Corações e Mentes

07/06/2011 21:18
Por muito tempo o órgão vital ocupou um lugar de destaque na lógica da linguagem

Aldo Bizzocchi

Por muito tempo se acreditou que o coração fosse a sede da mente. Como os pensamentos, em geral, suscitam sentimentos, e vice-versa, ambos deviam nascer no mesmo lugar. (A distinção entre razão e emoção só ganhou força com a filosofia cartesiana, no século 17.) E como os sentimentos em geral mexem com nosso sistema circulatório, causando aperto no peito, palpitações, taquicardia, rubor das faces etc., era natural relacionar o que se passava no espírito (o termo "mente" não era usual) com o órgão do corpo que mais parecia afetado por esses estados, ou seja, o coração.

Embora o anatomista Herófilo de Alexandria já observasse no século 4 a.C. que os nervos se ligam todos ao cérebro, que considerou o centro da inteligência, a crença generalizada era a de que a sede do espírito era o coração. Tanto que, ao mumificar os mortos, os egípcios extraíam o cérebro pelas narinas com a ajuda de um gancho metálico, para descartá-lo. Já o coração era retirado e preservado em natrão (substância à base de carbonato de sódio) num vaso ricamente decorado chamado canopo, para que o morto pudesse reutilizá-lo no além-túmulo. Outros povos que praticavam a mumificação, como os incas, retiravam o coração do morto e o conservavam em urnas funerárias, demonstrando que o órgão era objeto de respeito e veneração. Enquanto isso, o cérebro, como as vísceras, era jogado fora.

Também o Evangelho testemunha a convicção de que o coração é a casa da alma. Em Mateus 15:17-20, Jesus diz: "Ainda não compreendeis que tudo que entra pela boca desce para o ventre, e é lançado fora? Mas o que sai da boca, procede do coração, e é isso que contamina o homem. Pois do coração procedem maus pensamentos, assassínio, adultério, prostituição, furto, falso testemunho, blasfêmia. São estas coisas que contaminam o homem". Ou seja, nem o Filho de Deus conhecia a fisiologia do sistema nervoso.

Origem
Essa crença se reflete em diversas expressões em que o coração é visto como a origem dos pensamentos e das emoções. Um exemplo em português é a expressão "de cor", que significa "de memória": cor é "coração" em latim. Daí vêm as expressões equivalentes par coeur em francês e by heart em inglês. Aliás, a palavra "coragem", do francês courage, deriva de coeur: o destemor é uma das qualidades do coração.

Mas há muitas expressões relacionando o coração à mente: ter bom coração é ter boa índole, isto é, nutrir pensamentos e sentimentos positivos em relação aos outros. Ter atitude mental amigável é ser cordial (do mesmo radical do latim cor). Partir o coração de alguém é causar sofrimento psíquico. Não ter coração é ser insensível. Ficar com o coração apertado é sentir angústia. Ter coração mole é ser benevolente em excesso. Coração pesado é peso na consciência. Balançar o coração de alguém é provocar paixão.

Temos também expressões idiomáticas como "Quem vê cara não vê coração" (não vê o caráter). Em inglês, temos to be young at heart, "ser jovem de espírito" (na verdade, ter mente jovem). E a curiosa expressão As a man thinks in his heart, so he is, que significa "Conforme um homem pensa dentro de seu coração, assim ele é". Ou seja, o coração "pensa".

A antiga medicina acreditava que os estados de espírito fossem o resultado da combinação de humores, isto é, líquidos, que temos no corpo (daí falar-se em bom ou mau humor). Esses humores seriam quatro: a bile negra (responsável pelo temperamento melancólico ou atrabiliário), a bile amarela (donde o temperamento colérico), a fleuma (daí o temperamento fleumático) e o sangue (temperamento sanguíneo).

Cérebro
Hoje sabemos que pensamentos e emoções são produto do cérebro. A atividade mental é fruto de reações químicas que geram correntes elétricas nos neurônios. As reações são desencadeadas por neurotransmissores e hormônios. Por isso, muitos estados emocionais negativos são tratados com medicamentos (tranquilizantes, estimulantes, antidepressivos).

Um bom modelo de como a mente opera foi proposto pelo psicólogo suíço Carl Gustav Jung. Para ele, a mente realiza quatro processos cognitivos: dois de percepção (a sensação e a intuição) e dois de julgamento (a razão e a emoção). A coisa funcionaria mais ou menos assim: nossa mente recebe o tempo todo informações do meio exterior pelos sentidos (sensação) e também do inconsciente por meio de lembranças e insights (intuição). Ao chegar à consciência, essas informações produzem primeiro sentimentos (emoção) e, a seguir, pensamentos (razão).

Impulso
É pelo fato de a emoção ser mais rápida e poderosa do que a razão que muitas vezes agimos por impulso - o que por vezes garante a nossa sobrevivência. (Imagine se fôssemos ficar ponderando o que fazer diante de um carro na iminência de nos atropelar.) Mas nos leva a tomar atitudes impensadas das quais nos arrependemos. São esses sentimentos e pensamentos que motivam nossas ações, as quais geram novas percepções e julgamentos, num ciclo interminável de interação com o meio.

Portanto, todas as emoções e pensamentos são produto da mente, que nada mais é do que o cérebro em funcionamento, e não do coração. Essa constatação, se hoje já não causa mais espanto, deve ter abalado corações e mentes no passado. A crença de que a sede do espírito é o coração deixou vestígios na linguagem até os dias de hoje. E, cá para nós, ter boa mente ou cérebro mole, estar com a mente apertada ou o cérebro partido e, sobretudo, balançar a mente ou ser dono do cérebro de alguém não é nada romântico.

Aldo Bizzocchi é doutor em linguística pela USP e autor de Léxico e Ideologia na Europa Ocidental (Annablume)