A Jogabilidade

04/06/2011 14:30

Termo nascido no universo dos videogames sintetiza a singularidade narrativa dos jogos eletrônicos


Braulio Tavares


Certos neologismos são meio intragáveis, mas correspondem a uma noção tão nova que os perdoo. A palavra "jogabilidade", tão associada aos videogames, surge a toda hora nas resenhas. É de certa forma o primeiro conceito importante surgido a partir dos jogos eletrônicos. Esses jogos sempre são analisados e avaliados através de conceitos herdados da literatura (personagens, enredo, suspense, diálogos, etc.) ou do cinema (textura visual, enquadramentos, movimentos de câmara, câmara subjetiva, ângulos, etc.). "Jogabilidade" não existe em nenhum dos dois, se bem que possamos (em retrospecto) enxergá-lo em embrião em outras formas de arte. Toda forma de arte é interativa, depende em certa medida da interferência ou da complementação mental do usuário. Os games se diferenciam pelo fato de fazerem disso o seu objetivo, a sua essência.

A jogabilidade de um jogo diz respeito, por exemplo, à facilidade de jogar. O jogo deve ser fácil o bastante para ser acessível, mas deve também oferecer dificuldades e desafios. Outros aspecto da jogabilidade é o que em inglês se chama
 responsiveness, e que é a rapidez e a clareza da reação do jogo às ações do jogador. O jogador precisa sentir firmeza no jogo, precisa saber o que acontecerá sempre que ele fizer tal-ou-tal coisa em tal-ou-tal circunstância. Jogabilidade também implica ritmo, andamento; há certos jogos que são de uma atividade frenética (fuzilar zumbis, por exemplo) e outros que requerem do jogador que tenha paciência, capacidade de espera ou disposição para ficar procurando algo até achar. 

Forma de arte
Jogabilidade implica também coerência. Todo jogo tem regras. Se não tem regras não é jogo, é dadaísmo recreativo. Existem as regras que são explicadas logo no início e outras que são assimiladas ao longo da atividade. Quem joga games aprende desde cedo a, numa situação difícil (preso num quarto, por exemplo), sair tocando em cada objeto em volta e vendo como ele reage. Um deles vai se revelar útil para fugir dali. O jogo é considerado incoerente quando frustra de maneira desordenada essas expectativas do jogador.
 

Videogames são uma forma de arte? Provavelmente, porque nada nos obriga a considerar arte apenas o que é considerado assim há mil anos. O simples fato de ser mais uma encarnação da Arte da Narrativa (como a literatura, o teatro, o cinema, os quadrinhos) lhe dá a possibilidade de produzir obras de Arte com "a" maiúsculo (seja isso o que for). Não faz sentido dizer que um videogame nunca terá a profundidade das obras de Tolstoi ou Beethoven; é o mesmo que dizer que o que eles fizeram não tem jogabilidade. A jogabilidade existe em função da natureza do jogo. Se é um jogo de ação e aventura, deve existir em função da ação e aventura. Se é um jogo de mistério, idem. Se é um jogo de estratégia, de gerenciamento, deve ser jogável em função disso. Um jogo propõe uma experiência, e tem boa jogabilidade quando a experiência é vista pelo jogador como desafiante, prazerosa e enriquecedora.
 

Conceito em disputa

A palavra "jogabilidade" funciona bem na prática dos jogos, mas deixa de lado o viés imersivo que é característica do gênero

Por Edgard Murano

Nos chamados games studies - disciplina que estuda os jogos eletrônicos, seu design, seu papel na sociedade, entre outros aspectos - a "jogabilidade" é um conceito em disputa. Em outras palavras, não há uma unanimidade sobre o sentido desse neologismo, tão novo quanto a própria indústria dos videogames. Trata-se de uma tradução do inglês gameplay ou playability, e utilizada pelos jogadores brasileiros para designar o quão "jogável" é um jogo; ou, ainda, se ele responde bem à interação dos jogadores, proporcionando-lhes uma experiência fluida e divertida, sem desestimulá-los com um alto grau de dificuldade nem tampouco aborrecê-los com facilidades em excesso.

A opção por traduzir como "jogabilidade" - apesar de funcionar bem na prática dos jogadores quando avaliam a experiência proporcionada pelo jogo - perde, como toda tradução, uma dimensão cara à estética dos
 games, sejam eles eletrônicos ou não: o fator lúdico e imersivo, acepção garantida pelo play de playability. O conceito implícito em play, do inglês "atuar, brincar, jogar", vai além da questão de um jogo ser jogável ou não. Mas se relaciona com o quão esse jogo permite ao participante imergir em sua narrativa, possibilitando-lhe abstrair as regras e sentir na pele as características de seu avatar (personagem). De maneira análoga à literatura, por imersão entende-se a aptidão da narrativa-jogo para "criar um clima", envolvendo o leitor-jogador na história. 

Jogos como
 God of War, Prince of Persia e Shadow of Colossus, entre outros, mais do que "jogáveis", oferecem uma experiência narrativa enriquecedora - algo que só a recente evolução tecnológica dos videogames, aliada a roteiros cada vez mais perspicazes, foi capaz de oferecer.

 

Fonte:https://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12309