vidro - Glass e muito, mas muito mais espaço. Nova Gelatec Espacial, a cabe - tudo.
 
- Pare com isso, Dolores!
 
Mas dona Dolores não ouvia.
 
Pai e filhos fizeram uma reunião secreta, aproveitando que dona Dolores estava na frente da casa, mostrando para uma platéia invisível as vantagens de uma nova tinta de paredes.
 
- Ela está nervosa, é isso.
 
- Claro. É uma fase. Passa logo.
 
- É melhor nem chamar a atenção dela.
 
- Isso. É nervos.
 
Mas dona Dolores não parecia nervosa. Ao contrário, andava muito calma. Não parava de sorrir para seu público imaginário. E não podia passar por membro da família sem virar-se para o lado e fazer um comentário afetuoso:
 
- Todos andam muito mais alegres desde que eu comecei a usar Limpol nos ralos.
 
Ou:
 
- Meu marido também passou a usar desodorante Silvester. E agora todos aqui em casa respiram aliviados.
 
Apesar do seu ar ausente, dona Dolores não deixava de conversar com o marido e com os filhos.
 
- Vocês sabiam que o laxante Vida Mansa agora tem dois ingrediente recém-desenvolvidos pela ciência que o tornam duas vezes mais eficiente?
 
- O quê?
 
- Sim, os fabricantes de Vida Mansa não descansam para que você possa descansar.
 
- Dolores...
 
Mas dona Dolores estava outra vez virada para o lado, e sorrindo:
 
- Como esposa e mãe, eu sei que minha obrigação é manter a regularidade da família. Vida Mansa, uma mãozinha da ciência à natureza. Experimente!
 
Naquela noite o filho levou um susto. Estava escovando os dentes quando a mãe entrou de surpresa no banheiro, pegou a sua pasta de dente e começou a falar para o espelho:
 
- Ele tinha horror de escovar os dentes até que eu segui o conselho do dentista, que disse a palavra mágica: Zaz. Agora escovar os dentes é um prazer, não é, Jorginho?
 
- Mãe, eu...
 
- Diga você também a palavra mágica. Zaz! O único com HXO.
 
O marido de dona Dolores acompanhava, apreensivo, da cama, o comportamento da mulher. Ela estava sentada na frente do toucador e falando para uma câmara que só ele via, enquanto passava creme no rosto.
 
- Marcel de Paris não é apenas um creme hidratante. Ele devolve à sua pele o fresco que o tempo levou, e que parecia perdido para sempre. Recupere o tempo perdido com Marcel de Paris.
 
Dona Dolores caminhou, languidamente, para a câmara, deixando cair seu robe de chambre no caminho. Enfiou-se entre os lençóis e beijou o marido na boca. Depois, apoiando-se num cotovelo, dirigiu-se outra vez para a câmara.
 
- Ele não sabe, mas estes lençóis são da nova linha Passional da Santex. Bons lençóis para maus pensamentos. Passional da Santex. Agora, tudo pode acontecer...
 
[...]
 
(Luis Fernando Veríssimo. O nariz e outrcaas crônicas. São Paulo: Ática, 1994.p.48-50.)
 
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10 - Desabafo de um bom marido – Luís Fernando Veríssimo.
 
Minha esposa e eu temos o segredo pra fazer um casamento durar:duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante, com uma comida gostosa, uma boa bebida, e um bom companheirismo.Ela vai às terças-feiras, e eu às quintas . 
Nós também dormimos em camas separadas. A dela é em Fortaleza e a minha em São Paulo .Eu levo minha esposa a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta. Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento. "Em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!" ela disse. Então eu sugeri a cozinha.
 
Minha esposa e eu sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.

Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica.
Então ela disse: 'Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar'.
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.

Eu me casei com a 'Senhora Certa'. Só não sabia que o primeiro nome dela era 'Sempre'.

Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la.
Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: 'O que tem na TV?' E eu disse 'Poeira'.

No começo Deus criou o mundo e descansou.
Então, Ele criou o homem e descansou.
Depois, criou a mulher. Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o mundo tiveram mais descanso.

Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes, o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim. Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer.
Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa.
Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dente e lhe entreguei.
'-Quando você terminar de cortar a grama, ' eu disse, 'você pode também varrer a calçada. '
Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida'.

'O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido... '

(Luís Fernando Veríssimo)
 
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11 - O lixo
 
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
 
- Bom dia...
 
- Bom dia.
 
- A senhora é do 610.
 
- E o senhor do 612
 
- É.
 
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
 
- Pois é...
 
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
 
- O meu quê?
 
- O seu lixo.
 
- Ah...
 
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
 
- Na verdade sou só eu.
 
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
 
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
 
- Entendo.
 
- A senhora também...
 
- Me chame de você.
 
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
 
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
 
- A senhora... Você não tem família?
 
- Tenho, mas não aqui.
 
- No Espírito Santo.
 
- Como é que você sabe?
 
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
 
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
 
- Ela é professora?
 
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
 
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
 
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
 
- Pois é...
 
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
 
- É.
 
- Más notícias?
 
- Meu pai. Morreu.
 
- Sinto muito.
 
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
 
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
 
- Como é que você sabe?
 
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
 
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
 
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
 
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
 
- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
 
- Você brigou com o namorado, certo?
 
- Isso você também descobriu no lixo?
 
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
 
- É, chorei bastante, mas já passou.
 
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
 
- É que eu estou com um pouco de coriza.
 
- Ah.
 
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
 
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
 
- Namorada?
 
- Não.
 
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
 
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
 
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
 
- Você já está analisando o meu lixo!
 
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
 
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
 
- Não! Você viu meus poemas?
 
- Vi e gostei muito.
 
- Mas são muito ruins!
 
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
 
- Se eu soubesse que você ia ler...
 
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
 
- Acho que não. Lixo é domínio público.
 
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
 
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
 
- Ontem, no seu lixo...
 
- O quê?
 
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
 
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
 
- Eu adoro camarão.
 
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
 
- Jantar juntos?
 
- É.
 
- Não quero dar trabalho.
 
- Trabalho nenhum.
 
- Vai sujar a sua cozinha?
 
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
 
- No seu lixo ou no meu?
 
Luis Fernando VeríssimoO Analista de Bagé. L&PM, 1981.
 
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12 - A aliança
 
Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira [...] Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.
 
Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. [...] Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância. Mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pode, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las.
 
– Você não sabe o que aconteceu!
 
– O quê? [...]
 
– Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?
 
– Não.
 
– Olhe
 
E ele mostraria o dedo da aliança, sem aliança.
 
– O que aconteceu?
 
E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando no bueiro e desaparecendo. [...]
 
– Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança.
 
Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.
 
– Mas, meu bem...
 
– Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!
 
E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações.
 
Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara?
 
Nada, nada. E, finalmente:
 
– Que fim levou a sua aliança?
 
E ele disse:
 
– Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.
 
Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.
 
– O mais importante é que você não mentiu pra mim.
 
E foi tratar do jantar.
 
Luis Fernando VeríssimoAs mentiras que os homens contam.
 
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13 - MOTEL


Mirtes não se agüentou e contou para a Lurdes: - Viram teu marido entrando num motel.

A Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos. Ficou assim, uma estátua 
de espanto, durante um minuto, um minuto e meio. Depois pediu detalhes.

- Quando? Onde? Com quem?

- Ontem. No Discretissimu's.

- Com quem? Com quem?

- Isso eu não sei.

- Mas como? Era alta? Magra? Loira? Puxava de uma perna?

- Não sei, Lu.

- O Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.

Quando o Carlos Alberto chegou em casa e ... Lurdes anunciou que iria deixá-lo. E contou por quê.

- Mas que história é essa, Lurdes? Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel. Era você.

- Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir. Discretissimu's!! Toda a

cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.

- Pois então?

- Pois então que eu tenho que deixar você. Não vê? É o que todas as minhas amigas esperam que eu faça. Não sou mulher de ser enganada pelo marido e não reagir.

- Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!

- Mas elas não sabem disso!

- Eu não acredito, Lurdes. Você vai desmanchar nosso casamento por 
isso? Por uma convenção?

- Vou.

Mais tarde, quando a Lurdes estava saindo de casa, com as malas, o Carlos Alberto a interceptou. Estava sombrio.

- Acabo de receber um telefonema - disse. - Era o Dico.

- O que ele queria?

- Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar.

- O quê?

- Você foi vista saindo do motel Discretissimu's ontem, com um homem.


- O homem era você.

- Eu sei, mas eu não fui identificado.

- Você não disse que era você?

- O quê? Para que os meus amigos pensem que eu vou a motel com a minha própria mulher?

- E então?

- Desculpe, Lurdes, mas...

- O quê?

- Vou ter que te dar um tiro.



Luis Fernando Veríssimo

 
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14 - O casamento
 
 
— Eu quero ter um casamento tradicional, papai.
 
— Sim, minha filha.
 
— Exatamente como você!
 
— Ótimo.
 
— Que música tocaram no casamento de vocês?
 
— Não tenho certeza, mas acho que era Mendelssohn. Ou Mendelssohn é o da Marcha Fúnebre? Não, era Mendelssohn mesmo.
 
— Mendelssohn, Mendelssohn...
 
Acho que não conheço. Canta alguma coisa dele ai.
 
— Ah, não posso, minha filha. Era o que o órgão tocava em
 
todos os casamentos, no meu tempo.
 
— O nosso não vai ter órgão, é claro.
 
— Ah, não?
 
— Não. Um amigo do Varum tem um sintetizador eletrônico e ele vai tocar na cerimônia.
 
O Padre Tuco já deixou. Só que esse Mendelssohn, não sei não...
 
— É, acho que no sintetizador não fica bem...
 
— Quem sabe alguma coisa do Queen...
 
— Quem?
 
— O Queen.
 
— Não é a Queen?
 
— Não. O Queen. É o nome de um conjunto, papai.
 
— Ah, certo. O Queen. No sintetizador.
 
— Acho que vai ser o maior barato!
 
— Só o síntetizador ou...
 
— Não. Claro que precisa ter uma guitarra elétrica, um baixo elétrico...
 
— Claro. Quer dizer, tudo bem tradicional.
 
— Isso.
 
*
— Eu sei que não é da minha conta. Afinal, eu sou só o pai da noiva.
 
Um nada. Na recepção vão me confundir com um garçom.
 
Se ainda me derem gorjeta, tudo bem. Mas alguém pode me dizer por que
 
chamam o nosso futuro genro de Varum?
 
— Eu sabia...
 
— O quê?
 
— Que você já ia começar a implicar com ele.
 
— Eu não estou implicando. Eu gosto dele. Eu até o beijaria na testa se ele
 
algum dia tirasse aquele capacete de motoqueiro.
 
— Eles nem casaram e você já está implicando.
 
— Mas que implicância? É um ótimo rapaz. Tem uma boa cabeça.
 
Pelo menos eu imagino que seja cabeça o que ele tem debaixo do capacete.
 
— É um belo rapaz.
 
— E eu não sei? Há quase um ano que ele freqüenta a nossa casa diariamente.
 
E como se fosse um filho. Eu às vezes fico esperando
 
que ele me peça uma mesada. Um belo rapaz. Mas por que Varum?
 
— E o apelido e pronto.
 
— Ah, então é isso. Você explicou tudo. Obrigado.
 
— Quanto mais se aproxima o dia do casamento, mais intratável você fica.
 
— Desculpe. Eu sou apenas o pai. Um inseto. Me esmigalha. Eu mereço.
 
*
 
— Aí xará!
 
— Ôi, Varum, como vai? A sua noiva está se arrumando. Ela já desce.
 
Senta aí um pouquinho. Tira o capacete...
 
— Essa noivinha...
 
— Vocês vão ao cinema?
 
— Ela não lhe disse? Nós vamos acampar.
 
— Acampar? Só vocês dois?
 
— É. Qual é o galho?
 
— Não. E que... Sei lá.
 
— Já sei o que você tá pensando, cara. Saquei.
 
— É! Você sabe como é...
 
— Saquei. Você está pensando que só nós dois, no meio do mato, pode pintar um lance.
 
— No mínimo isso. Um lance. Até dois.
 
— Mas qualé, xará. Não tem disso não. Está em falta. Ôi,gatona!
 
— Oi, Varum. O que é que você e papai estão conversando?
 
— Não, o velho aí tá preocupado que nós dois, acampados pode
 
pintar um lance. Eu já disse que não tem disso.
 
— Ô, papai. Não tem perigo nenhum. Nem cobra. E qualquer coisa
 
o Varum me defende. Eu Jane, ele Tarzan.
 
— Só não dou o meu grito para proteger os cristais.
 
— Vamos?
 
— Vamos lá?
 
— Mas... Vocês vão acampar de motocicleta?
 
— De motoca, cara. Vá-rum, vá-rum.
 
*
 
— Descobri por que ele se chama Varum.
 
— O quê? Você quer alguma coisa?
 
— Disse que descobri por que ele se chama Varum.
 
— Você me acordou só para dizer isto?
 
— Você estava dormindo?
 
— É o que eu costumo fazer às três da manhã, todos os dias. Você não dormiu?
 
— Ainda não. Sabe como é que ele chama ela? Gatona.
 
Por um estranho processo de degeneração genética, eu sou pai de uma gatona.
 
Varum e Gatona, a dupla dinâmica, está neste momento, no meio do mato.
 
— Então é isso que está preocupando você?
 
— E não é para preocupar? Você também não devia estar dormindo.
 
A gatona é sua também.
 
— Mas não tem perigo nenhum!
 
— Como, não tem perigo? Um homem e uma mulher,
 
dentro de uma tenda, no meio do mato?
 
— O que é que pode acontecer?
 
— Se você já esqueceu, é melhor ir dormir mesmo.
 
— Não tem perigo nenhum. O máximo que pode acontecer é entrar um sapo na tenda.
 
— Ou você está falando em linguagem figurada ou eu é que estou ficando louco.
 
— Vai dormir.
 
— Gatona. Minha própria filha...
 
— Você também tinha um apelido pra mim, durante o nosso noivado.
 
— Eu prefiro não ouvir.
 
