O Lugar do Outro

04/06/2011 13:27

 

Substituto dos nomes e articulador do discurso, o pronome define nossa identidade, mas ainda causa muita confusão


Luiz Costa Pereira Junior

Os pronomes poupam muito trabalho. Eles nos libertam da inconveniência de fazer referência às mesmas coisas em seguida, o que evita a poluição de nomes iguais no mesmo texto. Tradicionalmente, são considerados substitutos do substantivo, termos com a função de nome, um adjetivo ou uma oração (o prefixo pro-significa, entre outros sentidos, "em lugar de"). Mais do que isso, por conta disso, são agentes de organização do discurso. Garantem, de quebra, o tom do discurso, que pode variar do coloquial ao formal ou do pessoal ao impessoal dependendo do gênero, da situação comunicativa e da intenção do falante.

O uso dos pronomes (pessoais, possessivos, demonstrativos, indefinidos, interrogativos, relativos...) chega até a induzir a forma como encaramos uma cultura, para além do risco de determinismo linguístico. Em finlandês, por exemplo, o verbo muitas vezes dispensa o pronome. Sinal de um povo que dá por implícita a referência da ação a um sujeito, um trato direto e uma remissão evidente que por vezes economiza substitutos dos nomes? Em japonês haveria o oposto, os pronomes de tratamento são considerados tão abundantes que, suspeita-se, sinalizam uma comunidade linguística que dá importância ao respeito com o outro e às relações hierárquicas. No Brasil, o sistema pronominal é tão singular que há quem veja neles uma marca de nossas diferenças ante outras variantes do português, como a europeia.
 

Gilberto Freyre observa, em
 Casa Grande & Senzala (1933), que a formação patriarcal estabelecida pelos senhores de escravos no Brasil colonial se traduzia no uso seco dos imperativos, na orientação implacável, na firmeza de mando. "O modo português adquiriu na boca dos senhores certo ranço de ênfase hoje antipático: faça-me isso; dê-me aquilo", escreve Freyre (Record, 2000: 389). A herança escrava teria aprimorado uma dolência vernacular, uma "maneira filial, meio dengosa" de se dirigir "ao pater famílias".

A confiar em Freyre, o brasileiro teria enfatizado a opção por um "modo mais doce" de pedir: "me dê" no lugar de "dê-me"; "me faça", mais brando que "faça-me", doce aversão ao "imperativo antipático" prescrito pela gramática tradicional lusa, com a ênclise (colocação do pronome oblíquo átono depois do verbo) e a mesóclise (colocação no meio). A "próclise absoluta", como a chamam Rodolfo Ilari e Renato Basso em
 O Português da Gente (Contexto, 2006: 132), antecipa o pronome átono para o início da sentença e teria transformado em súplica aquilo que soaria como cerimonioso e até autoritário. 

O português, diz o professor Jean Lauand, da Faculdade de Educação da USP, conseguiu a proeza de tomar para si pronominalmente aquilo que de outro modo nos pareceria distante (retrato 3x4 disso seria a expressão: "Minha
 Nossa Senhora"). O brasileiro faria, por via pronominal, o impessoal virar pessoal: se o francês, exemplifica Lauand, diz on ("En Espagne on dine rarement avant 22 heures"), no falar daqui prevalece o "você", para que o interlocutor sinta o alcance pessoal da situação (impessoal) de que se fala: "Na Espanha você não janta antes das dez". A aproximação pessoal dá-se no vocativo paulista "Ô meu" e na expressão "a gente". Até o pronome oblíquo projeta essa busca brasileira por conexão íntima com as coisas a que faz referência: "Não me bata neste cachorro!" (ferir o cachorro é ferir a mim).

Intimidade
Historicamente, o Brasil estimulou o uso de pronomes entre o verbo principal e o auxiliar ("Hei de lhe oferecer") e escolheu os pronomes que lhe soaram melhor. "Você" e "a gente" ganharam peso como pronomes pessoais; "tu" e "vós" foram escanteados, a não ser se o verbo na 2ª pessoa do singular é usado como se fosse da 3ª ("tu vai" e não "tu vais"). Usá-los segundo a tradição europeia é tão raro que chama atenção para o litoral de Santa Catarina e o sul do Rio Grande do Sul, onde é comum a flexão "tu queres". Com a impopularidade de "tu" e "vós", a 3ª pessoa verbal se generalizou no país.

O amplo uso de "você" em lugar de "tu" teve consequências no Brasil: instituiu, por exemplo, a falta de clareza no uso de "seu", pronome possessivo que pode se referir a um sujeito ou a outro, a depender da construção. Em "Ricardinho contou ao amigo que sua mulher saiu com o Ricardão", não sabemos se a mulher em questão é a de Ricardinho ou do amigo, dúvida que só acaba (cabe a Ricardinho perguntar-se se é o caso de acabar) ao considerar-se o contexto.

