As palavras que valem ouro

22/07/2013 20:06

 

Uma análise em hipertexto de um poema de José Paulo Paes

 

Por Braulio Tavares

As oficinas literárias e de escrita criativa incentivam seus alunos a enriquecer o vocabulário, aprender a usar novas palavras, fugir ao samba-de-uma-nota-só da linguagem padrão. É conselho útil, mas muitas vezes mal compreendido. O aluno fica às vezes pensando que usar palavras "difíceis" é um valor em si, um pouco como quem acha que se usar joias caras estará elegante.  

Essa impressão é reforçada por exemplos vindos de direção diferente - os clássicos da literatura brasileira que, no colégio, tantas noites de insônia nos causaram, porque pareciam escritos em egípcio ou cartaginês. Um adolescente que lê Coelho Neto, Rui Barbosa ou Euclides da Cunha tem às vezes a sensação de estar em país estrangeiro, tal a distância entre aquele vocabulário e o que ele conhece. Alguns ultrapassam a barreira, infelizmente, do modo errado: acreditam que, se aqueles autores usam tantas palavras extravagantes e são respeitados, a melhor maneira de ganhar respeito é imitá-los. 

Exageros
E a verdade é que basta folhear o dicionário meio ao acaso para ver que a língua está cheia de palavras sonoras, imponentes, com certo ar de mistério... Tergiversar! Regabofe! Pusilânime! Concomitantemente! Hodierno! O autor copia as definições de cada uma e produz algo como: 

"O homem hodierno não pode tergiversar diante do verdadeiro regabofe que se promove com o dinheiro público, porque concomitantemente estará se tornando pusilânime". 

O texto está errado? Não. É absurdo, sem sentido? Até que não. Mas não é um texto, é um monstro de Frankenstein. Não é assim que essas palavras são usadas. A aparição de cada uma delas reduz a viabilidade de uso das demais, em progressão geométrica, a menos que se trate de paródia, texto satírico, ou experiência recreativa. 

Mais do que palavras raras o nosso vocabulário necessita de palavras precisas. Palavras que exprimam uma ideia qualquer com tal nitidez que não possam ser substituídas por nenhuma outra. Flaubert acreditava que para cada coisa que se quer dizer existe "le mot juste", a palavra justa, exata, insubstituível. Talvez não seja assim para tudo, mas não se pode negar que em níveis elevados (mas acessíveis a qualquer um) da linguagem literária essa busca vale a pena. 

Mesmo que "a palavra justa" não seja a única possível, ela pode muito bem ser mais adequada do que a primeira palavra que nos ocorre quando estamos escrevendo. Não tem de ser uma palavra perfeita, basta ser uma palavra melhor. 

Troca adequada


Um personagem meio circunspecto, meio antissocial, pode dizer, como diz o Conselheiro Aires de Machado de Assis: "Preciso de me lavar da companhia dos outros". O primeiro verbo pensado pode ter sido "livrar", mas a segunda ideia é melhor. (E há tantos escritores que nunca esperam pela segunda ideia.) A palavra transmite a sensação de alívio e de purificação, além da libertação já contida no primeiro verbo.

Quando lemos uma descrição mais precisa, a cena se fixa de maneira mais intensa em nossa mente. Eis duas versões do texto:
 1) "Eu estava numa esquina, depois de sair do bar, quando a poucos metros de mim parou um carro, de onde desceu uma mulher que se encaminhou para uma loja".

2) "Eu estava numa esquina de Copacabana, depois de sair da choperia, quando a poucos metros de mim parou um Honda cinza, de onde desceu uma mulher morena, com uns 40 anos, que se encaminhou para uma delicatessen". 

Precisão
O vocabulário mais rico no segundo exemplo nada tem a ver com preciosismo ou erudição. É só a troca de palavras mais genéricas, mais vagas (bar, carro, loja) por mais precisas (choperia, Honda, delicatessen), além de situar com mais nitidez a esquina e visualizar melhor a mulher. 

Isto é obrigatório? De jeito nenhum. Muitos autores (Kafka, por exemplo) extraem efeitos notáveis do uso de uma linguagem mais vaga.

Mas em princípio o leitor sente o impacto da imagem verbal mais nítida.

A linguagem, neste sentido, é como uma fotografia: procuramos com os olhos, instintivamente, o que está mais em foco, e a falta de nitidez deve resultar de um efeito estético, e não de descuido ou preguiça.

 

Fonte: https://revistalingua.uol.com.br/textos/93/as-palavras-que-valem-ouro-292132-1.asp