— Você me chamava de Formosura. Pensando bem, você também tinha um apelido.
 
— Por favor. Reminiscências não. Comi faz pouco.
 
— Kid Gordini. Você não se lembra? Você e o seu Gordini envenenado.
 
— Tão envenenado que morreu, nas minhas mãos. Um dia levei num mecânico
 
e disse que a bateria estava ruim.
 
Ele disse que a bateria estava boa, o resto do carro é que tinha que ser trocado.
 
— Viu só? E você se queixa do Varum. Kid Gordini!
 
— Mas eu nunca levei você para o mato no meu Gordini.
 
— Não levou porque meu pai matava você.
 
— Hmmmm.
 
— “Hmmmm” o quê?
 
— Você me deu uma ideia. Assassinato...
 
— Não seja bobo.
 
— Um golpe bem aplicado... Na cabeça não, porque ela
 
está sempre bem protegida. Sim. Kid Gordini ataca outra vez...
 
— O que você tem é ciúme.
 
Nisso tudo, tem uma coisa que me preocupa acima
 
de tudo que é o que me tira o sono.
 
— O quê?
 
— Será que ele tira o capacete para dormir?
 
*
 
— Bom dia.
 
— Bom dia.
 
— Eu sou o pai da noiva. Da Maria Helena.
 
— Maria Helena... Ah, a Gatona!
 
— Essa.
 
— Que prazer. Alguma dúvida sobre a cerimônia?
 
— Não, Padre Osni. E que...
 
— Pode me chamar de Tuco. E como me chamam.
 
— Não, Padre Tuco. E que a Ga... A Maria Helena me disse que ela
 
pretende entrar dançando na igreja. O conjunto toca
 
um rock e a noiva entra dançando, é isso?
 
— É. Um rock suave. Não é rock pauleira.
 
— Ah, não é rock pauleira. Sei. Bom, isto muda tudo.
 
— Muitos jovens estão fazendo isto. A noiva entra dançando e na saída
 
os dois saem dançando. O senhor sabe, a Igreja hoje está diferente.
 
É isto que está atraindo os jovens de volta à Igreja. Temos que evoluir com os tempos.
 
— Claro. Mas, Padre Osni...
 
— Tuco.
 
— Padre Tuco, tem uma coisa. O pai da noiva também tem que dançar?
 
— Bom, isto depende do senhor. O senhor dança?
 
— Agora não, obrigado. Quer dizer, dançava. Até ganhei concurso de chá-chá-chá.
 
Acho que você ainda não era nascido. Mas estou meio fora de forma e...
 
— Ensaie, ensaie.
 
— Certo.
 
— Peça para a Gatona ensaiar com o senhor.
 
— Claro.
 
— Não é rock pauleira.
 
— Certo. Um roquezinho suave.
 
Quem sabe um chá-chá-chá? Não. Esquece, esquece.
 
*
 
— Você está nervoso, papai?
 
— Um pouco. E se a gente adiasse o casamento? Eu preciso uma
 
semana a mais de ensaio. Só uma semana.
 
— Eu estou bonita?
 
— Linda. Quando estiver pronta vai ficar uma beleza.
 
— Mas eu estou pronta.
 
— Você vai se casar assim?
 
— Você não gosta?
 
— É... diferente, né? Essa coroa de flores, os pés descalços...
 
— Não é um barato?
 
*
 
— Um brinde, xará!
 
— Um brinde, Varum.
 
— Você estava um estouro entrando naquela igreja.
 
Parecia um bailarino profissional.
 
— Pois é. Improvisei uns passos. Acho que me sai bem.
 
— Muito bem!
 
— Não sei se você sabe que eu fui o rei do chá-chá-chá.
 
— Do quê?
 
— Chá-chá-chá. Uma dança que havia. Você ainda não era nascido.
 
— Bota tempo nisso.
 
— Eu tinha um Gordini envenenado. Tão envenenado que morreu. Um dia levei no...
 
— Tinha um quê?
 
— Gordini. Você sabe. Um carro. Varum, varum.
 
— Ah.
 
— Esquece.
 
— Um brinde ao sogro bailarino.
 
— Um brinde. Eu sei que vocês vão ser muito felizes.
 
— O que é que você achou da minha beca, cara?
 
— Sensacional. Nunca tinha visto um noivo de macacão vermelho, antes.
 
Gostei. Confesso que quando entrei na igreja e vi você lá no altar, de capacete...
 
— Vacilou.
 
— Vacilei. Mas aí vi que o Padre Tuco estava de boné e pensei, tudo bem.
 
Temos que evoluir com os tempos. E ataquei meu rock suave.
 
 
Luis Fernando Verissimo
 
Texto extraído do livro "O analista de Bagé", L&PM Editores – Porto Alegre, 1981, pág. 13
 
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15 - O Desafio
 
Um publicitário morreu e, como era da área de atendimento e tratava mal o pessoal da criação,
 
foi para o inferno. O Diabo, que todos os dias recebe um print-out com nome e profissão de 
todos os admitidos na data anterior, mandou que o publicitário fosse tirado da grelha e
levado ao seu escritório. Queria fazer-lhe uma proposta.
 
Se ele aceitasse sua carga de castigos diminuiria e ele teria regalias. Ar-condicionado, etc.
 
— Qual é a proposta?
 
— Temos que melhorar a imagem do inferno — disse o Diabo. — Falam as piores coisas do inferno.
 
Queremos mudar isso.
 
— Mas o que é que se pode dizer de bom disto aqui? Nada.
 
— Por isso é que precisamos de publicidade.
 
O publicitário topou. Era um desafio. E as regalias eram atraentes.
 
Quis saber algumas coisas que diziam do Inferno e que mais irritavam o Diabo.
 
— Bem. Dizem que aqui todos os cozinheiros são ingleses, todos os garçons são italianos,
 
todos os motoristas de táxi são franceses e todos os humoristas alemães.
 
— E é verdade?
 
— É.
 
— Hmmm — disse o publicitário. — Uma das técnicas que podemos usar é
 
transformar desvantagem em vantagem. Pegar a coisa pelo outro lado.
 
Sua cabeça já estava funcionando. Continuou:
 
— Os cozinheiros ingleses, por exemplo. Podemos dizer que a comida
 
é tão ruim que é o local ideal para emagrecer. Além de tudo, já é uma sauna.
 
— Bom, bom.
 
— Garçons italianos. Servem a mesa pessimamente. Mas cantam, conversam,
 
brigam. Isto é, ajudam a distrair a atenção da comida inglesa.
 
— Ótimo.
 
— Motoristas franceses. São mal-humorados e grosseiros.
 
Isso desestimula o uso do táxi e promove as caminhadas. É econômico e saudável.
 
Também provoca a indignação generalizada, une a população e combate a apatia.
 
— Muito bom!
 
— Uma situação que não seria amenizada pelos humoristas.
 
Os humoristas, como se sabe, não têm qualquer função social. Eles só servem para
 
desmobilizar as pessoas, criar um clima de lassidão e deboche, quando não
 
de perigosa alienação. Isso não acontece com os humoristas alemães, cuja falta de graça
 
só aumenta a revolta geral, mantendo a população ativa e séria.
 
