Deu Branco!

21/06/2011 22:07
Especialistas sugerem estratégias para evitar a paralisia ao começar a escrever um texto

Carmen Guerreiro

A angústia de não conseguir iniciar um texto é a da dificuldade de romper um silêncio constrangedor. Nem é necessário ser escritor ou poeta para ter experimentado a sensação. A mente divaga, palavras faltam, parece que tudo o que se aprendeu perde a eficácia e a forma, incapaz de ser transformado em frase.

Quando se candidatou a uma residência em clínica médica em instituições americanas, no fim do ano passado, a paulista Juliana da Silva, de São José dos Campos (SP), teve de escrever uma "carta de motivação" a cada hospital, explicando as razões para a escolha daquele programa e por que seria a candidata ideal para a vaga. A barreira do idioma era o de menos.

- Foram em média quarenta cartas e eu não tinha ideia de como começar! Não conhecia o público-alvo e estava insegura sobre que nível de linguagem adotar, principalmente porque cada texto exigiu certo nível de exposição pessoal e de autoconhecimento, o que significava transpor várias barreiras culturais que ficaram óbvias apenas ao longo do processo - explica. 

A necessidade a fez desenvolver um método próprio de desbloqueio.

- O parágrafo inicial, sempre uma barreira, deixo por último, e só o retomo depois que escrevo todas as ideias e as vou costurando ao longo do texto. Costumo elaborar a ideia principal oralmente e depois tento fazer disso um parágrafo coeso. Nem sempre é fácil - explica.

Estratégias úteis
Juliana superou o bloqueio na marra. Aos 25 anos, começa este mês no Albert Einstein Medical Center, da Thomas Jefferson University, na Filadélfia. A especialização em nefrologia virá na sequência. 

A escritora Sônia Belotto, professora de oficinas de escrita, orienta que, em casos assim, há três condições para um bom resultado: "conhecer o público, dominar o assunto escolhido e dominar as técnicas de escrita". Fazer isso é que são elas. 

Língua reúne a seguir dicas de profissionais da escrita. São sugestões úteis até para quem não depende tanto da escrita para viver, como foi o caso da médica Juliana.

Anote as ideias

A organização dos pensamentos é uma etapa fundamental na preparação que precede um texto bem redigido. Em primeiro lugar, afirma a professora de redação do cursinho e colégio Objetivo Maria Aparecida Custódio, é preciso anotar todas as ideias que passam pela cabeça em relação ao assunto sobre o qual se quer escrever. À maneira de um brainstorming, é importante registrar conceitos e sacadas, que podem ser aproveitados na redação posteriormente. 

Porém, antes mesmo de se sentar para colocar as ideias no papel, convém definir a finalidade do seu texto e as possíveis formas de se tratar o assunto, tendo em mente, sempre, a necessidade de despertar e capturar o interesse do leitor. 

- A partir disso, o ideal é registrar as ideias relacionadas ao assunto da maneira mais espontânea possível; só depois vem a preocupação com o vocabulário, com a ortografia e com a organização do texto. Primeiramente vem o conteúdo; e em seguida, a forma - diz Cida.


Identidade com o que vai dizer

Para Edwiges Morato, livre-docente do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, aquilo que se põe no papel deve fazer sentido a quem escreve, ou haverá dificuldades de iniciar o texto justamente por não haver identidade com o tema. Exemplo é a redação de férias que professores propõem a alunos na volta às aulas. 

- Não é à toa que demoram para escrever algo. Se algo está fora de contexto, perde o sentido - diz. 

Exemplo é a compositora Zélia Duncan. Ao escrever uma letra, ela procura sons na melodia que a remetam a alguma palavra. 

- E é comum o parceiro mandar a melodia cantada sem letra e ali já tem um som me dizendo alguma coisa - conta. 


Evite o perfeccionismo

Ainda que o lapso seja normal no processo linguístico, escrever não é, para muitas pessoas, uma tarefa simples como falar. Por isso, cedo ou tarde, topamos com uma página em branco que não conseguimos transpor. Não há um motivo especial para que isso aconteça, mas existem razões que podem causar esse bloqueio. 

