A arte de ler

29/05/2014 20:21

Para escrever com técnica, um autor precisa criar um método de leitura

Por Braulio Tavares

 
 
A primeira metade do trabalho do escritor é a leitura. Ninguém é escritor sem ler. É um vestíbulo que todo escritor tem de atravessar. Digo essa obviedade gigantesca porque a toda hora estou conversando com pessoas que querem ser escritores mas dizem que “não têm tempo para ler”, ou então folheio nas livrarias coisas escritas por pessoas que, na melhor das hipóteses, leem livros de receitas, guias de viagem e colunas sociais. 

Ler variadamente. Escrever literatura exige que se leia muita literatura, não somente no sentido de grande quantidade mas no de grande variedade. Romances, contos, crônicas, poesias: se você lê com frequência e prazer todos estes gêneros, são maiores as chances de que consiga escrever bem cada um deles. 

Dar ritmo
Muita gente escreve excelentes histórias mas tem dificuldade com as frases. Falta-lhes ritmo, visualização, sonoridade. Se esse contista tivesse o hábito de ler poesia, assimilaria técnicas que poderiam melhorar sua prosa e tornar mais visíveis as qualidades do seu enredo. Do mesmo modo, um romancista precisa às vezes da capacidade de sintetizar, típica do conto. Um romance é cheio de pequenas cenas que exigem a lisura e a rapidez do conto; o romancista que só lê romances perde isso de vista e estende desnecessariamente o episódio, por lhe faltarem pontos de referência para uma escrita mais compacta.

Reler prestando atenção. Quando lemos um livro pela primeira vez nossa atenção está voltada para a assimilação da história, para o entendimento dos fatos, a visualização do ambiente. Numa segunda leitura, já sabemos como o livro acaba, não temos mais dúvidas quanto a uma série de coisas, e podemos nos concentrar no exame da escrita. Só nessa segunda leitura seremos capazes de perceber detalhes que o autor plantou no início para preparar um efeito no final. Sabendo agora como a história termina, percebemos com mais clareza a evolução dos personagens, a preparação dos efeitos dramáticos. 

Anotar
Ler um livro duas vezes é como assistir  a uma peça de teatro da plateia e, noutro dia, das coxias do teatro, vendo o vai e vem dos técnicos, a chegada e saída dos atores, as pequenas providências de última hora. Ver o avesso da criação. 

Ler anotando. Para muita gente, o que vou dizer agora é sacrilégio, mas cada um tem seus métodos, e tudo que posso fazer é justificar os meus. Costumo ler de caneta em punho, sublinhando trechos importantes ou esclarecedores, destacando o nome de um personagem quando aparece pela primeira vez (nos romances de fantasia de 800 páginas é fácil esquecer quem é quem), traçando um quadrado em volta de parágrafos com informações essenciais que mais adiante serão necessárias. 

Muita gente costuma escrever comentários nas margens; Guimarães Rosa usava o sinal “m%” para dizer “meu, cem por cento”, ou seja, algo que era a cara dele. Também é muito útil, principalmente quando lemos textos de não ficção, textos informativos, fazer conexões entre dois trechos do livro; se algo que aparece na página 95 tem a ver com algo da página 208, ponho em cada uma delas uma observação remetendo à outra, ou a várias outras, caso haja.

Isto acaba nos levando a criar, naquelas últimas folhas em branco de todo livro, um índice remissivo para uso próprio. Faço isso sempre que encontro um grande número de informações importantes num livro de estudo (sobre cinema, história, ciência, etc.) e sei que um dia vou precisar delas.

A cada vez que aparece uma, anoto a página no final, e vou compondo um índice que fica mais ou menos assim: “Cinema e Surrealismo: págs. 21 – 58 – 60 – 134 – 227...”  Para indicar um trecho mais longo, 125-130 (as páginas em que o trecho começa e termina), ou, quando o assunto se prolonga, 125ss (que significa “página 125 e seguintes”).  

Só sabe a importância disso quem, um dia, fazendo com urgência um artigo ou uma tese, lembra que no livro de Fulano há várias referências ao assunto que lhe interessa, mas vai ter de passar uma noite inteira folheando um volume de 400 páginas em busca de frases específicas, sem lembrar exatamente onde estão.

Falei há pouco de “sacrilégio”, e explico: muitos amigos meus têm horror a riscar as páginas de um livro. Acham que isso estraga o livro, e de fato, hoje me arrependo de ter sublinhado com caneta hidrocor, com o entusiasmo da juventude, meu exemplar da 1ª edição de Corpo de Baile, de Guimarães Rosa, aquela em dois volumes.  Hoje, guardo intactas as edições mais preciosas dos livros importantes, e compro no sebo uma edição baratinha onde possa meter a caneta à vontade.

Ler pensando
Sempre digo a todo mundo: quando ler alguma coisa muito boa, pare, volte atrás, leia de novo, e pense: “Por que foi que achei isto tão bom?” O escritor produziu um efeito psicológico forte em você, pelo mero uso de algumas palavras. Tente descobrir como esse efeito foi produzido. Pegue um caderno e tente fazer imitações desse efeito. Imitar não é pecado, é estudo. Imitar é tentar reproduzir um efeito, e quando você dominar esse pequeno truque nem vai precisar imitar ninguém: anos depois, no momento da escrita de verdade, ele surgirá, noutro contexto, com outro material, para ajudá-lo a resolver um problema narrativo. Aliás, é bom fazer a mesma coisa (reler e examinar) quando achar algo muito ruim. “Por que não gostei disso?” Responder essa pergunta vai ajudá-lo a ficar mais ligado e não cometer o mesmo erro.
 
Fonte: http://revistalingua.uol.com.br/textos/102/a-arte-de-ler-309649-1.asp