O alívio é dado pelos garçons italianos.
 
— Perfeito! — exclamou o Diabo. — Já vi que acertei.
 
Quando podemos começar a campanha?
 
— Espere um pouquinho — disse o publicitário. — Temos que combinar algumas coisas, antes.
 
Por exemplo: a verba.
 
— Isso já não é comigo — disse o Diabo. — É com o pessoal da área econômica.
 
Você pode tratar com eles. E aproveitar para acertar também o seu contrato.
 
Com isso o Diabo apertou um botão intercomunicador vermelho que
 
havia sobre a sua mesa e disse:
 
— Dona Henriqueta, diga para o
 
Silva vir até a minha sala.
 
— Silva? — estranhou o publicitário.
 
— Nosso gerente financeiro. Toda a nossa economia
 
é dirigida por brasileiros.
 
Aí o publicitário suspirou, levantou e disse:
 
— Me devolve pra grelha...
 
Luis Fernando Veríssimo
 
Texto extraído do livro "A Mãe do Freud", L&PM Editores, Porto Alegre, 1985, pág. 93.
 
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16 - Os Moralistas
 
— Você pensou bem no que vai fazer, Paulo?
 
— Pensei. Já estou decidido. Agora não volto atrás.
 
— Olhe lá, hein, rapaz...
 
Paulo está ao mesmo tempo comovido e surpreso com os três amigos.
 
Assim que souberam do seu divórcio iminente, correram para visitá-lo no hotel.
 
A solidariedade lhe faz bem. Mas não entende aquela insistência deles em dissuadi-lo.
 
Afinal, todos sabiam que ele não se acertava com a mulher.
 
— Pense um pouco mais, Paulo. Reflita. Essas decisões súbitas...
 
— Mas que súbitas? Estamos praticamente separados há um ano!
 
— Dê outra chance ao seu casamento, Paulo.
 
— A Margarida é uma ótima mulher.
 
— Espera um pouquinho. Você mesmo deixou de frequentar
 
nossa casa por causa da Margarida. Depois que ela chamou vocês de bêbados e expulsou todo mundo.
 
— E fez muito bem. Nós estávamos bêbados e tínhamos que ser expulsos.
 
— Outra coisa, Paulo. O divórcio. Sei lá.
 
— Eu não entendo mais nada. Você sempre defendeu o divórcio!
 
— É. Mas quando acontece com um amigo...
 
— Olha, Paulo. Eu não sou moralista. Mas acho a família uma coisa importantíssima.
 
Acho que a família merece qualquer sacrifício.
 
— Pense nas crianças, Paulo. No trauma.
 
— Mas nós não temos filhos!
 
— Nos filhos dos outros, então. No mau exemplo.
 
— Mas isso é um absurdo! Vocês estão falando como se fosse o fim do mundo.
 
Hoje, o divórcio é uma coisa comum. Não vai mudar nada.
 
— Como, não muda nada?
 
— Muda tudo!
 
— Você não sabe o que está dizendo, Paulo! Muda tudo.
 
— Muda o quê?
 
— Bom, pra começar, você não vai poder mais frequentar as nossas casas.
 
— As mulheres não vão tolerar.
 
— Você se transformará num pária social, Paulo.
 
— O quê?!
 
— Fora de brincadeira. Um reprobo.
 
— Puxa. Eu nunca pensei que vocês...
 
— Pense bem, Paulo. Dê tempo ao tempo.
 
— Deixe pra decidir depois. Passado o verão.
 
— Reflita, Paulo. É uma decisão seriíssima. Deixe para mais tarde.
 
— Está bem. Se vocês insistem...
 
Na saída, os três amigos conversam:
 
— Será que ele se convenceu?
 
— Acho que sim. Pelo menos vai adiar.
 
— E no "solteiros contra casados da praia", este ano, ainda teremos ele no gol.
 
— Também, a ideia dele. Largar o gol dos casados logo agora. Em cima da hora.
 
Quando não dava mais para arranjar um substituto.
 
— Os casados nunca terão um goleiro como ele.
 
— Se insistirmos bastante, ele desiste definitivamente do divórcio.
 
— Vai aguentar a Margarida pelo resto da vida.
 
— Pelo time dos casados, qualquer sacrifício serve.
 
— Me diz uma coisa. Como divorciado,
 
ele podia jogar no time dos solteiros?
 
— Podia.
 
— Impensável.
 
— É.
 
— Outra coisa.
 
— O quê?
 
— Não é reprobo. É réprobo. Acento no "e".
 
— Mas funcionou, não funcionou?
 
Luis Fernando Veríssimo
 
Texto extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam". Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 41.
 
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17 - Clic
 
Cidadão se descuidou e roubaram seu celular. Como era um executivo e não
 
sabia mais viver sem celular, ficou furioso. Deu parte do roubo,
 
depois teve uma ideia. Ligou para o número do telefone. Atendeu uma mulher.
 
— Alô.
 
— Quem fala?
 
— Com quem quer falar?
 
— O dono desse telefone.
 
— Ele não pode atender.
 
— Quer chamá-lo, por favor?
 
— Ele está no banheiro. Eu posso anotar o recado?
 
— Bate na porta e chama esse vagabundo agora.
 
Clic. A mulher desligou. O cidadão controlou-se. Ligou de novo.
 
— Alô.
 
— Escute. Desculpe o jeito que eu falei antes.
 
Eu preciso falar com ele, viu? É urgente.
 
— Ele já vai sair do banheiro.
 
— Você é a...
 
— Uma amiga.
 
— Como é seu nome?
 
— Quem quer saber?
 
O cidadão inventou um nome.
 
— Taborda. (Por que Taborda, meu Deus?) Sou primo dele.
 
— Primo do Amleto?
 
Amleto. O safado já tinha um nome.
 
— É. De Quaraí.
 
— Eu não sabia que o Amleto tinha um primo de Quaraí.
 
— Pois é.
 
— Carol.
 
— Hein?
 
— Meu nome. É Carol.
 
— Ah. Vocês são...
 
— Não, não. Nos conhecemos há pouco.
 
— Escute Carol. Eu trouxe uma encomenda para o Amleto.
 
De Quaraí. Uma pessegada, mas não me lembro do endereço.
 
— Eu também não sei o endereço dele.
 
— Mas vocês...
 
— Nós estamos num motel. Este telefone é celular.
 
— Ahh!
 
— Vem cá. Como você sabia o número do telefone dele? Ele recém-comprou.
 
— Ele disse que comprou?
 
— Por quê?
 
O cidadão não se conteve.
 
— Porque ele não comprou, não. Ele roubou. Está entendendo? Roubou. De mim!
 
— Não acredito.
 
— Ah, não acredita? Então pergunta pra ele. Bate na porta do banheiro e pergunta.
 
— O Amleto não roubaria um telefone do próprio primo.
 
E Carol desligou de novo.
 
O cidadão deixou passar um tempo, enquanto se recuperava. Depois ligou.
 
— Alô.
 
— Carol, é o Tobias.
 
— Quem?
 
— O Taborda. Por favor, chame o Amleto.
 
