Tudo em ordem, nada em ordem.

13/11/2017 11:38

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Ciro levantara-se para a labuta diária. Em sua quitinete, silêncio absoluto. Na sua usina mental, produção total, sem intervalos, digna de uma linha de produção fordista. A primeira impressão foi a de que Gorete, sua faxineira, deixara o apartamento limpo e todo desorganizado. Mas um olhar mais atento, mudou todo o enredo.

__ Que absurdo! Onde já se viu deixar garfos, colheres e facas misturados na gaveta? E esses garfos menores, juntos com os maiores?  E o pó de café à frente do açúcar? Que afronta!

Na mesinha minúscula da cozinha, a margarida não estava exatamente no centro, deixando os lados com a mesmíssima distância. O paninho que ia debaixo da flor estava um pouco dobrado. Os livros, na pequena estante, estavam fora da ordem alfabética e os CD’s misturados, entre as bandas. As pedrinhas que colecionava tampouco estavam em ordem crescente.

__Meu Deus do céu!

Com esse brado solitário, Ciro rompeu a aparente serenidade naquele cômodo, agora nada acomodado. Rangeu os dentes e espremeu os dedos. Pôs-se a colocar tudo na ordem estabelecida, como no dia anterior à faxina.

Assim que colocou o último CD na última parte da prateleira, partiu para o banheiro, já que adorava a ideia de relaxar com um belo banho para, em seguida, rumar para o trabalho. Ao entrar no banheiro, outro choque: Como a distinta senhora tivera a coragem de deixar o xampu atrás do condicionador? Lavar o cabelo não seria prioridade para depois hidratá-lo?  O sabonete sem o selinho de apresentação para cima? E o pior: Deixar o papel higiênico com a folha mal picotada e de cabeça pra baixo?

__ É o fim dos tempos! Terei que despedir essa senhora! Pensou o implodido cidadão...

Então, logo que terminou de colocar todos os produtos em seus devidos lugares, Ciro tomou seu banho, como de praxe. Ao vestir sua harmônica e engomada roupa social, olhou em volta e constatou tudo estar na mais perfeita ordem. Contudo, lá no fundo de sua inquieta alma de organizador, sabia que sua mania de perfeição deixava seu íntimo desordenado por demais.

Ciro abriu a porta, já vinte minutos atrasado, fechou-a rispidamente e encaminhou-se para o elevador. De preferência, queria o cubículo somente para ele, sem aquela vizinha que fedia a cigarro ou as crianças, com cheiro de creme barato no cabelo, indo para a escola. Com esse atraso, ele desejou pegar o laranjinha 1315, com placa 1478, do motorista bigodudo, sempre mais educado. Quem sabe assim, seu dia não começaria a melhorar?

 

 

 

Eduardo C. Souza  é professor de História, escritor romancista, contista e cronista. Escreve mensalmente neste espaço. 

 

 

Eduardo C. Souza  é professor de História, escritor romancista, contista e cronista. Escreve mensalmente neste espaço.