Escorregadios
Já os pronomes complementos clíticos, em particular os de 3ª pessoa (o, a, os, as) têm sido preteridos em favor do sintagma nominal pleno ou até pelo pronome sujeito correspondente (o "ele" acusativo), como em "Eu vi ele". Há até a eliminação do pronome complemento, por pura esquiva de ser pego no erro (a pessoa redige "Seu advogado estava no fórum" e, logo depois, na incerteza se o correto é "Eu o vi" ou "Eu lhe vi", escreve "Eu vi seu advogado no lugar", repetindo a palavra "advogado" em frases sucessivas).

Os pronomes são, assim, mais escorregadios do que parecem. Usados no lugar de outros termos, não têm necessariamente um significado em si, pois são uma espécie de "cópia" usada no lugar de outras palavras, como os desenhos nos quadros negros que ilustram estas páginas. Embora nos ajudem a referir coisas e pessoas, evitando repetições, podem dar margem a erros de interpretação e ambiguidades de referência.
 

Os quadros destas páginas, com cascas de banana pronominais, podem ajudar a prevenir problemas de comunicação. E fazer o pronome ser, de fato, um substituto à altura do que desejamos dizer.

Degrau pronominal
Como os pronomes ajudam a construir o sentido das frases

Por João Jonas Veiga Sobral 

O pronome tem a capacidade de promover remissão (sua natureza é, como se diz, fórica). Essa natureza fórica é a responsável pelo processo de referência e de substituição em um texto. 

Por meio da interlocução, os pronomes fazem referência aos participantes de um discurso. Por remissão textual, fazem alusão a pessoas ou a coisas que participam dele. Quando fazem referência a uma pessoa do discurso são classificados como exofóricos. 

"Você precisa conhecer as últimas novidades."
Aqui, o pronome de tratamento "você" não faz parte necessariamente da situação de discurso, apenas substitui a pessoa a quem a mensagem se dirige. 

Se a comunicação exige substituição de um termo por pronome, passa a ser classificado como endofórico: 

"Você conhecer as últimas novidades, a elas vão impressionar." 

Há ainda funções anafóricas e catafóricas responsáveis pelo processo remissivo em um texto. 

Anafórica - Quando retomam um termo, oração ou expressão: 

"Preguiça: esse é o seu problema." 

Catafórica
 - Quando anunciam o termo que virá: 

"Este é o seu problema: preguiça."

Como agentes articuladores, os pronomes têm nuances que ajudam a construir o sentido de um texto. Daí a crítica a quem, nas escolas, trabalha com essa categoria gramatical limitando-se à classificação ou a exercícios de correção. Pois os pronomes podem oferecer ao usuário da língua muitas possibilidades de modular um texto.


Ilusões da colocação pronominal

O lugar do pronome oblíquo átono depende mais do ritmo e do equilíbrio da frase do que de regras rígidas, mas sua colocação não é tão livre assim

Por Josué Machado

Entre os muitos aspectos que se podem estudar do pronome, o que mais costuma gerar dificuldades é o da colocação do pronome oblíquo átono na frase (lembrados pelos palavrões "próclise", "ênclise" e "mesóclise").

Nas variedades linguísticas brasileiras, o pronome oblíquo átono costuma flutuar, sem muito compromisso com regras. Mas não convém exagerar, como fazem sem querer alguns profissionais distraídos, porque, apesar da liberdade vigente entre nós, os especialistas tentam sistematizar os fatos da língua baseados na frequência de uso. Como princípio, o pronome átono se coloca sempre junto de uma forma verbal, embora no passado houvesse usos como "A Bolsonaro lhe não bastou ofender Preta Gil".

A próclise é nosso balão branco

A colocação do pronome antes do verbo que o rege é a posição mais comum nas variedades de português falado no Brasil, diz José Carlos de Azeredo em suaGramática Houaiss da Língua Portuguesa (Publifolha, 2008). Ocorre se a palavra que precede o verbo é advérbio, pronome de significado negativo ou indefinido, conjunção subordinativa, pronome relativo ou conjunção coordenativa alternativa. Mais ainda se o verbo estiver no modo subjuntivo. 

Mas não é necessário que na oração ocorram tais palavras e conectivos para ocorrer a próclise (ver quadro abaixo). Tanto que Mário Perini equaciona ousada e Sinteticamente o problema da colocação pronominal ao descrever a variedade nacional em Gramática do Português Brasileiro (Parábola, 2010): 
"O pronome oblíquo (sem preposição) se posiciona sempre antes do verbo principal da oração." 