— Ele continua no banheiro.
 
— Em que motel vocês estão?
 
— Por quê?
 
— Carol, você parece ser uma boa moça. Eu sei que você gosta do Amleto...
 
— Recém nos conhecemos.
 
— Mas você simpatizou. Estou certo? Você não quer acreditar que ele
 
seja um ladrão. Mas ele é, Carol. Enfrente a realidade.
 
O Amleto pode ter muitas qualidades, sei lá. Há quanto tempo vocês saem juntos?
 
— Esta é a primeira vez.
 
— Vocês nunca tinham se visto antes?
 
— Já, já. Mas, assim, só conversa.
 
— E você nem sabe o endereço dele, Carol. Na verdade você não sabe nada sobre ele.
 
Não sabia que ele é de Quaraí.
 
— Pensei que fosse goiano.
 
— Ai está, Carol. Isso diz tudo. Um cara que se faz passar por goiano...
 
— Não, não. Eu é que pensei.
 
— Carol, ele ainda está no banheiro?
 
— Está.
 
— Então sai daí, Carol. Pegue as suas coisas e saia.
 
Esse negócio pode acabar mal. Você pode ser envolvida. — Saia daí enquanto é tempo, Carol!
 
— Mas...
 
— Eu sei. Você não precisa dizer. Eu sei. Você não quer acabar a amizade.
 
Vocês se dão bem, ele é muito legal. Mas ele é um ladrão, Carol.
 
Um bandido. Quem rouba celular é capaz de tudo. Sua vida corre perigo.
 
— Ele está saindo do banheiro.
 
— Corra, Carol! Leve o telefone e corra! Daqui a pouco eu
 
ligo para saber onde você está.
 
Clic.
 
Dez minutos depois, o cidadão liga de novo.
 
— Alô.
 
— Carol, onde você está?
 
— O Amleto está aqui do meu lado e pediu para lhe dizer uma coisa.
 
— Carol, eu...
 
— Nós conversamos e ele quer pedir desculpas a você.
 
Diz que vai devolver o telefone, que foi só brincadeira.
 
Jurou que não vai fazer mais isso.
 
O cidadão engoliu a raiva. Depois de alguns segundos falou:
 
— Como ele vai devolver o telefone?
 
— Domingo, no almoço da tia Eloá. Diz que encontra você lá.
 
— Carol, não...
 
Mas Carol já tinha desligado.
 
O cidadão precisou de mais cinco minutos
 
para se recompor. Depois ligou outra vez.
 
—Alô.
 
Pelo ruído o cidadão deduziu que ela estava dentro de um carro em movimento.
 
— Carol, é o Torquatro.
 
— Quem?
 
— Não interessa! Escute aqui. Você está sendo cúmplice de um crime.
 
Esse telefone que você tem na mão, está me entendendo?
 
Esse telefone que agora tem suas impressões digitais.
 
É meu! Esse salafrário roubou meu celular!
 
— Mas ele disse que vai devolver na...
 
— Não existe Tia Eloá nenhuma! Eu não sou primo dele.
 
Nem conheço esse cafajeste. Ele esta mentindo para você, Carol.
 
— Então você também mentiu!
 
— Carol...
 
Clic.
 
Cinco minutos depois, quando o cidadão se ergueu do chão,
 
onde estivera mordendo o carpete, e ligou de novo, ouviu um "Alô" de homem.
 
— Amleto?
 
— Primo! Muito bem. Você conseguiu, viu? A Carol acaba de descer do carro.
 
— Olha aqui, seu...
 
— Você já tinha liquidado com o nosso programa no motel,
 
o maior clima e você estragou, e agora acabou com tudo.
 
Ela está desiludida com todos os homens, para sempre. Mandou parar o carro e desceu.
 
Em plena Cavalhada. Parabéns primo. Você venceu. Quer saber como ela era?
 
— Só quero meu telefone.
 
— Morena clara. Olhos verdes. Não resistiu ao meu celular.
 
Se não fosse o celular, ela não teria topado o programa.
 
E se não fosse o celular, nós ainda estaríamos no motel.
 
Como é que chama isso mesmo? Ironia do destino?
 
— Quero meu celular de volta!
 
— Certo, certo. Seu celular. Você tem que fechar negócios,
 
impressionar clientes, enganar trouxas. Só o que eu queria era a Carol...
 
— Ladrão
 
— Executivo
 
— Devolve meu...
 
Clic.
 
Cinco minutos mais tarde. Cidadão liga de novo.
 
telefone toca várias vezes. Atende uma voz diferente.
 
— Ahn?
 
— Quem fala?
 
— É o Trola.
 
— Como você conseguiu esse telefone?
 
— Sei lá. Alguém jogou pela janela de um carro. Quase me acertou.
 
— Onde você está?
 
— Como eu estou? Bem, bem. Catando meus papéis, sabe como é.
 
Mas eu já fui de circo. É. Capitão Trovar. Andei até pelo Paraguai.
 
— Não quero saber de sua vida. Estou pagando uma recompensa por este telefone.
 
Me diga onde você está que eu vou buscar.
 
— Bem. Fora a Dalvinha, tudo bem. Sabe como é mulher.
 
Quando nos vê por baixo, aproveita. Ontem mesmo...
 
— Onde você está? Eu quero saber onde!
 
— Aqui mesmo, embaixo do viaduto. De noitinha.
 
Ela chegou com o índio e o Marvão, os três com a cara cheia, e...
 
 
Luis Fernando Veríssimo
 
Extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam",
 
Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 41.
 
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18 - O Homem que Vivia Anedotas
 
— Sempre deu tudo errado comigo. Desde criança.
 
— Compreendo.
 
— Na escola, não conseguia prestar atenção em nada.
 
Estava sempre pensando em mulher nua.
 
— Espera aí. Você é…
 
— Sou. O Juquinha. Todo mundo ficou sabendo das minhas histórias, virei anedota.
 
— Mas as histórias até que eram engraçadas.
 
— Engraçadas para quem não foi expulso da escola, como eu.
 
Meus pais me mandaram a um médico para curar minha obsessão. Um psiquiatra.
 
— Não foi esse o médico que...
 
— É. Começou a me mostrar desenhos. Uma cadeira.
 
Um chapéu. Um telefone. Pediu para eu me concentrar.
 
— E aí você disse…
 
— Eu disse: "Me concentrar como, se o senhor não para de mostrar figurinha erótica?".
 
O senhor está rindo porque não foi com o senhor. Fiquei anos em tratamento.
 
— Desculpa. Eu não estava rindo de você. Continue.
 
— Como não tinha educação, fui ser mecânico. Não deu certo.
 
— Por quê?
 
— Sabe aquela história do cara que acendeu um fósforo dentro do tanque
 
do carro para ver se tinha gasolina, e tinha?
 
— Foi você?
 
— Foi. No hospital, tiveram que me reconstituir.
 
Pegaram as partes e juntaram de novo. Tudo bem, só que…
 
— Só que para ouvir direito, você precisava levantar o braço! Essa é ótima.
 
— Ótima porque não foi com o senhor.
 
— Desculpe. Foi horrível.
 