Uma das mais comuns é psicológica: o medo de começar a escrever é o medo de que o resultado não seja bom. Segundo a professora Aparecida Custódio, do Objetivo, a autodepreciação nos impede de expor nossas falhas e também de revelar nossas qualidades. Ao escrever, estamos nos expondo, e o fato de esse resultado ser submetido à avaliação de outrem pode gerar um bloqueio. 

- Estamos muito mais familiarizados com a fala do que com a escrita. Assim, é natural que nos sintamos inibidos diante da folha em branco. A palavra escrita fica registrada, como que a revelar nossas supostas deficiências - diz a professora. 

Em suas oficinas de escrita criativa, Sônia Belotto observa o mesmo. Muitos dos alunos que não conseguem iniciar seus textos relutam com o perfeccionismo, a ansiedade e a insegurança de se expor, mas Sônia garante que isso tudo é superado com exercícios de escrita. 

- Muitas vezes, a ansiedade em encontrar um bom tema, a capacidade em cumprir prazos e se expor ao colocar as ideias no papel pode acarretar dificuldades, assim como a insegurança, a falta de motivação e, principalmente, não conhecer as técnicas de escrita - afirma.

O escritor Ricardo Lísias dá aulas de gramática para universitários da área de exatas e, devido à sua profissão, convive com muitos aspirantes a escritor. Ao comparar os dois grupos de pessoas, comenta que seus alunos de exatas escrevem com muito mais facilidade do que os aprendizes de escritor. Tudo porque não se autocensuram e veem a tarefa com mais objetividade, e por isso sofrem menos no processo de construção do texto. 


Descarte a solução burocrática

Anotadas as ideias, é hora de perder o medo da página em branco. Na falta do começo ideal para seu texto, não vale escrever qualquer coisa e seguir em diante, só para tirar o bloqueio do caminho. O jornalista Sérgio Rizzo, colunista de Língua, professor de jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e crítico de cinema, conta que seus alunos muitas vezes superam a dificuldade para começar um texto com soluções burocráticas, e por isso ele sugere que voltem ao início e vejam o momento dedicado à abertura do texto como um investimento, e não perda de tempo. Acima de tudo, é preciso encarar essa dificuldade de começar um texto como algo normal, que a maioria das pessoas enfrenta e faz parte do processo de construção linguística. 

- Esse lapso não pode ser tratado como uma síndrome, como se fosse um mal ou uma patologia a serem erradicados. Assim como acontece o esquecimento na hora da fala, quando perdemos a palavra, esse lapso acontece na hora da escrita também - observa a professora Edwiges. 


Construa um caminho próprio

Encarar um texto com objetividade é uma boa pista para não travar já ao começar um texto. Ainda que o conteúdo possa ser subjetivo, a tarefa de colocá-lo no papel deve ser objetiva. Isso significa construir uma estrutura textual e traçar um planejamento detalhado do que será escrito e como isso será feito.

- Nunca chego à página em branco sem saber o que vou escrever. Faço 1.001 esquemas, planos, detalhes, listagens, pesquisas, fichas de personagem, e, quando chego a esse momento da criação, já tenho muito claro o que eu vou escrever. Achar que o texto sai do nada é o que causa "o nada" - aponta Lísias.

Por isso, a sugestão é fazer esboços e esquemas para montar um esqueleto sólido o suficiente para não dar margem ao bloqueio - afinal, já se sabe o que será escrito.

O administrador Augusto Campos, que atua na área de Planejamento Estratégico e escreve para os sites BR-Linux, BR-Mac e Efetividade, conta que, para ele, essa estratégia na hora de escrever equivale ao "empurrão que faz o carro sem bateria `pegar no tranco´". Ele deixa de lado a folha (ou a tela) em branco, lança mão de um papel de rascunho e faz uma lista de quais temas precisam ser abordados, quais ideias não podem deixar de ser mencionadas e quais perguntas devem ser respondidas.

- Ao pensar nesse conjunto, é inevitável atentar para o encadeamento entre as partes e, sem perceber, você já estará redigindo a versão inicial. Depois é só colocar no papel - diz Campos.

