Amor na Periferia

29/10/2013 16:52

 

A lavadeira, Henri de Toulouse.

 

 

Em uma das periferias do Rio de Janeiro, vivia uma dona simples, já nos seus 30 anos, sem filhos, sem nenhuma família. Morava em uma casa de barro, sem TV, muito menos computador, mas  dona Maria José amava sua pequena e pacata casa. 

Dona Maria José não tinha escolaridade nenhuma, nunca tivera pais que se importassem com sua educação. Mas ela ganha a vida como pode, e no momento, só podia lavar roupas. Todo santo dia o senhor Afonso levava um balaio cheio de roupas sujas, dona Iolanda levava três, e Maria José lavava tudo com prazer, afinal, estava ganhando dinheiro e poupando seus amigos do tedioso trabalho de lavar roupas.

Em um dia caloroso, sem nuvem alguma no céu, Maria José estava voltando do supermercado quando avistou um homem diferente que andava sem pressa na rua. Era charmoso, alto e marcava uma presença. Esse aí deve ser rico, Maria José pensava, e sua roupa gritava a mesma coisa. Usava um mocassim preto, sem cadarços, uma calça social azul escura, um paletó abotoado e um chapéu borsalino que lançava uma sombra sobre seus olhos. Dona Maria José já não tinha 20 anos, mas sabia que ainda não era tão velha assim para arranjar alguém. Aproximou-se o máximo que pode do homem e começou a falar

− Bom dia senhor, o que o traz nesse local tão perigoso? Com certeza não é daqui. – disse Maria José, no seu tom mais educado possível com um sorriso estonteante. Não tinha muito dinheiro, mas sabia como se cuidar.

−Bom dia senhorita – disse o homem levantando a aba do chapéu. A primeira coisa que a dona viu foi o brilho azul dos olhos do moço, o azul mais profundo que já vira. Logo notou sua expressão, rugas no canto da boca e perto dos olhos, como se já tivesse rido muito na vida, mas agora sua face estava séria e rígida. – Não sou mesmo daqui, estou procurando uma imobiliária, quero um novo lugar para morar.

− Morar? Mas aqui? – disse Maria José com uma cara de espanto – Mas o senhor deve ter condições de morar em um local melhor!

− Sim, certamente tenho. Porém, eu procuro por novas experiências, quero aproveitar mais a vida, tanto que estou sem carro como pode ver. A senhora me parece muito simpática, qual é o seu nome? – Disse o senhor com seus olhos profundamente azuis vidrados no rosto de Maria José. “Mas como é tão atraente?” a moça pensava.

− Meu nome é Maria José, trabalho lavando as roupas do pessoal daqui da vila, moro em uma casa pequena na rua de baixo, e sei onde fica a imobiliária, se o senhor quiser me acompanhar...

− Mas é claro que sim – O homem se apressou para falar. – Me deixe ajudá-la com essas sacolas pesadas, uma moça como você não devia pegar tanto peso assim. A propósito, meu nome é Rodrigo.

E descendo a rua os dois foram conversando, cada um falando um pouco da sua vida. Maria José se sentia cada vez mais atraída por ele, não sabia se encolhia a barriga, se sentia nervosa ao andar, mas Rodrigo não se importava com isso, só enxergava uma linda moça com cabelos loiros, alguns mais brancos que outros, mas não estava gorda, tampouco magrela, só estava perfeita.

Eles chegaram na casa da dona por volta de meio-dia e estava um calor de matar. Maria José se apressou para ajeitar as poucas coisas que tinha em sua casa, algumas flores na mesa, tirar a poeira do sofá e abrir as cortinas. Rodrigo tirou seu chapéu e Maria José quase caiu para trás. Seus cabelos eram pretos, com alguns poucos fios brancos, mas não parecia um homem velho, muito pelo contrário, seu rosto, seu corpo brilhava com vida.

