Monólogos de um louco sem hospício VIII

18/05/2015 19:30

 

 

Um cara, não muito próximo de mim, disse a seguinte frase: “Estou me sentindo muito sozinho, só que rodeado de gente”. O que ele disse me surpreendeu muito, não que tal sentimento tenha sido novidade pra mim, mas pelo fato de que ele me parecia uma pessoa que nunca se sentiria assim.

Às vezes eu tenho esses preconceitos, pra ser sincera. “Tal pessoa nunca deve ter sentido/nunca vai se sentir assim”. Eu sei, é bem errado de minha parte, até porque se fosse certo não seria um preconceito, mas quem não tem algum, atire a primeira pedra.

Eu entendo, bem até, o que ele estava sentindo. Talvez por egoísmo eu, também, não quisesse aceitar que alguém mais se sentisse assim. Sabe, aquela coisa de que “só eu posso sentir isso, só eu tenho esse direito”. É, eu sou bem egoísta nesses pontos.

Mas eu não estou aqui pra falar dos meus preconceitos e de meu egoísmo, eu quero falar sobre isso, de se sentir sozinho. Como não foram poucas as vezes que me senti assim, acho que tive bastante tempo pra refletir sobre as causas e consequências.

Primeiro vamos falar das consequências. Muitas pessoas costumam ficar agressivas, estressadas, deprimidas, descontar essa aflição em extravagâncias e vícios. O pior dessas consequências, é que depois que você faz, você se sente pior ainda. Você errou. Foi grosso com quem não merecia, chorou com histeria, bebeu mais do que deveria. Coisas bem fáceis de acontecer com quem se sente sozinho. Procura consolo em qualquer coisa ou pessoa que tenha um interesse superficial ou não se importa de verdade com você. Você não liga se só querem tirar algum proveito da situação, você só quer tentar preencher o vazio com coisas mais vazias ainda. O problema é que você não percebe que são vazias, ou se percebe, não se importa.

Esse mania que o ser humano tem de sempre piorar a sua situação. “Pior que está, não fica”, “já ‘ta’ tudo uma porcaria mesmo”, “já que estamos ferrados, vamos terminar de estragar essa me...”, e por aí vai. Uma sequência de frases típicas de pessoas que tem essa mania de auto–denegrir.

Agora vamos às causas. Sempre deixei bem claro que eu sou uma pessoa interesseira. Só mantenho pessoas que possam me acrescentar coisas boas, pessoas que me cativam a ser melhor de alguma forma, o resto não me interessa. Fiquei assim depois de perceber que a principal causa de me sentir tão sozinha, eram essas pessoas que não me acrescentavam nada, muito pelo ao contrário, só me diminuíam, me sugavam energia, infectavam minha alegria com inveja, criticavam maliciosamente... Em resumo, péssimas pessoas para se ter por perto, ainda mais como “amigos” e colegas. Essas pessoas fazem com que você fuja da sua essência, molde uma versão pior e desconfortável de si mesmo, apenas para que elas se sintam melhores. E é por isso que você se sente tão sozinho. Se afastou da pessoa mais importante, se afastou de si mesmo. É quando você começa a se questionar “quem sou eu?” e só enxerga coisas ruins. Na verdade, você não enxerga, você se vê tão bem quanto um míope sem lentes.                

Quando isso acontecer, fuja. Ai vai vir um tolo que não espera eu terminar de explicar e começar a cuspir aquele discursinho pronto: “fugir nunca é a solução”. Pra sua decepção, nesse caso é a melhor. Fuja de “outros” e vá parar direto nos seus próprios braços. Reencontre sua essência, o seu verdadeiro “quem eu sou?”, se for necessário vai se reinventar, o importante é fazer isso sozinho, descobrir quem realmente é para depois descobrir os outros. Descobrir quem são as pessoas de seu interesse e quem são as pessoas que vão te levar novamente ao fundo do poço. Do primeiro caso, cuide, preserve, cative-as o mesmo tanto que elas te cativam. Das pessoas do segundo caso, fuja, fuja pro mais longe possível. É nessa hora que você me pergunta: “como se essas pessoas estão em todos os lugares?”. A resposta é tão óbvia quanto a resposta pra “quem eu sou”. Fuja pra dentro de si. Sua mente é o seu melhor refúgio: se ela estiver tranquila, não há “dementador” que seja capaz de sugar qualquer coisa de você.

 

Recomendo ouvir durante/após ler este texto: “Coisas que eu sei- Danni Carlos”.

Maria Letícia, é ex-aluna do CAOP, jovem escritora, amante das artes e, na literatura especificamente, de autores como Alphonsus de Guimaraens e Vinícius de Moraes.