O crítico Sérgio Rizzo sugere outra maneira de estruturar o texto, que aprendeu no início da carreira com um jornalista experiente: dividir os parágrafos em blocos. Às vezes, para melhorar a estrutura, funciona recortar o papel em torno dos parágrafos já escritos, ou de temas que devem ser abordados, e montá-los numa ordem mais coesa. Isso pode consumir um tempo precioso, mas Rizzo garante que vale a pena.

- Passei a encarar esse tempo perdido na abertura como um investimento feito no restante do texto. Digamos que você perca três horas no começo: a estrutura te deu um final, apontou caminhos, e então o resto será rápido - diz. 


Administre prazos

Construir uma estrutura para o texto e praticar a leitura e a escrita são estratégias eficazes, mas que tomam certo tempo. Por isso, nada como a aproximação do dia ou horário de entrega de um texto para soltar as amarras que o impediam de fluir. Sérgio Rizzo diz que muitos de seus melhores textos foram produzidos próximos ao deadline, como se sua criatividade funcionasse melhor. A compositora Zélia Duncan não gosta de trabalhar sob pressão, ou seja, perto do prazo, mas confessa que eventualmente é ele que a desbloqueia para começar uma letra.

- Eu demorei muito para começar a fazer a letra de Inclemência, pois era algo sério, uma melodia do maestro Guerra Peixe. Protelei durante meses, até que me deram uma prensa. Sentei e fiz a letra em meia hora. É uma das parcerias minhas de que mais gosto e tenho orgulho - conta. 

Mas, no fim, Zélia conclui que as dificuldades para começar a escrever são ossos do ofício. 

- Creio que todos, em algum momento, se sentem um pouco sem saída, mas isso está implícito no ofício de escrever, compor, seja lá o que for. O pintor diante de uma tela, quantas vezes não desistiu? Mas se fosse fácil, não seria tão profundo e qualquer um faria.

Fazer de tal modo que só você seria capaz é, no fundo, o desafio e o principal medo a ser vencido.


Exercitar é vital

Não tem jeito: a facilidade de começar e desenvolver um texto só chega com a prática e o exercício constante. É irreal - ou, pelo menos, raro - esperar que um texto surja pronto na cabeça de um momento para o outro, como uma inspiração divina. 

- Faísca, inspiração, insight só surgem com esforço e dedicação, que precedem em muito tempo o ato de escrever - afirma a professora Aparecida Custódio, do Objetivo. 

Por isso, a dica da escritora e editora Sônia Belotto é estipular um horário fixo diariamente e escrever, pelo menos, uma página, o que o levará rapidamente a escrever de forma natural e dinâmica. 

- Da mesma maneira que fazemos caminhadas ou frequentamos uma academia para exercitar a musculação, escrever promove o exercício da escrita e, quanto mais exercitarmos, mais facilidade vamos encontrar à medida em que escrevemos - aponta.

Isso vale para qualquer profissão, afinal a familiaridade com a escrita ajuda qualquer um que goste ou tenha de escrever. Se não é possível praticar diariamente, que seja pelo menos duas vezes por semana. Segundo Rizzo, foi o exercício diário que o ensinou a lidar com as dificuldades que aparecem na hora de redigir o texto, porque o colocou em uma situação de ter de enfrentar os problemas que surgiam todos os dias na hora de escrever e, assim, ganhar know-how

- É um pouco como um cachorro na piscina - ou ele põe a pata para cima da água e aprende a nadar, ou ele morre. Se você produz cotidianamente o texto, também precisa aprender a se virar - compara. 


O mal dos textos curtos

O mesmo princípio vale para a leitura. Segundo Rizzo, as pessoas têm lido textos mais curtos e enxutos, sobretudo na internet, e isso faz com que o redator tenha pouco contato com textos mais elaborados.

- Quando comecei na carreira, me inspirava muito em reportagens legais que tinha lido, aí pensava em como adaptar aquilo para o que eu tinha que escrever - conta.

Outra dica é ler textos de fôlego como "aquecimento" antes de se dedicar à escrita.

- O leitor assíduo conta com um vasto repertório linguístico e cultural que lhe oferece amplas possibilidades de iniciar um texto - observa a professora Aparecida Custódio.