− Então... – dizia Rodrigo enquanto Maria José colocava gentilmente seu chapéu no sofá e as compras na mesa. – onde é que fica a imobiliária mesmo?

− É só subir esse morro aqui em frente e você vai ver a placa da imobiliária logo no topo, é bem difícil de perder. Mas já está quase na hora do almoço, por favor, fique mais um pouco, eu vou fazer frango.

−Eu não sei – Rodrigo mexia no cabelo como se estivesse preocupado com alguma coisa, mas não queria magoar Maria José. – Tenho muitas coisas para fazer ainda hoje e...

Maria José olhava tão esperançosa para aqueles olhos azuis que Rodrigo se sentia culpado só de pensar na possibilidade de sair e deixar a dona sozinha em casa. Ele acabou desistindo e simplesmente aceitou a proposta.

− Mas eu não posso demorar, ainda tenho muito o que fazer.

E esse foi o início de uma grande amizade, na qual um amor floresceu. Depois disso todos já devem adivinhar o que aconteceu. Rodrigo e Maria José acabaram namorando e morando juntos, em uma casa maior, onde um dia já foi a casa da dona Maria José. Ela não deixou seu trabalho de lavar roupas e  ainda era uma lavadeira. Todos os dias ainda vinham vários balaios de roupas, mas agora também tinha as roupas de seu namorado, que mereciam um pouquinho mais de carinho na hora de lavar.

Era uma noite quente nos subúrbios, Rodrigo estava tomando banho e Maria José estava lavando roupas no tanque, que ela fez questão de deixar mesmo com a reforma da casa. Enquanto trabalhava, milhões de pensamentos lhe subiam a cabeça. Ela nunca entenderá porque Rodrigo demorava tanto no banho ou porque ele trabalhava alguns dias mais do que outros, mas naquela noite ela estava para descobrir.

Ela conferiu os bolsos do paletó, como sempre fazia com todas as roupas, encontrou um clipe e um pedaço de papel sem nada escrito em um bolso. Quando foi checar o outro bolso, ela achou um cartão de uma empresa de transportes, Águias do Destino, por que esse nome era tão familiar? Não sabia dizer. Ela notou então que havia um bolso no interior do paletó, que estava puxado para baixo, como se um peso estivesse ali dentro. Ela esticou a mão para o interior do bolso e pegou um cano frio, com uma textura quase irreconhecível. Já sabia do que se tratava: “É um revólver!”. Ela ficou pensando com o rosto cheio de pavor sem se mover um centímetro.

Logo quando tirou a arma do bolso uma onda de emoções chegou na sua mente. Lembrara onde tinha reconhecido o nome Águias do Destino, tinha visto no jornal de duas semanas atrás, reportando um assassinato de um dos chefes do departamento. E, no mesmo instante, pedaços da notícia vieram a sua cabeça. “... brutalmente assassinado, com duas balas alojadas em seu cérebro...”, “... especulações dizem que pode estar envolvido com mafiosos...”, “... Águias do Destino perde mais um membro para a onda de assassinatos misteriosos a grandes influências no mercado...”.

Com lágrimas nos olhos, o rosto vermelho de raiva e medo, e a arma na mão, Maria José desceu as escadas da sua nova casa e bateu com força na porta do banheiro. Rodrigo não respondeu, já fazia mais de uma hora que estava no banho. A dona esperou e esperou, até que a porta se abriu e Rodrigo saiu dela, logo olhou com pavor para a arma nas mãos de sua amada.

Já chorando, sentou-se na mesa e jogou a arma para seu namorado, que até agora tinha ficado calado.

− O que significa isto? – gritou, com a raiva queimando seus nervos. – Que porcaria é esta, Rodrigo? Anda, me explica!

− Eu... eu não sei o que espera ouvir. – Rodrigo disse, segurando a voz, com medo do que poderia acontecer.

− Você não sabe o que eu espero ouvir? Ora, que tal a verdade? O que diabos este revólver estava fazendo no seu paletó junto com o cartão de uma empresa que teve um funcionário assassinado à balas?

