A Arte de Fingir uma Coisa para Dizer Outra

21/06/2011 22:25
Uma ironia bem feita aprimora uma argumentação; o problema é fazer uma ironia bem feita

José Luiz Fiorin

Na terceira parte de uma crônica datada de 16 de julho de 1878, Machado de Assis comenta a introdução de touradas no Rio de Janeiro:

"A providência, em seus inescrutáveis desígnios, tinha assentado dar a esta cidade um benefício grande; e nenhum lhe pareceu maior nem melhor do que certo gozo superfino, espiritual e grave, que patenteasse a brandura de nossos costumes e a graça de nossas maneiras: deu-nos os touros." 

Lendo-se o texto, tem-se a impressão de que Machado está elogiando a tauromaquia, embora cause certa estranheza considerá-la um modo de patentear a brandura de nossos costumes e a graça de nossas maneiras. Continuando a ler o texto, outros elementos vão mostrando que se trata de uma predicação impertinente, isto é, que o texto acima não faz sentido, se o entendemos como um louvor às touradas. Veja-se: "os prazeres intelectuais hão de sempre dominar nesta geração"; "nobre diversão do espírito"; "não estou entre os inconsoláveis admiradores do Pontes (um toureiro), que lá se vai, mar em fora. Perdão, do artista Pontes. Sejamos do nosso século e da nossa língua. No tempo em que uma vã teoria regulava as coisas do espírito, estes nomes de artista e de arte tinham restrito emprego: exprimiam certa aplicação de certas faculdades"; "Daí vem que farpear um touro ou esculpir o Moisés é o mesmo fato intelectual". Lendo-se a totalidade do texto, percebe-se que só se pode dar pertinência ao que está citado acima, se o entendermos como uma inversão semântica do que foi dito: o gozo da tourada é grosseiro, nada tem de espiritual e de grave, ele patenteia a dureza de nossos costumes e a deselegância de nossas maneiras. Trata-se, enfim, de uma ironia. 

A ironia (< do grego eironéia, que significa "dissimulação") ou antífrase (< do grego antíphrasis, que quer dizer "expressão contrária") é um alargamento semântico. No eixo da extensão, um significado tem o seu valor invertido, abarcando assim o sentido x e seu oposto. Com isso, há uma intensificação maior ao sentido, pois se finge dizer uma coisa para dizer exatamente o oposto. O que estabelece uma compatibilidade entre os dois sentidos é uma inversão. A ironia apresenta uma atitude do enunciador, pois é utilizada para criar sentidos que vão do gracejo até o sarcasmo, passando pelo escárnio, pela zombaria, pelo desprezo, etc. Na verdade, são duas vozes em conflito, uma expressando o inverso do que disse a outra; uma voz invalida o que a outra profere. Assim, a ironia é um tropo em que se estabelece uma compatibilidade predicativa por inversão, alargando a extensão sêmica dos pontos de vista coexistentes e aumentando sua intensidade.

Antífrase
Muitos autores, como Cícero, no De oratore (II, 65-67), distinguem a ironia da antífrase. Aquela é a dissimulação do orador, que, por exemplo, usa palavras elogiosas para criticar, enquanto esta é uma inversão semântica. Na prática, no entanto, como, quando o elogio deve ser compreendido como reprimenda, o que se faz é entender o inverso do que se disse, podemos considerar sinônimos os termos ironia e antífrase, pois a antífrase também é uma operação enunciativa, uma dissimulação do enunciador. É assim que entendem autores, como Vieira, um grande conhecedor da retórica:

"Gerou, pois, o rei guerreiro ao pacífico, e o pacífico sucedeu ao guerreiro, porque a paz é filha da guerra, e à guerra sucede a paz. Muito é que de uma mãe tão feia e tão descomposta nasça uma filha tão formosa e tão modesta? Mas por isso os antigos chamaram à guerra bellum, não por ironia ou antífrase, como muitos cuidam, senão porque da guerra nasce a bela paz." (Sermão XII do Rosário, parte I)

A compreensão da ironia exige a percepção de uma impertinência predicativa. No capítulo III do conto "A parasita azul", de Machado de Assis, aparece a frase "Soares olhava para Camilo com a mesma ternura com que um gavião espreita uma pomba". Evidentemente, "um gavião espreita a pomba" não pode admitir o uso da palavra "ternura". Por isso, aqui ela significa "frieza", "malvadez". 

Charge de Rômolo D´Hipólito: ironia visual com os designers
Inverso
A ironia pode ter várias dimensões. Vai desde uma palavra até uma obra toda, passando por passagens de diferente extensão de uma dada obra. No exemplo abaixo, um texto de Almada Negreiros, intitulado "Manifesto Anti Dantas" (Dantas é Júlio Dantas, autor português), o termo "modéstia" tem que ser entendido como o seu inverso:

"E fique sabendo o (Júlio) Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor dos Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões."

No Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, Vieira, a partir de uma passagem da narrativa bíblica dos sofrimentos de Jó, ironiza a divindade, ao dizer que, se Deus permitir que os portugueses, que são católicos, sejam vencidos, então ele que espere louvor dos holandeses, que são hereges.

"Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras da boca de Jó que, como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragédia. Queixava-se o exemplo da paciência a Deus - que nos quer Deus sofridos, mas não insensíveis - queixava-se do tesão de suas penas, demandando e altercando porque se lhe não havia de remitir e afrouxar um pouco o rigor delas, e como a todas as réplicas e instâncias o Senhor se mostrasse inexorável, quando já não teve mais que dizer, concluiu assim: Ecce nunc in pulvere dormiam, et si mane me quaesieris, non subsistam (Jó 7,21): Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor, e chegar com ele ao cabo, seja muito embora, matai-me, consumi-me, enterrai-me: Ecce nunc in pulvere dormiam. Mas só vos digo e vos lembro uma coisa, que se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar: Et si mane me quaesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa, mas não achareis a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que a venere, não achareis a um Jó que, ainda com suas chagas, a não desautorize. - O mesmo digo eu, Senhor, que não é muito rompa nos mesmos afetos que se vê no mesmo estado. Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores, que levem pelo mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes, e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdã, Meldeburg e Flisinga, e em todas as outras colônias daquele frio e alagado inferno, se está fazendo todos os dias."

Visual
Jonathan Swift escreveu um panfleto intitulado Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República, que deve ser entendido como uma ironia, ao sugerir que as crianças servissem de alimento aos adultos. O conto "A igreja do diabo", de Machado de Assis, é uma ironia da construção de uma religião e do seu moralismo, que impele a praticar o contrário do que prega.

A ironia pode aparecer em outras linguagens, como a visual, como na tira da série "Malditos designers", de Rômolo Eduardo D'Hipólito, em que não se deve entender o triângulo como o símbolo da divindade, ou seja, um conteúdo, mas como uma simples forma, que os designers adoram.

José Luiz Fiorin é professor do Departamento de Linguística da USP e autor de As Astúcias da Enunciação   

 Fonte:https://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12335