Você tem cara de rico?

23/12/2013 21:59

 

 

 

Aula de História no Ensino Médio pós ENEM. Atualidades e o reluzente mundo do capitalismo em pauta: Impossível não falar do curioso caso do playboy do camarote: O cara que fez e aconteceu, tirou fotos lindas ao lado de estrelas e, no final das contas, era uma farsa. Mundo de imagens, marcas de grifes caríssimas, carros reluzentes e bebidas dignas das melhores casas de festa europeias; O dito-cujo fez sucesso nas redes sociais, revistas semanais e mídia em geral. Pena que era tudo uma farsa, certo? Errado. É simplesmente um caso que representa a realidade do paraíso capitalista, ou como diria o Titãs: “Homem primata, capitalismo selvagem...”

Aí, meu caro aluno Rafael soltou um petardo que acabou ilustrando o restante de nossas discussões na aula e que agora compartilho com você, consciente leitor: Segundo ele, dia desses, compareceu com seu pai a uma concessionária de carros alemães Premium em BH, daqueles posudos, possantes que o capitalismo adora. Para sua surpresa os vendedores sequer se levantaram de suas confortáveis poltronas de couro natural para lhes atender. Acredite. Respondi-lhe que tanto ele quanto o pai não tinham cara de rico, nem cheiro de rico, nem pinta de rico. É lógico que ele, a turma e você entendem que minha fala é irônica.

Existe uma lenda de que um produtor rural foi a uma concessionária, também na capital, querendo comprar uma mega caminhonete. Como o vendedor negou-lhe um desconto e o tratou de forma até irônica, na outra semana o mesmo agricultor retornou à loja com uma velha caminhonete. Esta tinha a caçamba lotada de notas miúdas e moedas. Ele pediu que o mesmo vendedor o atendesse, fiscalizou a contagem de cada Real e comprou o carro que queria. Este teve manha, não é mesmo?

Também passei dessas na última viagem que fiz no feriado.  Ao chegar ao saguão de um hotel no qual não tínhamos feito reserva, mas que seria até interessante ficar por lá, ouvimos do gerente a seguinte frase: “Desculpe senhor, não temos vagas; Apenas a suíte está disponível”. Note que ele não nos ofereceu a suíte. Por acaso ele nos perguntou se queríamos tal apartamento? Não. Com certeza também não tínhamos cara de rico. Fomos para o hotel que havíamos reservado anteriormente e até que ele não era tão mal. Coisas do capitalismo no qual estamos submersos até o último fio de cabelo.

Resta-nos agir com consciência, respeitar nossos valores e saber bolar respostas bem criativas para certos vendedores, recepcionistas e afins. À propósito, não respondemos ao gerente pois estávamos cansados demais para tal...

Pense nisso e resista à ditadura de imagens e falsetes do capitalismo. Uma hora a máscara cai, com certeza.

Abraço cordial!!!

Dedico esta crônica ao Rafael e ao seu pai. Dedico também a mim. Acho que não temos lá muita cara de rico. Fazer o quê...

 

(Eduardo C. Souza é professor de História e escreve mensalmente neste espaço. Ele promete, em respeito ao Rafael, que não escolherá seu novo sedã Premium da marca que o esnobou. Ele irá à concorrência, algo vital e sadio para o capitalismo).

 

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