− Ah, meu Deus... – passou a mão nos cabelos já mais brancos do que quando se conheceram.

− Maria, o que quer que eu diga não vai melhorar o que você está pensando de mim agora, mas se você quer que eu diga que não matei esse homem... eu sinto muito, mas não posso dizer isso.

Maria José desabou em lágrimas, já não sabia mais o que pensar, sua mente era um turbilhão de ideias se batendo. Rodrigo se apressou para segurá-la, mas ela empurrou sua mão e se abraçou para chorar. Rodrigo não sabia o que fazer, então virou-se e foi para a cozinha, lá começou a preparar uma sopa para a longa conversa que eles iriam ter.

Os dois estavam sentados na mesa da cozinha, um clima tenso estava no ar, e para Maria José, os olhos azuis de Rodrigo já não estavam tão azuis assim.

− Minha querida, eu quero que você mantenha a mente bem aberta para tudo o que eu vou dizer agora. Não quero que me julgue, só quero que escute. Eu tenho um trabalho, eu trabalho no restaurante como você sabe, mas eu tenho todo esse dinheiro por causa de outra coisa. Eu... eu posso apagar algumas pessoas para outras pessoas, caso elas precisem, por uma certa quantia... você está me entendendo?

− Espere, me dê um tempo para pensar. Você está querendo dizer que é um assassino que... outras pessoas contratam? Como espera que eu reaja a isso? – Maria José começou a levantar a voz, uma pequena veia cresceu na sua testa. – Vou chamar a policia!

− Não, meu amor, não! Muita calma, sente-se, tome a sopa que eu fiz para você, vai ajudá-la a acalmar!

Maria José se sentou, e Rodrigo se sentou junto com ela, que já estava com a mão no telefone, mas largou logo depois. Aquela pequena veia agora desapareceu, mas ainda era possível ver que estava tensa, parte querendo gritar com Rodrigo e parte querendo fugir.

− Está bem, está bem, ah... há quanto tempo você faz esses serviços? – Maria José disse a palavra “serviços” como se estivesse enojada com cada letra dela. – Me diga que é algo novo.

− Bem... creio que tenha uns três ou quatro anos.

− Trê... Três ou quatro anos? Você faz isso esse tempo todo e não me contou? Não acha que isso pode o matar? Me matar? – De repente Maria José abriu os olhos como se tivesse uma revelação, logo ficou vermelha de novo. – Você tinha assassinado alguém logo depois que nós nos encontramos, naquela rua do supermercado, um ano atrás?

− Eu tinha assassinado, mas eu estava realmente procurando uma imobiliária, e hora nenhuma eu menti sobre a sua personalidade, eu te amo Maria, você sabe disso, nunca duvide disso.

Maria José notou o desespero em cada uma das palavras que saíam da boca de Rodrigo, e cada uma delas era como uma facada em seu estômago. Ela  já não sabia o que fazer quando tomou uma decisão, pois sabia que aquilo que eles tinham era raro e que sempre há complicações nos relacionamentos, portanto, era a vez deles.

− O que eu posso fazer pra te ajudar?

− O quê!?

− O que eu posso fazer pra te ajudar com esses assassinatos? Quer uma parceira? – As lágrimas estavam beirando os cílios de Maria José, mas ela sabia que não havia outro jeito de manter a relação deles.

− Você não precisa fazer isso, sabe que não precisa.

−Eu quero! Não quero chegar todos os dias em casa sabendo que o meu namorado pode ter matado alguém. Não quero lavar a sua roupa encontrando sangue de outra pessoa ou armas de crime. Eu quero um namoro normal em que eu sei o que você faz e você saiba o que eu faço. Isso porque eu o amo, e se esse é o preço que tenho que pagar, eu pago!