— Quando saí do hospital comprei uma motocicleta.
 
Uma noite na estrada, vi os holofotes de duas motocicletas que
 
vinham em sentido contrário. Só por farra, resolvi passar com a minha entre as duas.
 
— E era um automóvel. Essa eu conheço.
 
— Voltei para o hospital. Tiraram radiografias. Eu estava péssimo.
 
Quando o médico disse quanto ia custar o tratamento, eu disse que não podia pagar.
 
— E ele?
 
— Ele disse que por um preço módico mandava retocar as radiografias.
 
— Grande! Quer dizer, horrível. E seus pais?
 
— Está vendo esse relógio? Está na família há gerações.
 
— É uma beleza.
 
— No seu leito de morte, poucos minutos antes de expirar, papai me vendeu.
 
— Boa, boa. Quer dizer, triste, triste.
 
— Me casei. Não durou muito. Minha mulher estava convencida de que era um refrigerador.
 
— Realmente, não dava para continuar vivendo com uma louca.
 
— O pior não era isso. O pior é que ela dormia com a boca aberta e a luz não
 
me deixava dormir. O senhor está rindo outra vez.
 
— Não posso me conter. É que você teve uma vida engraçada.
 
— Engraçada? Trágica. Tudo comigo deu errado. As pessoas riem de sádicas.
 
— Você tem razão.
 
— Para esquecer tudo, fui fazer uma viagem. Quando o avião estava a dez mil metros de altura,
 
ouviu-se uma voz que dizia: "Isto é uma gravação. Este avião não tem piloto.
 
É dirigido por um sistema totalmente automático que substitui com vantagem
 
o controle humano. Não há com o que se preocupar.
 
O sistema foi exaustivamente testado é absolutamente
 
aprova de falhas, de falhas, de falhas…".
 
— O avião caiu e foi assim que você veio parar aqui?
 
— Não, São Pedro. O avião caiu no mar, eu sobrevivi e passei uma
 
temporada numa ilha deserta com uma mulher. Só que a mulher era a Betty Friedman.
 
— Acho que já vi esse cartum.
 
— Pois é. Aí fui salvo e ainda passei por várias anedotas até resolver me matar.
 
Não conseguia fazer nada certo. Só restava o suicídio. Dei um tiro na cabeça.
 
— E aqui está você.
 
— Não. Errei o tiro. Depois fiquei tão contente de ainda estar vivo que dei um tiro para o ar.
 
Aí acertei na cabeça. E aqui estou eu. Livre, finalmente, das anedotas. O senhor ainda está rindo!
 
— Meu filho, você sabe quantas anedotas de São Pedro na porta do céu existem?
 
— Não, São Pedro. Por favor. Não!
 
— O que é que eu posso fazer? Esta é uma delas. Houve um maremoto em Copacabana,
 
morreu todo mundo e nós estamos com o céu lotado.
 
— Lotado? Mas só a população de Copacabana lota o céu?
 
— É que tinha os argentinos.
 
Você só vai encontrar lugar no Purgatório, e na lista de espera.
 
 
Luís Fernando Veríssimo. "Sexo na Cabeça", L&PM Editores - Porto Alegre, 1982, pág. 15.

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19 - Pneu furado

O carro estava encostado no meio-fio com um pneu furado. De pé ao lado do carro, olhando desconsoladamente para o pneu, uma moça muito bonitinha.
Tão bonitinha que atrás parou outro carro e dele desceu um homem dizendo
"Pode deixar". Ele trocaria o pneu.


- Você tem macaco? - perguntou o homem.


- Não - respondeu a moça.


- Tudo bem, eu tenho - disse o homem - Você tem estepe?


- Não - disse a moça.


- Vamos usar o meu - disse o homem.


E pôs-se a trabalhar, trocando o pneu, sob o olhar da moça.


Terminou no momento em que chegava o ônibus que a moça estava esperando. Ele ficou ali, suando, de boca aberta, vendo o ônibus se afastar.


Dali a pouco chegou o dono do carro.


- Puxa, você trocou o pneu pra mim. Muito obrigado.


- É. Eu... Eu não posso ver pneu furado. Tenho que trocar.


- Coisa estranha.


- É uma compulsão. Sei lá. 


(Luís Fernando Veríssimo. Livro: Pai não entende nada. L&PM, 1991).



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20 - Pai não entende nada
 
_ Um biquíni novo?
 
_ É, pai.
 
_ Você comprou um no ano passado!
 
_ Não serve mais, pai. Eu cresci.
 
_ Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim.
 
_ Não serve, pai.
 
_ Está bem, está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.
 
_ Maior não, pai. Menor.
 
Aquele pai, também, não entendia nada.
 
Luis Fernando Veríssimo.
 

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21- Pedindo uma Pizza em 2020

Luís Fernando Veríssimo
- Telefonista: Pizza Hot, boa noite!
- Cliente: Boa noite, quero encomendar pizzas...
- Telefonista: Pode-me dar o seu NIN?
- Cliente: Sim, o meu número de identificação nacional é 6102-1993-8456-54632107.
- Telefonista: Obrigada, Sr. Lacerda. Seu endereço é Av. Paes de Barros, 1988 ap. 52 B, e o número de seu telefone é 5494-2366, certo?
O telefone do seu escritório da Lincoln Seguros é o 5745-2302 e o seu telemóvel é 962 662566.
- Cliente: Como é que você conseguiu essas informações todas?
- Telefonista: Nós estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
- Cliente: Ah, sim, é verdade! Eu queria encomendar duas pizzas, uma quatro queijos e outra calabresa...
- Telefonista: Talvez não seja uma boa ideia...
- Cliente: O quê?
- Telefonista: Consta na sua ficha médica que o Sr. sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a sua saúde.
- Cliente: É. tem razão! O que é que sugere?
- Telefonista: Por que é que o Sr. não experimenta a nossa pizza Superlight, com tofu e rabanetes? O Sr. vai adorar!
- Cliente: Como é que você sabe que vou adorar?
- Telefonista: O Sr. consultou o site "Recettes Gourmandes au Soja" da Biblioteca Municipal, dia 15 de Janeiro, às 14:27h, onde permaneceu ligado à rede durante 39 minutos. Daí a minha sugestão...
- Cliente: OK, está bem! Mande-me duas pizzas tamanho extra grande!
- Telefonista: É a escolha certa para o Sr., sua esposa e seus 4 filhos, pode ter certeza.
- Cliente: Quanto é?
- Telefonista: São 49,99.
- Cliente: Você quer o número do meu cartão de crédito?
- Telefonista: Lamento, mas o Sr. vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu cartão de crédito foi ultrapassado.
- Cliente: Tudo bem, eu posso ir ao Multibanco levantar dinheiro antes que chegue a pizza.
- Telefonista: Duvido que consiga, o Sr. está com o saldo negativo no banco.
- Cliente: Meta-se na sua vida! Mande-me as pizzas que eu arranjo o dinheiro. Quando é que entregam?
- Telefonista: Estamos um pouco atrasados, serão entregues em 45 minutos. Se o Sr. estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na moto não é aconselhável, além de ser perigoso...
- Cliente: Mas que história é essa, como é que você sabe que eu vou de moto?
- Telefonista: Peço desculpas, mas reparei aqui que o Sr. não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. Mas a sua moto está paga, e então pensei que fosse utilizá-la.
- Cliente: @#%/§@&?#§/%#!!!!!!!!!!!!!
- Telefonista: Gostaria de pedir ao Sr. para não me insultar... Não se esqueça de que o Sr. já foi condenado em Julho de 2006 por desacato em público a um Agente da autoridade.
- Cliente: (Silêncio).
- Telefonista: Mais alguma coisa?
- Cliente: Não, é só isso... Não, espere... Não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.
- Telefonista: Senhor, o regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 095423/12, proíbe a venda de bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...
- Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou-me atirar pela janela!!!
- Telefonista: E torcer um pé? O Sr. mora no rés-do-chão!
Luís Fernando Veríssimo

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22– O BRASIL EXPLICADO EM GALINHAS

 
Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e o levaram para a delegacia.
 