Começar de novo

O que os especialistas têm a dizer sobre como vencer o bloqueio criativo

Não se cobrar demais

Primeiramente, procure manter o lugar onde escreve arejado, respire e relaxe por alguns instantes. Comece a escrever o que lhe vier à cabeça e não se faça nenhum tipo de cobrança, principalmente sobre ser original ou ter obrigação de escrever um best-seller. Quando estiver escrevendo, apenas escreva, sem se criticar, revisar seu texto ou tentar organizá-lo enquanto escreve. Esperar a inspiração aparecer também não é um bom negócio, pois escrever requer muito trabalho, como qualquer projeto de vida.

Sônia Belottoescritora e editora de livros

Faça aquecimento

Quando temos de nos dedicar a textos muito longos e reflexivos ou a um volume de textos encadeados, como uma tese, é de grande ajuda permitir-se um tempo de aquecimento. Por isso, é importante que você tenha horas para queimar, porque a máquina começa funcionar depois de algum momento. É essencial que cada um descubra a sua curva de aceleração, como a de um carro.

Sérgio Rizzojornalista, professor e crítico de cinema

Pular o começo

Para os casos mais comuns do dia a dia, o empurrão mais simples é deixar de lado a abertura e os parágrafos iniciais e ir direto para a conclusão, que geralmente afirma um conjunto de ideias que o autor já tem claras em sua mente. O processo de redação desse trecho geralmente é capaz de encadear as ideias que faltam para depois ir construir (já aquecido) os parágrafos iniciais.

Augusto Campos, administrador

Não insistir, nem parar

Se travou geral, melhor respirar antes de insistir em um jeito improdutivo. Depois transformar a trava em uma procura, em um exercício, lembrar que o caminho deve ser sempre mais interessante do que a chegada. Ruim mesmo é deixar por fazer - isso solidifica a paralisia. Sou a favor de anotar ideias, escrever um pouco sem compromisso, provocar-se.

Zélia Duncancantora e compositora

Na hora do vestibular

Fuga ao tema proposto, desconhecimento do assunto a ser abordado e ausência de domínio da expressão escrita são alguns dos maiores entraves à produção textual. O vestibulando pode vencer essas dificuldades lendo atentamente o enunciado e a proposta de redação, a fim de entender o que se pede; em seguida, deve ler os textos apresentados pela Banca Examinadora como base ou estímulo, identificando a ideia principal de cada um deles, a fim de, posteriormente, aproveitá-las em sua redação. Caso tenha dificuldade de entender os textos, o estudante pode tentar parafraseá-los, ou seja, reescrevê-los com outras palavras. Essa técnica, de buscar sinônimos para as palavras, costuma ser bastante útil não só para facilitar a compreensão, mas também para estimular a imaginação e ampliar as possibilidades de abordagem do tema.

Maria Aparecida Custódioprofessora de redação do Objetivo


Bloqueio cinematográfico

Até Stephen King tinha medo da página em branco. Em pelo menos três de seus livros adaptados para as telas, o escritor discorreu sobre a familiar frustração de encarar uma folha vazia sem conseguir começar um texto. Nas histórias, a improdutividade do escritor era enlouquecedora. Literalmente. 

Em O Iluminado (1980) - adaptação de uma obra de King dirigida por Stanley Kubrick - o protagonista Jack Torrance, interpretado por Jack Nicholson, enfrentou a página em branco em sua máquina de escrever durante um mês. Mas King não foi o único perturbado pela necessidade de iniciar um texto. 

O escritor de programas de TV, Isaac Davis, personagem de Woody Allen emManhattan, também ensaiou diversas vezes (sem sucesso) ao introduzir um texto de abertura para o filme. Vale dizer que a questão do bloqueio criativo é recorrente na obra de Allen, a exemplo de Desconstruindo Harry (1997) e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010), entre outros filmes do diretor. 

Além de Allen, poucos foram tão acossados pelo fantasma da página em branco como Guido Anselmi, o cineasta vivido por Marcello Mastroianni em 8 ½, de Federico Fellini, que precisava escrever o roteiro de um filme que já começara a ser rodado, sendo contudo incapaz de fazê-lo.