Até onde vai o seu TOC?

04/05/2017 20:02

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Este texto contém perguntas e suposições. Muitas. E quase nenhuma resposta. Coisa de gente especulativa, provocativa, polêmica, à toa, como diria minha mãe. Mas penso que o papel dos que se propõe à ficção, pode ser este.

Pois bem. Tenho pensado bastante no problema social que se tornou este tal de TOC: Transtorno obsessivo compulsivo. De onde veio, como se instalou, enfim, peguei-me a pensar em mim mesmo. Comecei a lembrar da minha infância, quando já tinha essas “manias esquisitas”. Por exemplo, tudo começou de forma bem ingênua, quando não me permitia a pisar nas linhas que dividiam as pedras seculares dos passeios de Ouro Preto. Isso mesmo: Na minha cabeça de criança, pensava que iria me dar mal, se pisasse nas linhas. Então, saía tal como um saci, pulando para fugir das divisórias do azar, marcadas no chão.

Depois, cismei com o mundo binário do par ou ímpar. Meu universo maniqueísta dividiu-se entre o mal do mundo ímpar, e o bem do mundo par. Por quê? Não faço a menor ideia. Só sei que as palavras que eu via, tinham que ser divididas em letras, e tudo ficaria bem, se o somatório desse par. Fachadas de lojas eram dos meus locais preferidos para a façanha. Lembro ainda de uma época em que fazia questão de contar de novo, pra verificar se estava tudo bem com meu cálculo. As placas dos carros, então, eram meu deleite cotidiano. A soma dos números deviam dar par. Assim, seguia meu rumo seguro. Até “tive sorte”, pelo fato de os somatórios das placas dos carros que tive, de todos, somente um dar ímpar. Esse apego aos números pares evoluiu com o controle remoto. Acredite: Até hoje, prefiro o volume da TV em números pares.

Com a idade chegando, as coisas vão evoluindo. Ou não. Hoje, meu apego voltou-se para dentro de casa. Exemplo? Cito dois: A divisória picotada do papel higiênico deve estar intacta, sem sobras, nem aquele restinho que fica no rolo, perigosamente a cair no chão perfeitamente alvo do meu banheiro. As etiquetas das toalhas penduradas, devem estar pelo lado de dentro da dobra.

Logicamente, não cheguei ao (meu) cúmulo de exigir ordem alfabética nos CD’s, LP’s, nem nos livros da estante. Os garfos ficam deliciosamente desarranjados na gaveta da cozinha, as camisas teimam em não respeitar as cores nas gavetas, e linhas de estacionamento são frequentemente pisadas pelo meu carro, ou por mim mesmo. Também não lavo minhas mãos ou tomo banhos trocentas vezes por dia.

E de onde vem isso? Como surgem essa intolerâncias todas? Como ficamos assim? Não sei. Serei polêmico aqui neste espaço do pensar. Esse tipo de desordem mental nem sempre existiu na História. Assim como as intolerâncias alimentares que vemos também não existiam. O próprio tempo que nos cerca está intolerante conosco, passando rápido demais.

Minha resposta, talvez, esteja justamente no tempo que nos sobrava e agora não mais. Reflita, ponderado leitor: Eu tinha tempo sobrando demais: para curtir a infância, para ler e reler o que queria. Fui crescendo e continuei a tê-lo, a ponto de criar códigos de fuga ou “sabotagem” mental. É como se sobrasse tempo e eu criasse essas modas para enganar os pensamentos. Mas aí, com o tempo (ele de novo!), tudo foi ficando muito natural nos atos. Então, a meu ver, quando isso ocorre, começamos a ter problemas de repetição, e o transtorno se instala. Comece a pensar nas pessoas do interior, que comumente tem muitas tarefas diárias, se estas tem muita ou pouca propensão a esse tipo de doença...

Posso e devo estar falando um monte de baboseiras. Assim como tudo isso pode ser só ficção. E o papel desses tipos de texto talvez seja esse mesmo: Refletir sobre o que nos cerca. Por falar nisso, pense nas suas manias e como elas podem afetar seu cotidiano. Não vire refém delas. A vida é agora.

Abraço cordial!!!

 

 

Eduardo C. Souza  é professor de História, escritor romancista, contista e cronista. Escreve mensalmente neste espaço.