D - Delegado
L - Ladrão
 
D - Que vida mansa, heim, vagabundo? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai para a cadeia!
L - Não era para mim não. Era para vender.
D - Pior, venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!
L - Mas eu vendia mais caro.
D - Mais caro?
L - Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas galinhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.
D - Mas eram as mesmas galinhas, safado.
L - Os ovos das minhas eu pintava.
D - Que grande pilantra... (mas já havia um certo respeito no tom do delegado...)
D - Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega...
L - Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiros a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio..
D - E o que você faz com o lucro do seu negócio?
L - Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados e senadores do PT. Dois ou três ministros do PMDB, PDT, PSB. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.
O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:
D - Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?
L - Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
D - E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?
L - Às vezes. Sabe como é.
D - Não sei não, excelência. Me explique.
L - É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. O risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora fui preso, finalmente vou para a cadeia. É uma experiência nova.
D - O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.
L - Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!
D - Sim. Mas primário, e com esses antecedentes...
 
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23– O Tempo
 
 
Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. 


E uma banana pelo potássio.. 

E também uma laranja pela vitamina C. 

Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir o diabetes. 

Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo. 

Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão). 

Cada dia uma Aspirina, previne infarto. 

Uma taça de vinho tinto também. 

Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. 

Um copo de cerveja, para... não lembro bem para o que, mas faz bem. 

O benefício adicional é que, se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber. 

Todos os dias deve-se comer fibra. 

Muita, muitíssima fibra. 

Fibra suficiente para fazer um pulôver. 

Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. 
E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. 

Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia. 

E não esqueça de escovar os dentes depois de comer. 

Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e, enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax. 

Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia. 

Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma. Sobram três, desde que você não pegue trânsito. 

As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma). 

E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando. 

Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações. 

Ah! E o sexo. 
Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. 
Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo e nem estou falando de sexo tântrico. 

Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. 

Na minha conta, são 29 horas por dia. 

A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!!! 
Tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. 

Chame os amigos e seus pais. 
Beba o vinho, coma a maçã e dê a banana na boca da sua mulher. 

Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e, se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.Agora tenho que ir. 

É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro. E já que vou, levo um jornal. 

Tchau.... 

Se sobrar um tempinho, me manda um e-mail. 

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24- Um dia de merda

Luiz Veríssimo 

Aeroporto Santos Dumont, 15h30min, senti um pequeno mal estar causado por uma cólica intestinal, mas nada que uma urinada ou uma barrigada não aliviasse. Mas, atrasado para chegar ao ônibus que me levaria para o Galeão, de onde partiria o vôo para Miami, resolvi segurar as pontas. Afinal de contas são só uns 15 minutos de busão. "Chegando lá, tenho tempo de sobra para dar aquela mijadinha esperta, tranqüilo." O avião só sairia as 16h30. 

Entrando no ônibus, sem sanitários. Senti a primeira contração e tomei consciência de que minha gravidez fecal chegara ao nono mês e que faria um parto de cócoras assim que entrasse no banheiro do aeroporto. Virei para o meu amigo que me acompanhava e, sutil, falei: "Cara, mal posso esperar para chegar na merda do aeroporto porque preciso largar um barro." 

Nesse momento, senti um urubu beliscando minha cueca, mas botei força de vontade para trabalhar e segurei a onda. O ônibus nem tinha começado a andar quando, para meu desespero, uma voz disse pelo alto falante: "Senhoras e senhores, nossa viagem entre os dois aeroportos levará entorno de 1 hora, devido a obras na pista." 

Aí o urubu ficou maluco querendo sair a qualquer custo! Fiz um esforço hercúleo para segurar o trem merda  que estava para chegar na estação ânus a qualquer momento. Suava em bicas. Meu amigo percebeu e, como bom amigo que era, aproveitou para tirar um sarro. 

O alívio provisório veio em forma de bolhas estomacais, indicando que pelo menos por enquanto as coisas tinham se acomodado. Tentava me distrair vendo TV, mas só conseguia pensar em um banheiro, não com uma privada, mas com um vaso sanitário tão branco e tão limpo que alguém poderia botar seu almoço nele. E o papel higiênico então branco e macio, com textura e perfume e, foi quando, senti um volume almofadado entre meu traseiro e o assento do ônibus e percebi, consternado, que havia cagado.

Um cocô sólido e comprido daqueles que dá orgulho de pai ao seu autor. Daqueles que dá vontade de ligar pros amigos e parentes e convidá-los a apreciar na privada. Tão perfeita obra, dava pra expor em uma bienal.

Mas sem dúvida, a situação tava tensa. Olhei para o meu amigo, procurando um pouco de solidariedade, e confessei sério: "Cara, caguei." Quando meu amigo parou de rir, uns cinco minutos depois, aconselhou-me a relaxar, pois agora estava tudo sob controle. "Que se dane, me limpo no aeroporto." - pensei. "Pior que isso não fico." 

Mal o ônibus entrou em movimento, a cólica recomeçou forte. Arregalei os olhos, segurei-me na cadeira, mas não pude evitar, e sem muita cerimônia ou anunciação, veio a segunda leva de merda. Desta vez, como uma pasta morna. Foi merda para tudo que é lado, borrando, esquentando e melando a bunda, cueca, barra da camisa, pernas, panturrilha, calças, meias e pés. E mais uma cólica anunciando mais merda, agora líquida, das que queimam o fiofó do freguês ao sair rumo a liberdade. E depois um peido tipo bufa que eu nem tentei segurar, afinal de contas o que era um peidinho para quem já estava todo cagado? 

Já o peido seguinte, foi do tipo que pesa. E me caguei pela quarta vez. Lembrei de um amigo que certa vez estava com tanta caganeira que resolveu botar Modess na cueca, mas colocou as linhas adesivas viradas para cima e quando foi tirá-lo levou metade dos pêlos do rabo junto. Mas era tarde demais para tal artifício absorvente. Tinha menstruado tanta merda que nem uma bomba de cisterna poderia me ajudar a limpar a sujeirada. 

