Os Degraus da História

21/06/2011 22:31
A narrativa deve ser capaz de criar e desfazer expectativas a cada nova frase, sem presumir que o leitor saiba algo de antemão

Braulio Tavares


"Ele estava parado junto à janela, observando a rua".  Assim começa o primeiro capítulo de um romance que (suponhamos) pegamos para ler, numa casa onde estamos hospedados por uma noite. É um livro antigo que perdeu a capa e a folha de rosto; não vemos o título nem o nome do autor. Pegamos para ler, meio distraidamente, e a primeira frase era esta.  Leva apenas alguns segundos para ser lida. O que acontece na mente do leitor nesses segundos? 

Sobre o personagem, sabemos que é masculino, mas isto é tudo, por enquanto. Não sabemos sua idade, sua aparência física, nada. Aliás, nem sabemos se é humano. A frase seguinte poderia muito bem ser: "Então ele se espreguiçou, soltou um miado e pulou da mesinha para o chão". 

A primeira frase dá alguns elementos para situar o leitor na cena e na ação, e a cada nova frase que é lida algumas expectativas vão sendo satisfeitas e outras vão sendo desmentidas. Se a segunda frase for algo como "Lá do alto, as pessoas pareciam formigas", sabemos que ele está num edifício elevado; se for "Nisso, um vizinho se deteve, deu bom-dia e veio até a janela apertar sua mão", sabemos que era a janela de uma casa situada ao nível da rua. 

Informações de outro tipo poderiam ser supridas por "segundas frases" como "O sol brilhava sobre as poças d'água deixadas pela chuva recente", ou "A luz pálida dos postes iluminava as poças d'água deixadas pela chuva recente". Cada uma dessas frases nos diria se era dia ou noite.  

Informações prévias
Suponhamos, porém, que o texto continua desta maneira: "Um cavaleiro de armadura, seguido por dois escudeiros, vinha galopando num corcel negro". Isto já fornece uma informação sobre a provável época em que se passa a ação, que seria a era medieval. Na primeira frase, havia um pouco de informação e um turbilhão de possibilidades. Com a segunda frase, um número enorme dessas possibilidades se evaporou.  

Uma das funções de um texto narrativo, seja de ficção ou não ficção (uma reportagem, por exemplo) é fornecer a cada passo informações sobre o ambiente e a ação. O autor deve presumir que o leitor nada sabe sobre o livro. Daí minha hipótese de que ele fosse apanhado por acaso, sem informações prévias, sequer o título ou o nome do autor. Mas a maior parte das nossas experiências de leitura não ocorre assim. Em geral, iniciamos a leitura de um livro já sabendo mais ou menos do que se trata, seja porque conhecemos o autor, seja porque lemos algo na imprensa ou alguém nos recomendou o livro. A experiência da leitura deve prescindir disso tudo e trazer em si mesma tudo que devemos saber sobre o livro. Mas essa experiência é cada vez mais rara em um mundo com excesso de informação, numa indústria editorial cada vez mais disposta a investir em propaganda. É difícil comprarmos um livro sem termos a mais remota ideia de seu assunto. Mesmo assim, qualquer livro, lido ao acaso por um possível leitor totalmente desinformado ao seu respeito, precisa satisfazer por completo, através do seu texto, a experiência do leitor.

As duas frases que temos até agora parecem sugerir que se trata de um romance histórico. Mas a ação também poderia estar ocorrendo na época atual. Suponhamos que o texto continuasse assim: "Ao ver esta cena ele virou-se para os outros executivos da PlayWorld Corporation e falou com impaciência: - Nunca vi uma armadura tão malfeita como essa. É assim que vocês querem fazer um parque temático bem-sucedido?!".  

 Há duas maneiras de satisfazer a expectativa do leitor: confirmando suas suposições ou desmentindo-as de um modo surpreendente. Como se diz às vezes no jornalismo, se uma frase não faz cair uma ficha na mente do leitor, então é desnecessária. No jornalismo e na literatura, o propósito da frase é fazer uma ficha cair. No caso da literatura, esse propósito vai além de simplesmente informar. A literatura também consiste em frases que preparam o estado mental do leitor para a história que está sendo contada. Gabriel García Márquez comenta que às vezes grande parte da magia do seu texto consiste na emissão inflexível de uma voz narrativa encantatória, hipnótica, que mantém o leitor num estado constante de atenção e de suspensão da incredulidade. Muitas frases em seus textos, diz ele, não têm nenhum conteúdo informativo nem valor narrativo, mas valor musical, ritualístico. Estão ali apenas para produzir esse efeito sobre o leitor. 

Zigue-zague
O próprio García Márquez, no entanto, tem histórias a contar, ambientes a descrever.  Um dos começos mais famosos da literatura são as linhas iniciais de Cem Anos de Solidão: "Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía iria recordar aquela tarde remota quando seu pai o levou para conhecer o gelo". Márquez coloca no mesmo trecho o presente (um homem adulto, um coronel), o passado (a criança levada pelo pai para conhecer o gelo) e o futuro (o dia em que o coronel será fuzilado). Esse zigue-zague, esse vai e volta temporal dá o tom do livro, em que todos os momentos dos cem anos de existência da família Buendía estão entrelaçados, com personagens que se repetem em outros e destinos que se cumprem ciclicamente. Os trechos iniciais do livro devem fornecer informações e ao mesmo tempo suscitar expectativas. Criar pequenas interrogações e respondê-las à medida que a narrativa avança é uma técnica segura para conquistar o leitor. Quando surgirem interrogações maiores que o deixem perplexo ou desorientado, ele prosseguirá confiante na leitura, porque sabe que mais cedo ou mais tarde a ficha vai cair. 

Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005)