A Retórica do Detetive

12/06/2011 21:19
Novas versões de Sherlock Holmes para cinema, TV e literatura mostram o fascínio por um modo de pensar que nasceu na Antiguidade e hoje marca o imaginário narrativo

Edgard Murano

Benedict Cumberbatch e Martin Freeman no seriado inglês que transporta Sherlock para os dias atuais: detetive com blog e um Watson traumatizado com a guerra a Bin Laden

Por trás de um dos bordões mais famosos do mundo - "Elementar, meu caro Watson" - jaz uma das mais prolíficas tradições de raciocínio que o Ocidente já desenvolveu. O método dedutivo nasceu da observação humana mais remota, encorpou sua musculatura na retórica antiga, continua a fazer a cabeça da filosofia da linguagem, mas acabou ganhando um padrão narrativo definitivo, e até um rosto, quando o escritor inglês Arthur Conan Doyle (1859-1930) popularizou as histórias de Sherlock Holmes. 

O estilo dedutivo personificado por Sherlock está mais vivo do que nunca na cultura atual. Oitenta anos depois da morte de seu criador, seus herdeiros autorizaram a edição de um novo romance protagonizado por Sherlock, a ser escrito pelo britânico Anthony Horowitz, autor de livros infantis muito querido pelos ingleses. Acabam de ser anunciadas, por sua vez, as filmagens das novas aventuras sherloquianas vividas de forma frenética por Robert Downey Jr., e a produção da segunda temporada da série Sherlock, da BBC, com a curiosa proposta de ambientar o personagem nos dias de hoje. 

Protagonista de ao menos quatro romances e cinco livros de contos, o personagem de Conan Doyle motiva uma série de versões e imitações (há até um Sherlock à brasileira, idealizado por Jô Soares no best-seller O Xangô de Baker Street), e instiga o imaginário ávido pelos prodígios da mente humana aplicados a enigmas os mais diversos. 

Por isso, a influência sherloquiana ultrapassa as homenagens diretas e invade áreas tão distintas como a filosofia e a teoria da arte. E explica, de quebra, mesmo o sucesso de produções da indústria cultural, de séries televisivas como House e Monk (ambas exibidas no Brasil pelo canal pago Universal) à literatura arrasa-quarteirão de Código da Vinci

Sucesso de público
Foi baseado na certeza do fascínio que o público tem por esse gênero dedutivo que as novas versões audiovisuais de Sherlock serão lançadas no segundo semestre, cada uma com atrativos próprios. Nos cinemas, por exemplo, o ambiente tradicional do detetive do século 19 ganhou ares de molecagem nas mãos do diretor Guy Ritchie e um desempenho visceral de Downey Jr., que lembra demais o de um Indiana Jones vitoriano: entre uma dedução e outra, seu Sherlock despenca de telhados e escapa de explosões, no melhor estilo hollywoodiano. A produção do segundo filme, prenúncio de uma série cinematográfica, promete transformar o herói de Conan Doyle numa franquia hollywoodiana, um negócio próprio dentro do universo que gravita em torno do detetive.

Já o seriado da BBC imagina o que aconteceria se o detetive fleumático vivesse na Inglaterra atual: o herói mantém um blog, tem sexualidade ambígua, e por economia divide um apê com Watson, que por sua vez integrou as forças que caçaram Bin Laden na guerra do Afeganistão. Na série, o Sherlock interpretado por Benedict Cumberbatch extrai deduções desconcertantes de ranhuras de celulares, controles remotos e para-brisas de carros esportivos. A própria linguagem da série concilia modernidade e tradição narrativa: o roteiro assinado por Steve Moffat e Mark Gattis opta, por exemplo, por dar corpo ao pensamento frenético do detetive por meio de caracteres e hipertextos, que pululam na tela a cada caso, em vez de se recorrer aos relatos verbais do personagem depois de o crime ter sido solucionado. 

Mais do que um personagem que ressurge sob diferentes roupagens e caracterizações ao longo dos tempos, há uma questão de fundo que pode ajudar a deslindar o fascínio do detetive criado por Conan Doyle. Principalmente, de seu método dedutivo peculiar, capaz de tirar inúmeras conclusões da simples observação de uma orelha ou do formato de uma mancha no assoalho. Afinal, que tipo de raciocínio encerra o método consagrado por essas histórias? O que o estilo de narrar de Doyle nos diz sobre a maneira de pensar ocidental e sobre as formas de organizar discursos, narrativos ou não?

O painel montado nestas páginas pode dar pistas para uma resposta. (Colaborou Luiz Costa Pereira Jr.)

Uma retórica específica
Modelo sherloquiano difere da lógica dedutiva da Antiguidade, da qual é derivado
Aristóteles batizou de "silogismo" o método consagrado séculos depois nas aventuras sherloquianas
O ato de raciocinar e engendrar argumentos é intrínseco à condição humana, pensavam os antigos. Segundo a lógica clássica, o raciocínio consiste em elencar e encadear premissas para chegar a uma conclusão. 