Rodrigo levantou-se com tanta vontade que quase derrubou a mesa no chão, mas encaixou Maria José em seus braços e foi como se nada mais no mundo importasse, como se todas as preocupações dos dois tivessem sumidos, porque sabiam que apesar de tudo, estariam juntos.

E foi na próxima semana que as coisas começaram a dar errado. Maria José e Rodrigo agora estavam “trabalhando” juntos e estavam seguindo para o próximo local do crime, estavam indo para a Empresa Automobilística Sturizzi, onde os irmãos italianos Sturizzi trabalhavam. Uma  outra empresa precisava que eles fossem eliminados.

Logo quando entraram na empresa, eles conseguiram seguir para o setor financeiro e acharam os dois irmãos lá, que não tinham uma visão nada agradável. Os dois eram gordos, gordíssimos, cada um sentado em cada lado da sala, com várias rosquinhas e copos de refrigerante e suas mesas, lambuzando os papéis.

Foi muito simples assassiná-los, nem foi necessário usar as armas. A dupla simplesmente amarrou os dois no elevador com a cabeça para fora e botou o elevador pra funcionar. Logo, os irmãos perderam a cabeça, literalmente.

Sair foi a parte mais complicada, em que tudo deu errado. Quando os corpos sem cabeça chegaram no andar de baixo, os seguranças chamaram a policia que estavam fazendo ronda, e logo o prédio foi cercado. Os dois tentaram fugir, mas estava claro que tudo já estava perdido. Os policiais começaram a atirar, então Rodrigo instintivamente pensou na segurança de Maria José, e saiu pelos dutos de ar, jogando sua amada nas mãos dos policiais.

Baleado, Rodrigo fugiu pelos dutos até chegar em uma viela estreita, longe do local o suficiente para fugir. Foi para casa e tratou dos seus ferimentos. Um dia depois viu as notícias no jornal: “Mulher presa por assassinato de irmãos empresários...”, “... um dos assassinos ainda está sendo procurado pela...”. Rodrigo respirou aliviado, sabia que Maria José estava bem, sabia que nada de errado aconteceria com ela lá. A pena seria apenas de alguns anos, mas não muitos. Rodrigo esperaria ansiosamente a volta de sua amada para casa.

Cada dia na prisão foi um inferno para Maria José, uma pessoa do bem, que sempre foi boa com todos, matou por amor e agora estava naquele buraco, o que ela tinha feito de errado? Nem mesmo ela sabia, mas ela em momento algum se esqueceu de quem deu a ela a aventura que precisava. Mas ela sabia que fez a escolha errada se juntando a Rodrigo, sabia que o que tinha que ser feito era abrir os lindos olhos azuis para a realidade, buscar uma vida comercial, não assassinatos. E naqueles dias, Maria José decidiu o que faria quando saísse da prisão: ela iria libertar Rodrigo dessa vida criminal.

Com esse pensamento positivo, os dias passaram mais rápido, e chegou o dia da libertação de Maria José. Sua pena tinha sido reduzida por bom comportamento e por ajudar nas dependências da prisão, pois ajudava tanto na limpeza quanto na cozinha. Saiu e não viu a hora de se encontrar com seu amado que a esperava do lado de fora. Juntos eles foram para casa, ainda no subúrbio. Sentaram-se à mesa, comeram uma deliciosa pizza de quatro queijos e foram se deitar. Na cama riram, choraram, contaram vários casos um para o outro.

− Você me salvou uma vez – disse Maria José, com lágrimas nos olhos de tanta felicidade. – e agora é a minha vez de salvar você!

No dia seguinte, a reabilitação de Rodrigo começou. Maria José convencera-o de ler livros e contar para ela o que acontecia em cada um dos capítulos. Rodrigo começou a estudar engenharia mecânica, porque disse que ainda não estava pronto para abandonar os trens. E juntos, os dois presenciaram no decorrer de anos, o quão devagar o amor trabalha, mas viram sua eficiência.

 

Maria Fernanda Barbosa e Giordano Devêza, da EF82-9.