Finalmente cheguei ao aeroporto e saindo apressado com passos curtinhos, supliquei ao meu amigo que apanhasse minha mala no bagageiro do ônibus e a levasse ao sanitário do aeroporto para que eu pudesse trocar de roupas.Corri ao banheiro e entrando de boxe em boxe, constatei a falta de papel higiênico em todos os cinco. Olhei para cima e blasfemei: Agora chega, né? Entrei no último, sem papel mesmo, e tirei a roupa toda para analisar minha situação (que concluí como sendo o fundo do poço) e esperar pela minha salvação, com roupas limpinhas cheirosinhas e com ela uma lufada de dignidade no meu dia. Meu amigo entrou no banheiro com pressa, tinha feito o "check-in" e ia correndo tentar segurar o vôo. 

Jogou por cima do boxe o cartão de embarque e uma maleta de mão e saiu antes de qualquer protesto de minha parte. Ele tinha despachado a mala com roupas. Na mala de mão só tinha um pulôver de gola "V" (A temperatura em Miami era de aproximadamente 35 graus). 

Desesperado comecei a analisar quais de minhas roupas seriam, de algum modo, aproveitáveis. Minha cueca joguei no lixo. A camisa era história. As calças estavam deploráveis e assim como minhas meias mudaram de cor tingidas pela merda. Meus sapatos estavam nota 3, numa escala de 1 a 10. Teria que improvisar. A invenção é a mãe da necessidade, então transformei uma simples privada em uma magnífica máquina de lavar. 

Virei a calça do lado avesso, segurei-a pela barra, e mergulhei a parte atingida na água. Comecei a dar descarga até que o grosso da merda se desprendeu. 

Estava pronto para embarcar. Saí do banheiro e atravessei o aeroporto em direção ao portão de embarque trajando sapatos sem meias, as calças do lado avesso e molhadas da cintura ao joelho (não exatamente limpas) e o pulôver gola "V", sem camisa. Mas caminhava com a dignidade de um lorde. Embarquei no avião, onde todos os passageiros estavam esperando o "RAPAZ QUE ESTAVA NO BANHEIRO" e atravessei todo o corredor até o meu assento, ao lado do meu amigo que sorria. 

A aeromoça aproximou-se e perguntou se precisava de algo. Eu cheguei a pensar em pedir 120 toalhinhas perfumadas para disfarçar o cheiro de fossa transbordante e uma gilete para cortar os pulsos, mas decidi não pedir: 

"Nada, obrigado. Eu só queria esquecer este dia de merda!!!"

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25- Necessidades Sexuais

Nunca tinha entendido por que as necessidades sexuais dos homens e das mulheres são tão diferentes. E nunca tinha entendido por que os homens pensam com a cabeça e as mulheres com o coração.

Uma noite, semana passada, minha mulher e eu estávamos indo para a cama. Bom, começamos a ficar à vontade, fazer carinhos, já estava bastante excitado e nesse momento, ela fala: "Acho que agora não quero, só quero que você me abrace. Me abrace, mas me abrace forte " 

Eu falei: "O QUEEEEEÊ??". 

Ela falou: "Você não sabe se conectar com as minhas necessidades emocionais como mulher".

Comecei a pensar onde podia ter falhado. No final, assumi que naquela noite, não ia rolar nada, virei e dormi.

No dia seguinte fomos a um grande hipermercado, do tipo Carrefour, com muitas lojas dentro dele. Dei uma volta enquanto ela experimentava três modelitos caríssimos. Como não podia decidir por um ou outro, falei para comprar os três. Então ela me falou que precisava de uns sapatos que combinassem, a R$ 200,00 cada par. Respondi que tudo bem. Depois fomos à seção de joalheria, de onde saiu com uns brincos de diamantes.

Estava tão emocionada! Deveria estar pensando que fiquei louco, agora penso que estava me testando quando pediu também uma raquete de tênis, porque nem tênis ela joga.

Acredito que acabei com seus esquemas e paradigmas quando falei que sim. Ela estava quase excitada sexualmente depois de tudo isso; Vocês tinham que ver a carinha dela, toda feliz!

Quando ela falou: "Vamos passar no caixa para pagar" tive dificuldade para me segurar ao falar com ela: 

"Não, meu bem, acho que agora não quero comprar tudo isso". 

Ela ficou pálida. 

Ainda falei: "Só quero que você me abrace. Me abrace, mas me abrace forte". 

No momento em que começou a ficar com cara de querer me matar, falei:

 "Você não sabe se conectar com as minhas necessidades financeiras como homem..." 

Acredito que o sexo acabou para mim até o natal de 2020...

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26- O FIM DA ÁRVORE GENEALÓGICA

– Mãe, vou casar!

– Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça?

– Não é moça. Vou casar com um moço.. O nome dele é Murilo.

– Você falou Murilo… Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto
psicótico?

– Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?
– Nada, não… Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que
talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.

– Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo…
– Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora… Ou
isso.

– Você vai ter uma nora. Só que uma nora… Meio macho.
– Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro
quase fêmea… E quando eu vou conhecer o meu. A minha… O Murilo?

– Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido.
– Tá! Biscoito… Já gostei dele.. Alguém com esse apelido só pode ser uma
pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui?

– Por quê?
– Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.

– Você acha que o Papai não vai aceitar?
– Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver.. .
Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua
cara-metade. E olha que espetáculo: as duas metades com bigode.

– Mãe, que besteira … Hoje em dia … Praticamente todos os meus amigos são
gays.
– Só espero que tenha sobrado algum que não seja… Pra poder apresentar pra
tua irmã.

– A Bel já tá namorando.
– A Bel? Namorando?! Ela não me falou nada… Quem é?

– Uma tal de Veruska.
– Como?

– Veruska…
– Ah! bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.

– Mãe!!!…
– Tá.., tá…, tudo bem…Se vocês são felizes. Só fico triste, porque não vou
ter um neto ..

– Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os
espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.
– Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?

– Quando ele era hétero… A Veruska.
– Que Veruska?

– Namorada da Bel…
– “Peraí”. A ex-namorada do teu atual namorado… E a atual namorada da tua
irmã . Que é minha filha também… Que se chama Bel. É isso? Porque eu me
perdi um pouco…

– É isso. Pois é… A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero…
– De quem?

– Da Bel.
– Mas . Logo da Bel?! Quer dizer então… Que a Bel vai gerar um filho teu e
do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é
a Veruska.

– Isso.
– Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito,
filha da Veruska e filha da Bel.

– Em termos…
– A criança vai ter duas mães: você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a
Bel.

– Por aí…
– Por outro lado, a Bel….,além de mãe, é tia… Ou tio… Porque é tua irmã.

– Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra
com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska…
Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.
– Só trocar, né? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.

– Exato!
– Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi…

– Entendeu o quê?
– Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!

– Que swing, mãe?!!….
– É swing, sim! Uma troca de casais… Com os óvulos e os espermatozóides, uma
hora no útero de uma, outra hora no útero de outra…..

– Mas…
– Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior… Com incesto
no meio..

– A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso…
Sei!!! … E quando elas quiserem ter filhos…

– Nós ajudamos.
– Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai
ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero,o
espermatozóide. .. A única coisa que eu entendi é que…

– Que…?
– Fazer árvore genealógica daqui pra frente… vai ser F***.