Entende-se por premissa a identidade ou não entre dois conceitos. Por exemplo: todo avião tem asas. 

Já a dedução é uma espécie de raciocínio que, partindo de uma proposição geral, conclui uma particularidade. O filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) costumava chamar o método dedutivo de "silogismo". 

  • Todo avião tem asas (premissa maior). 
  • Um teco-teco é um avião (premissa menor). 
  • Logo, tem asas (conclusão). 
O raciocínio dedutivo não contribui com nenhum conhecimento novo, apenas o torna mais específico. Em contrapartida, o método indutivo faz o movimento contrário: partindo de premissas particulares, chega a uma conclusão universal: 

  • O ferro conduz eletricidade (o ferro é metal). 
  • O cobre conduz eletricidade (o cobre é metal). 
  • Logo, os metais conduzem eletricidade (lei geral).
A lógica professada por filósofos da Antiguidade como Aristóteles, contudo, parece "fichinha" perto da capacidade sobre-humana de Sherlock para processar pistas e informações em centésimos de segundos. 

Caça aos vestígios
Etimologia, história e arqueologia sugerem que narrativa detetivesca descende de práticas pré-históricas
Os caçadores pré-históricos foram os primeiros a narrar histórias devido à sua capacidade de "ler" as pistas dos animais

A atenção às pistas como fonte de conhecimento durante uma perseguição está na própria raiz do termo "detetive", do inglês detective, no qual temos o antepositivo latino teg-, sinônimo de "ocultar", "encobrir" ou "esconder". 

Caberia àquele que se nomeia "detetive", por consequência, "detectar" indícios que levem a cabo sua busca, o que o historiador Carlo Ginzburg vê, em Mitos, Emblemas e Sinais, como primordial para o nascimento da narrativa. 

O teórico italiano parte da hipótese de que a própria ideia de narração nasceu numa sociedade de caçadores. Afinal, por milênios o homem precisou caçar para sobreviver, o que implicou a leitura de sinais como pegadas, galhos partidos, tufos de pelos, etc. 
"O fato de que algumas figuras retóricas sobre as quais ainda hoje funda-se a linguagem da decifração venatória [de caça] - a parte pelo todo, o efeito pela causa - são reconduzíveis ao eixo narrativo da metonímia, com rigorosa exclusão da metáfora, reforça essa hipótese", diz Ginzburg.

Os caçadores teriam sido, assim, os primeiros a "narrar uma história", porque seriam os únicos aptos a ler nas pistas quase imperceptíveis uma "série coerente de eventos". Se isso for verdade, mais do que detetives, Sherlock Holmes e a linhagem a que ele deu origem seriam mais bem definidos como leitores privilegiados da realidade. 

Anatomia do discurso
Lógica médica está presente na criação do modelo sherloquiano de raciocínio
O médico do seriadoHouse, vivido por Hugh Laurie (direita), mostra o método sherloquiano aplicado à medicina, que por sua vez remonta à inspiração de Conan Doyle, seu professor Joseph Bell(acima)




Arthur Conan Doyle havia sido médico antes de dedicar-se à literatura. Entre 1876 e 1881, estudou medicina em Edimburgo (Escócia), onde conheceu o Dr. Joseph Bell, que foi seu professor. O mestre era capaz de deduções e observações que deixavam perplexos os jovens estudantes. 

Doyle chegou a escrever a Bell, reconhecendo-lhe a paternidade do personagem:
"É sem dúvida ao senhor que devo Sherlock Holmes, e embora nas histórias eu tenha a vantagem de poder inserir [o detetive] em toda sorte de situação dramática, penso que o trabalho analítico que ele executa não é de maneira nenhuma um exagero de alguns efeitos que o vi produzir no ambulatório. Em torno do centro de dedução, inferência e observação que eu o vi inculcar, tentei construir um homem que levasse a coisa tão longe quanto possível - ocasionalmente, ainda mais..." (As Aventuras deSherlock Holmes - Contos, volume 1. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro: 2010). 

A presença da lógica médica está calcada na descrição anatômica e na leitura de sintomas a partir de signos corporais. Há uma tradição narrativa que associa essa prática da medicina ao ofício detetivesco, que inspira desde programas de canais comoDiscovery Channel (é o caso do atual Detetives Médicos) a séries médicas como House, de descarada inspiração sherloquiana. 

Em House, o herói-título conduz sua 7a temporada sem conseguir mais encontrar um desfecho à altura para a história do médico especialista em diagnósticos. Mal-humorado e viciado em analgésicos, o protagonista interpretado por Hugh Laurie é capaz de descobrir a origem de males e doenças (nem sempre tão misteriosas assim, dizem os clínicos da vida real), por meio de observações corriqueiras e insights. Suas sacadas ocorrem sempre quando menos se espera, a partir de uma ideia correlata ou improvável, como café derrubado numa calça ou uma livre associação feita pelo paciente. 