Quando descreve exemplos para ampará-lo, Perini inclui até um de colocação restrito quase sempre só à fala ou à escrita descontraída: 
"Me empresta esse livro, por favor". 

Verdade que até o Padre Vieira (1608-1697) a usou em uma carta: 
"Me avisam em muito secreto que a Espanha tem resoluto romper a guerra com a França."

Quem o registra é Eduardo Carlos Pereira em Gramática Expositiva - Curso Superior(Cia. Editora Nacional, 114ª. edição, 1958). 

A 1ª edição da obra foi de 1907. 

Exemplos
Com sujeito explícito, exemplos comuns à variedade culta:
O deputado as convidou para ir ao exterior. O deputado me convidou. Elas o querem. Luís nos disse que é feliz.

Mais razão haverá para a próclise se, além de sujeito explícito, a frase tiver o verbo no futuro do presente ou do pretérito.

Os políticos nos levarão no bico. O perdão dela me faria bem. Eu lhe mandarei o livro. 

Porque a formal mesóclise, que caberia com formas verbais desse tipo, está em desuso; ainda mais na fala: 
Mandar-lhe-ei o livro. 

Dir-nos-ia tudo se pudesse.

Palavras amigas da próclise

Considerando que muitos leitores podem ter esquecido como identificar as palavras com as quais ocorre a próclise, convém alinhar as mais frequentes:

  • Palavras negativas e advérbios (não, nem, nunca, ainda, assaz, bastante, bem, já, jamais, mais, mal, muito, menos, pouco, quanto, quase, quem, quiçá, sempre, só, talvez, tanto, etc.);
  • conjunções, principalmente subordinativas (quando, enquanto, se, que, etc.);
  • pronomes relativos (que, quem, cujo, etc.);
  • pronomes indefinidos (tudo, alguém, nada, etc.);
  • pronomes pessoais retos (eu, tu, etc.) em muitos casos;
  • ou... ou, ora ... ora, etc. (das orações coordenadas sintéticas alternativas).
Não LHE digo o que merece por pena. Não SE ouve o tiro que NOS mata. Ninguém O notou ao entrar. 

Nunca TE vi, sempre TE amei. Se LHE desse a mão, pedia o braço. Ou SE corrige, ouSE estrepa.

Os degraus da ênclise
Fora os casos vistos nas páginas anteriores, usa-se a ênclise em poucos outros, nos quais sempre haverá formalidade. Tanto que se procura adotar forma em que seja possível adotar a próclise. Ou se torna o sujeito explícito ou se muda a disposição da frase. Pois ninguém pedirá num almoço de família "Passe-me a terrina de feijão" e, sim, um informal "Me passe o feijão", ensinava o professor Carlos Faraco, da Escola N.S. das Graças, em São Paulo. 

  • Em frase iniciada por verbo: Dê-me o livro. Enchi-me de coragem. 
     
  • Com infinitivo impessoal: Decidiram considerá-los inocentes. Resolveram aumentar-lhe o salário. 
     
  • Com verbo no gerúndio, se não precedido por "em": Virando-se, pisou no que não devia. 
     
  • Com o verbo no imperativo afirmativo, em uso literário e artificial: Deixai-a seguir em paz. 
     
  • Com infinitivo e gerúndio: Em locuções com o verbo principal no infinitivo (desinência -ar-er-ir-or) ou no gerúndio (-ndo), a frase flui melhor com o pronome antes do verbo principal: Precisam nos avisar. Ela quer me enciumar.
Em textos formais, ou se antecipa o pronome ao verbo auxiliar ou se usa a ênclise ao verbo principal. O formalismo aumenta e lembra a variedade lusitana (exceção: gerúndios que os lusos repelem: "Estou a lixar-me para o povo" x "Estou-me lixando para o povo". 

Se o pronome estiver sem hífen junto do verbo auxiliar, a informalidade aumenta: Eles devem avisar-nos. Ela quer enciumar-me. Eles devem-nos avisar. Ela quer-meenciumar. Eles devem nos avisar. Ela quer me enciumar.

  • Com particípio: O pronome átono jamais se coloca após o particípio (desinência -do: amado, comido, partido, exceto alguns irregulares: dito, feito, posto, etc.) Com particípio, o pronome se liga ao verbo auxiliar. A formalidade é marcada pelo hífen ligando o pronome em ênclise ao verbo auxiliar. No texto menos formal, evita-se o hífen: Haviam-lhe contado que o Congresso é baba. Haviam lhe contado... Eles lhe haviam contado... 
     
