Os homens, os sentidos e a arte

31/12/2013 17:16

 

        O que seria da realidade humana senão mera distorção da realidade que entendemos ser pura? Somos seres frágeis dotados de cinco sentidos que dão sentido ao mundo, mas que não o apresenta cru e nu como realmente é ( se essa forma de apresentação do mundo realmente existe).

 

 

*Fotografia tirada pelo autor do texto em Praia Grande, ES, enquanto pensava no assunto do texto. Nada mais que uma abstração da realidade

captada por uma câmera em um momento específico do tempo. Não representa o que o autor estava enxergando através de seus olhos,

mas através de sua mente, de sua criatividade.

 

        O que quero dizer é que não há uma realidade absoluta, ao menos não entre nós, humanos dotados de cinco sensores. Se nossa visão não percebe o infravermelho ou o ultravioleta e nossa audição se limita aos 20.000 kHz, o que pensar dos odores, sabores e contatos que não conseguimos perceber? O que pensar da infinidade de cores e sons que não captamos? Somos realmente seres frágeis. Frágeis mas prepotentes, por chamarmos o que conseguimos captar com nossos cinco sentidos de realidade concreta ou verdade absoluta. Aliás, é de se impressionar quão impositores somos nós por nos apoderarmos de termos como esses. É claro que temos que nos basear em nossa realidade para poder desenvolver nossos planos, mas acreditar que possuímos a verdade, ah, isso não está ao nosso alcance.


        Ao mesmo tempo em que achamos que somos a raça racional ou aqueles que dominam o contexto, conseguimos perceber nossa fragilidade diante da insegurança da abstração. É olhar pro céu, pro fogo, pro mar. Nossa mente se perde e a sensação é de tranquilidade, de paz. Tranquilidade por poder sentir parte daquilo que vai além da nossa incrível capacidade de querer ter controle. Ao olhar pro chão, automaticamente sabemos que é possível modificá-lo, que é possível destruí-lo. Mas diante da imensidão do mar, que nos permite ver até o limite do alcance da visão, da infinidade do céu, que não tem matéria facilmente destrutível, do fogo, que se faz de uma quantidade de energia que não se toca, mas que destrói, do barulho estrondoso de uma cachoeira, que se impõe diante de nossa pequeninez... Nós nos sentimos insuficientes.

 

        Nossa cabeça gosta de desafios, mas é extremamente atraída por aquilo que nossos sensores não são capazes de captar: atraída pelo inalcançável. E o que seria da arte senão o inalcançável?

 

        Nós temos necessidade de arte, do caos, da desorganização, da desconstrução. Nós temos necessidade da abstração, da destruição dos sentidos e do que eles conseguem captar. Nós precisamos de outro caminho para enxergar o mundo, outra forma de ver o que vemos, ou uma forma de ver o que não vemos; sentir o que não sentimos. Nós queremos mais do que simplesmente nos é dado. Isso é arte. Uma música, uma pintura, um conto fantástico. É o uso da mente em prol da nossa necessidade de ter o que não podemos ter. É construir no céu, controlar o fogo, mover os mares. Diante da arte nossa mente se sente saciada ao ponto que cria esperanças de que possa estar captando o que os sentidos não sentem, mas a mente alcança. É a forma mais concreta do abstrato e do incompreensível. A arte é aquilo que mais parece se distanciar da realidade, mas é justamente aquilo que nos aproxima dela. Da realidade que não conseguimos alcançar.

 

        E é essa a capacidade mais bela, mais impressionante, mais importante do ser humano, o poder da arte: a criatividade. Nossa ponte para a infinidade do mundo, a possibilidade da quebra do palpável. Nosso meio para o desenvolvimento desse mundo e dos outros. Se não fosse ela nunca teríamos desenvolvido ferramentas para progredir, nunca teríamos criado as teorias para entender o mundo que nossos sentidos nos apresentam e nunca teríamos sobrevivido à concretude finita do mesmo. Teríamos um mundo escuro de ideias e de possibilidades. Aliás, é a criatividade nosso único meio para alcançar as possibilidades. Sem ela o mundo não teria cor. Não haveria letras nem mêsto. E eu não teria escrito esse texto.

 

*P.S. Mêsto é um neologismo sem carga semântica para rimar com texto. Sinta-se à vontade para preenchê-lo com sua imaginação. A mente humana é boa, mas falha. Se encontrar uma rima interessante para o texto, favor entrar em contato pelos comentários. Obrigado.

 

Lucas Lacerda