O dia em que (não) ganhei na loteria

14/08/2017 17:16

 

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Sheila maquiou-se no espelho reluzente do dourado banheiro de novela das 8. O pó e o batom disfarçavam a tristeza de mais um dia na vida daquela pobre mulher rica. Casamento estável com Olavo, casa chique, roupas e sapatos da última moda de NY. Sobrava luxo, faltava felicidade. Seu ar de lady pop escondia muitas brigas, tapas e arranhões não só em sua pele, mas principalmente em sua alma.

Naquela manhã, ela decidiu que tentaria a sorte mais arriscada de sua vida: Num lance de ousadia e desespero, aproveitou-se da loteria acumulada especial de final de ano e jogou mais de 300 cartões, gastando suas poucas economias pessoais, já que a quantia total ficava à cargo do marido. Na esperança de acertar a sorte grande, pensou em deslocar-se até o outro lado da cidade. Só assim, na eventualidade de ganhar, conseguiria sua alforria daquela relação quase escrava.

Ela ligou para Olavo, dizendo-lhe que iria ao salão fazer luzes vermelhas em sua cabeleira castanha-escura, bem como colorir as longas unhas com algum esmalte nude. Ao que Olavo concordou, ela chamou um táxi e dirigiu-se ao Shopping, onde faria os jogos. Ao chegar ao prédio, deparou-se com imensa fila, o que seria até positivo, pois daria tempo para concluir alguns jogos, com aqueles números da sorte, que ela sempre repetia, como por exemplo, os aniversários de seus pais e padrinhos.

Assim que terminou as apostas, rogou a todos os santos e anjos que a ajudassem na vitória daquela batalha estatística. Para descontrair, passou no salão e fez seu cabelo e unhas, como prometido. Daria na cara demais chegar em casa toda igual, como saíra. Depois, ainda pegaria um cinema, para que desse a hora do sorteio em rede nacional.

Ao sair do cinema, quis logo voltar pra casa, a fim de conferir os esperados números pela internet. Desceu do táxi, entrou em sua casa, ainda vazia, pois Olavo saíra com os amigos para o pôquer semanal. Ligou seu caríssimo smartphone para ver o resultado do sorteio. Depois de longos minutos a passar os olhos por todos os bilhetes, concluiu que acertara 4 números. Isso seria suficiente para pagar as unhas feitas pelos próximos dois meses. E só. Sentiu seu mundo desabar mais um pouco. As mãos tremeram, os suores ficaram um tanto mais gélidos.

Correu para o banheiro, fitou seus olhos de meretriz adormecida, explicitados agora por duas lágrimas que escorriam em cada olho. Retirou o resto da maquiagem, suspirou e foi deitar-se. Olavo chegaria em pouco tempo, cheio de “amor” para dar, com aquele bafo podre de uísque misturado com sardinhas de lata de supermercado. A noite seria longa. A vida também...

 

 

 

Eduardo C. Souza  é professor de História, escritor romancista, contista e cronista. Escreve mensalmente neste espaço.