O que te prende?

29/03/2017 17:16

clementine-the-tangerine.blogspot.com.br

 

Aula de História no Ensino Fundamental. Aliás, deliciosa aula, como há muito não tinha. Olhávamos algumas imagens de escravos “de ganho”, a partir de pinturas e gravuras urbanas do século XIX. Discutíamos de forma construtiva, quando nos deparamos com uma em especial.

Então, uma aluna indagou-me acerca da função de uma forquilha, que jazia lá, no pescoço de um escravo. Respondi-lhe que não tinha certeza absoluta da resposta, mas que iria procurar seriamente a resposta. Mas por hora, pensava que tal peça servia para identificar o escravo perante seu dono e servia para dificultar seus movimentos em caso de fuga. Como eram de modelos diferentes, os senhores de escravos personalizavam as peças e as diferenciava de outras. Também a anatomia dos ganchos facilitava a condução do escravo, por parte de seu dono, ou do capataz. Era como se o adereço passasse a fazer parte do corpo do escravo, sendo uma peça “natural” para a época. A forquilha era, portanto, uma mini prisão para o cativo.

Então, a aula tomou outros rumos, tal esta crônica. A aluna indagou o que nos prenderia atualmente. Parei e pus-me a pensar. A resposta veio em seguida. Você, esperto leitor, arriscaria um palpite? Eu arrisco: Por que não poderia ser o celular? Veja bem: Esse bendito aparelho nos identifica? Sim, pois tem nosso número de telefone, fotos, vídeos e mensagens pessoais. Se estamos ligados em redes sociais ou digitando um SMS, conseguimos fazer outras coisas direito? Não. Portanto, dificulta nossos movimentos. Existem aparelhos diferentes e ainda assim, podemos personalizá-lo? Sim. É anatômico, podendo ser usado por longas horas? Sim. O celular tem se tornado parte de nós, de tanto que o usamos, para as mais variadas tarefas? Sim.

Então, seríamos escravos do celular? Sim e não. Se deixarmos que ele e suas dezenas de funções nos dominem, seremos escravos. Se soubermos usar com parcimônia, ouvindo o que nossa mãe dizia quando éramos pequenos, algo como “primeiro a obrigação, depois a diversão”, podemos escapar dessa forquilha moderna.

O que estamos esperando para abraçar mais, falar mais ao pé do ouvido, ouvir mais a natureza, fazer contas sem a calculadora instalada nele, desplugar algumas horas das famigeradas redes sociais? Que tal sermos menos indivíduos, células (daí vem o nome do celular!), e sermos mais coletividade, sociedade, humanidade?

Ficam as dicas. A escravidão já acabou, faz tempo. E cá pra nós, de torcicolo e pescoço doendo, já estamos cheios.

Abraço cordial!!!

 

 

Eduardo C. Souza  é professor de História, escritor romancista, contista e cronista. Escreve mensalmente neste espaço.