A filosofia da abdução
Conceito semiótico ajuda a entender modo de raciocínio que dá brilho à narrativa sherloquiana
Peirce cunhou o conceito de raciocínio "abdutivo", típico dos espíritos argutos

A forma de pensar sherloquiana recorre a pistas ínfimas a partir da observação atenta dos detalhes. Ela foi associada à maneira de pensar de gênios e artistas já no começo do século 20 pelo trabalho teórico do filósofo Charles Sanders Peirce (1839-1914).
O filósofo, um dos pais da semiótica contemporânea, acrescentou à tipologia clássica de raciocínios (a dedução e a indução) um terceiro tipo, segundo ele o mais importante, a que batizou de "abdução". 

Enquanto a dedução caminha do geral ao particular - e a indução, do particular para o geral - a abdução é uma espécie de intuição que caminha passo a passo até chegar à conclusão, mas partindo sempre de uma interpretação racional de sinais, indícios e signos. 

Por envolver uma interpretação ou processamento "intuitivo" das pistas, Peirce atribui essa faculdade a espíritos observadores e criativos. Não por acaso, o teórico se valeu das histórias sherlockianas para legitimar sua teoria sobre a abdução, a qual ele classificou comospontaneous conjectures of instinctive reason (conjecturas espontâneas de uma razão instintiva), em seu livroSemiótica e Filosofia (Cultrix e Editora USP, 1975). 

Se o raciocínio abdutivo "advém-nos como um lampejo", constituindo-se "um ato de introvisão (insight), embora de uma introvisão extremamente falível", como afirma Peirce, essa forma de pensar difere do método dedutivo clássico na medida em que este é usado para a comprovação de uma verdade, ao passo que o abdutivo e o indutivo são normalmente empregados para a aquisição de um novo conhecimento. 

A visão detetivesca da pintura
Crítico inspirou-se em Conan Doyle para identificar quadros falsos
Morelli (acima) identificava falsificações pelos detalhes a que ninguém reparava, e não pelos mais evidentes, como o sorriso de Mona Lisa





O espírito observador sherloquiano encontra uma anedota esclarecedora no exemplo do historiador Giovanni Morelli (1816-1891), analisado pelo crítico italiano Carlo Ginzburg no livro Mitos, Emblemas e Sinais. Segundo Morelli, os museus estavam cheios de quadros cujos autores eram desconhecidos, muitos sem assinatura ou mal conservados. Para identificar uma autoria, o historiador estipulou que era preciso se fixar não nas características mais vistosas e facilmente imitáveis dos quadros - como o olhar erguido ao céu nos personagens de Perugino ou o sorriso de Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. A maneira mais eficaz de descobrir uma imitação, concluiu Morelli, era a sherloquiana: dar atenção a pormenores que em geral se negligencia, detalhes (lóbulos de orelhas, unhas, forma dos dedos, etc.) menos influenciados pela tradição ou por características de uma escola. Eles seriam os pontos menos suscetíveis à técnica dos falsários. 

A hegemonia do detalhe em detrimento do todo, que está no cerne da técnica morelliana, recria o raciocínio sherloquiano, atesta Ginzburg. "Veja-se um conto como 'A caixa de papelão' (1892), no qual Sherlock Holmes literalmente 'dá uma de Morelli'. O caso começa exatamente com duas orelhas cortadas e enviadas pelo correio a uma inocente senhorita". No conto, Sherlock descobre que a vítima era parente da senhorita que vai visitá-lo apenas pelo formato análogo das orelhas. 

Espírito de época
Precursor do gênero policial, Edgar Allan Poe criou obras que serviram de inspiração para heróis detetives como Sherlock
Acima adaptação de Crimes da Rua Morgue (1950), da obra de Edgar Allan Poe (detalhe), criador de Duoin: uma das fontes para Sherlock de Conan Doyle

Personagens como Sherlock Holmes não eram propriamente uma novidade literária à época em que foi criado. O escritor Conan Doyle sabia, por exemplo, ser devedor do norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849) - cuja obra é conhecida pelo engenho narrativo aliado a temas fantásticos. 

O personagem Auguste Dupin, de Poe, brilhou em contos escritos na década de 1840, como "A carta roubada", "Crimes da rua Morgue" e "O mistério de Marie Roget". "O magistral detetive de Poe, M. Dupin, havia sido um de meus heróis desde a infância", escreveu Conan Doyle em suas Memórias e Aventuras (1924). 

Dupin, um detetive free-lancer, também tinha seu comparsa, que funcionava nos relatos como o Watson de Sherlock: um fator de identificação entre o leitor e o coadjuvante ante o raciocínio prodigioso do detetive. 

Não se trata propriamente de coincidência ou mero decalque, mas de um provável "espírito de época" que marcou parte do século 19. Para o historiador Carlo Ginzburg, emMitos, Emblemas e Sinais, entre 1870 e 1880 foi se firmando nas ciências humanas "um paradigma indiciário baseado justamente na semiótica". 

Começava, assim, a engrossar o caldo cultural que daria os contornos do detetive mais conhecido do planeta.