Demais ou de mais?

28/08/2014 19:42

Como usar sem engano uma ou outra dessas formas traiçoeiras

Por Josué Machado

 
 

O título algo irônico da nota de jornal foi o seguinte: "Nada demais".

Esse é um caso em que a união ou separação das sílabas não interfere no conteúdo da mensagem, mas a diferença gramatical entre uma forma e outra determina o uso correto.A nota se referia à colaboração dada por determinada empreiteira a certo partido político. Os nomes não interessam aqui. O que interessa é o título: o melhor seria "Nada demais", como saiu? Ou "Nada de mais", como poderia ter saído?


Demais
1."Demais" em geral funciona como advérbio de intensidade e reforça o sentido de verbos, adjetivos e advérbios. Tem o significado de: muitíssimo, demasiadamente, em excesso, em demasia, excessivamente, intensamente:

Aquele candidato, que diz não ter dinheiro no exterior, mente demais. (Junto de verbo.)
O senador fala tolices demais. (Junto de adjetivo.)
O doleiro percebeu o erro tarde demais. (Junto de advérbio.)

2."Demais", como adjetivo = os outros:

Com exceção daqueles 300, os demais deputados têm a língua sob controle.

3. "Demais", como pronome indefinido = os mais, o restante, os outros, os restantes:

"Eu quero o meu!", disse o tesoureiro da campanha; quanto aos demais, que se danem!

4. "Demais", como conjunção explicativa = além disso:

Esqueceu o compromisso; demais, errou o caminho.

De mais
Usa-se a expressão "de mais" quando tem sentido oposto a "de menos". Significa: a mais, anormal, fora da conta, capaz de causar estranheza. Acompanha substantivos (às vezes ocultos) e pronomes como: alguém, algo, ninguém, tudo, cada, quem, nada. O uso de nada é comum na expressão "nada de mais":

Não via nada de mais nas intenções de Bush; afinal ele só queria dominar o mundo.
O tesoureiro recebeu dinheiro de mais.
"Ou a Fé, toda completa, cabal, absoluta, sem um átomo de menos, sem um átomo de mais... ou nenhuma fé." (Castilho, O presbitério da montanha, p. 116, citado pelo Aurélio).
Há detentos de mais no país.
A limonada ficou boa sem limão de mais nem cachaça de menos.
Os políticos têm de mais; o povo, de menos.


Note-se que o substantivo "benefícios", implícito depois de "têm", não precisa aparecer na frase para que se deva usar a locução "de mais" e não o advérbio "demais":


Os políticos têm (benefícios) de mais; o povo, de menos.

É óbvio, portanto, que o título da nota que inspirou esta conversa deveria ser "Nada de mais", com o significado de: nada de anormal, nada capaz de causar estranheza ("nada" aí é pronome com valor de substantivo).

Mas não é preciso guardar nomes técnicos para usar adequadamente essas formas. Uma regra prática costuma ajudar nos dois casos: substituir cada uma delas por seus sinônimos ou por seus antônimos (opostos) quando possível:

A Lenis é inteligente e bonita demais.
Aquele candidato eterno mente demais.

Percebe-se que, se "demais" for trocado por "de menos" nesses casos, o resultado será desconexo:

A Lenis é bonita "de menos".
Aquele candidato eterno mente "de menos".

O fato é que o assunto já foi longe "demais", porque não há nada "de mais" nele. Nem de menos.


Nota: Este texto é adaptação de capítulo de livro deste escriba, "Língua sem vergonha", Ed. Civilização Brasileira, 2011.

 

Fonte: http://revistalingua.uol.com.br/textos/blog-Josue/demais-ou-de-mais-326435-1.asp