E eu com isso?

10/05/2013 20:28

 

                                                                               

                                                              Foto: www.fotoblognahistoria.com.br

 

Nestes tempos de individualismos, egoísmos e tantos outros “ismos” que invadem nosso mundo cão, nada tem me tirado mais do sério do que a frase-título desta crônica. Embora ele não contenha o sufixo citado acima, você vai perceber que tem tudo a ver. Sim, talvez esse texto saia amargo ou ranzinza demais. Não negarei. Talvez eu esteja ficando velho. Mas como já dizia o sábio oriental, o que nos move é o incômodo, certo?

Quem sabe, ao final da leitura, você não se incomode também e se sinta disposto a mudar? Vou tentar exemplificar com dois atos que me ocorreram neste ano. Meu primeiro momento foi em um bloco carnavalesco do qual participei. Estava eu lá a tentar pegar um energético em um freezer, quando chego perto de um imbecil- este que muito provavelmente estava de mal com o mundo e nem sabia o que estava fazendo ali, tamanha a sua falta de civilidade. Na maior gentileza, eu disse a ele, em um tom até cordial, que queria um energético. Ao que o ogro respondeu: “E eu com isso?”

Juro que na hora pensei em largar a tampa do congelador bem em cima dos seus dedos. Como estava MUITO mais feliz do que ele, deixei para lá. Tentei brincar o carnaval naquele dia. Até que consegui; Mas aquilo não saiu de minha cabeça.

No outro dia, estressado que estava, fui pescar. Literalmente. Enquanto ia me encontrar com o Zezinho – pescador profissional e quase um monge, de tão calmo – vi um carro à minha frente, no qual havia uma mulher que jogava CDs  pela janela do mesmo. Juro que vi uns sete disquinhos voarem pela abertura do veículo, sendo que um deles quase atingiu meu bólido.

É lógico que a idiota, enquanto descartava seus objetos pelo asfalto, devia pensar: “E eu com isso? É carnaval e ninguém vai ver mesmo.” Fiquei enfurecido e tudo que consegui fazer foi buzinar de forma transloucada para o casal de poluidores.

É claro que você, esclarecido leitor, deve estar pensando aí com seus botões: “Ôh Eduardo, e eu, o que tenho com esses seus casos?”  O problema é que se todos os brasileiros, agora, neste momento, começarem a jogar lixo pela janela, a votarem errado, a não pedirem notas fiscais, nem as devidas explicações sobre o aumento da passagem, da conta de luz, ou das toscas obras do Engenhão... Tudo vai pelo ralo, ou para o espaço, como quiser. O Brasil virará um caos maior ainda e viveremos como zumbis, vagando por aí.

Lógico que não sugiro a você dois extremos: Não saia por aí dizendo “e eu com isso” pois tudo está conectado: os bons e os maus atos ( e hábitos!) retornam a você, agora ou depois. Pode ter certeza. Tampouco saia por aí feito louco pelado (a) atirando em tudo e em todos. A coisa está feia, mas não a este ponto. Já escrevi aqui que gentileza gera gentileza. Pode parecer bobagem, mas não é. E por favor, vamos abolir essa frase nojenta de nossas bocas. No fundo, tudo está interligado. Vamos fazer uma corrente do bem, para o bem? Fica a sugestão.

E você ainda anda se perguntando qual a relação do texto com a imagem no alto da página? Ela é sobre um monge que fazia um protesto  contra a guerra e usou a si próprio para o ato. Radical? Pode ser. Mas você vai ser como as pessoas que passam atrás do carro e só observam a tudo, passivos, a se perguntarem: “E eu com isso?”

Abraço cordial!!!

 

Dedico esta crônica a todos que fazem trabalho voluntário e ao Zezinho pescador.

 

( Eduardo C. Souza é professor de História e escreve mensalmente neste espaço.

Ele garante que baniu a expressão-tema desta crônica  faz tempo)