  • Com o/a/os/as: Aqui, o pronome se antecipa ao verbo auxiliar; a menos que a construção tenha infinitivo ou gerúndio, caso em que será melhor colocar o pronome depois deles. Se a ênclise for ao infinitivo, o pronome assume as formas variantes lo/la/los/las, colocações que sempre parecerão artificiais: Eles não a tinham de convocar. Eles não tinham de convocá-la.
As variantes -no, -na, -nos, -nas são exclusivas de registros formais ou ultraformais e surgem sempre após as formas verbais terminadas por vogal ou ditongos nasais (-am; -em): Tragam-nos aqui. (JM)

 


Lhe x o/a? Uma dor de cabeça
Distração comum é o uso do pronome oblíquo átono lhe em vez de o e a (e seus plurais) com verbos transitivos diretos, que rejeitam preposição. Pelo padrão formal, o lhe é complemento de verbos transitivos indiretos, preposicionados.

Então, não fica bem dizer, ou escrever: Eu lhe amo. Conheceu-lhe na rua... Quero lhe abraçar. Melhor: Eu a amo, Conheceu-o na rua, Quero abraçá-la. 

O que vale, claro, é a adequação da linguagem à circunstância, ao momento, ao meio e ao interlocutor. Por isso, a verdade pode estar no "eu te amo", "eu lhe quero" naturais da linguagem descontraída regional. Só não fica bem usar a linguagem coloquial em conversa ou texto formais. (JM)

O "lhe" adequado à regência verbal

Muitos redatores pingam pronomes distraidamente (forma indiscutível entre parênteses): "Não sabem o que lhes aguarda" (os aguarda). "Apresentou-lhe ao senador" (Apresentou-o). "Não sabem o que lhes espera..." (o que os espera). Mas há casos adequados à regência:

Deu-lhe um mimo. Fez-lhe um agrado. Apresentou-lhe o senador. Trouxe-lhe um presente. 

Verbos que rejeitam o "lhe"

Há verbos que rejeitam o "lhe", mesmo transitivos indiretos: aludir, aspirar, assistir (= presenciar), recorrer. Usa-se "a ele", "a ela", "a você":

Amava a mulher, por isso aludia a ela com frequência. O cargo de prefeito era bom: todos aspiravam a ele. O parto foi difícil; assisti a ele preocupado. Recorreu a você pois não havia outro jeito.

Pronome torturado
As frases seguintes foram colhidas em jornais e revistas, em que os pronomes átonos gemem de tão malcolocados. Alguns casos antológicos (a colocação apropriada vem entre parênteses):

"Não ficarão órfãs porque deixei-as adultas..." (as deixei). "Quando transferiu-separa..." (se transferiu). "Havia formado-se." (havia-se formado ou havia se formado). "Há os que acham que deve-se implantar..." (que se deve implantar ou deve implantar-se). "Pois caberia-lhe o sacrifício..." (lhe caberia). "Desse modo, poderia-sedizer..." ("se poderia dizer" ou "poderia dizer-se"). "Por isso chamarei-a de a descoberta da..." (a chamarei). "Como manda-o..." (o manda). "Assim é que nós colocamos-lhe." (lhe colocamos). "Nem tudo perdeu-se..." (se perdeu). "Mas foi com Ari Barroso que tornei-me Brasil." (que me tornei). (JM)
 

O tom do discurso
Posição e escolha de pronomes altera a força do texto

Os pronomes têm um papel na articulação e na força retórica dos textos. Pois promovem vínculos propositais entre os agentes do discurso. O pronome de tratamento "você" no lugar do pessoal "tu", por exemplo, gera entre os participantes do discurso uma relação mais estreita, pois a flexão em 2ª pessoa (tu) por tempos esteve presente em discursos distantes da fala cotidiana. A substituição do pessoal "nós" pela expressão "a gente" sinaliza afeto. Já o artigo indefinido antes do pronome indefinido pode incidir em redundância ou soar pejorativo: 

"Um certo dia vi um terrível acidente." (redundância) 

"Um certo prefeito roubou o dinheiro público." (pejorativo)

O possessivo "seu" ultrapassa a noção de posse se usado como tratamento ("Fique tranquilo, seu João") ou assume valor de substantivo ("Fique junto aos seus"). Sua posição na frase muda o sentido:

"Recebi suas informações" (= informações vindas de você).

"Recebi informações suas" (= informações sobre você). 

Há vezes em que o possessivo "perde" a noção de posse e adquire papel intensificador ("Não faça isso, seu maluco!"). Em outras, o oblíquo tem função de possessivo ("Chutou-me a perna" = chutou minha perna). Demonstrativos não se limitam a indicar posição no tempo ou espaço, mas também imprecisão ("Um dia desses irei com você"; "João deve ter seus 40 anos"). (JJVS)

Fonte:http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12317