A Sociedade das Mulheres - Parte II

24/10/2012 18:43

 

PARTE II

 

 

    Chegado o grande dia, Margareth estava acompanhada de várias pessoas, todas a vendo dar a luz pela última vez. O parto durou um dia e uma noite, mas ninguém saiu de seu lado. Ela deu a luz a duas crianças.

    Gêmeos não eram muito comuns, o que fez da última vez de Margareth ainda mais especial. Anestesias, aparelhos de ultrassom, testes de gravidez ou qualquer coisa do tipo eram proibidos. A vida era um mistério, era indecifrável, era natural. A dor era necessária para existir felicidade.

    Mas um problema viria a surgir. Pequenos, chorando, cobertos de sangue, espreguiçando-se, experimentado a vida pela primeira vez. Estavam sendo cobertos para se proteger do frio. Era praticamente imperceptível a diferença. Mas alguém viu, alguém gritou, alguém percebeu.

    Ela dera a luz a uma menina tão linda quanto a essência de Gaia. Seus olhos eram acinzentados como o céu em um dia de nuvens carregadas. Sua boca era tão vermelha quanto a chama mais viva do mais profundo circulo do inferno. Seus ralos e finos fios de cabelo eram tão negros quanto o abismo mais sombrio. Sua pele, mesmo avermelhada, exibia uma mistura de terra e água, era morena e pálida. Mas, ao contrário do que todas esperavam, ela também dera a luz a um menino. Não um andrógeno, de aparência feminina, mas com sua característica reprodutora masculina. Ele tinha traços vistos pela última vez em uma época quase esquecida. Nenhuma mulher viva se lembrava de ter visto um ser assim. Ainda recém-nascido, a testosterona era perceptível. Sua fisionomia não era leve, e sim grave, pesada, definida.

    Um conceito antigo ainda perdura, e existe desde que tudo existe: diferenças acarretam conflitos. Isso é fato, todas as pessoas temem o que é novo, o desconhecido. A concepção de o novo ser errado, de que o que foge aos padrões preestabelecidos não deve existir. E então a liberdade termina. Não importa em qual sociedade, em qual mundo. Elas não sabiam como proceder, o que deveria ser feito. O que isso significava? Que consequências isso poderiam acarretar para uma sociedade já construída em torno do que já era conhecido?

    Era lei, afinal o protocolo ainda era necessário. O fruto da última barriga de qualquer mulher era inalterado, não influenciado, intocado. Era a representação de um fim, na alegria de um começo. Era o equilíbrio, e isso era prezado. Não eram autorizadas a fazer nada. Aceitar, independentemente. Margareth os amava, ela não percebeu. Posicionou cada um em um seio, seus olhos demonstravam a sua alma. Eram esferas iluminadas pelos raios que a vida emanava.

     O tempo caracteriza pessoas. A genética não tem direito de definir. O jeito correto de grafar destino, é tempo. Ele diz o que deve ser feito, ele diz o que cada um é, ou se tornará. Ele dita sentimentos, pensamentos, e o que resta é acatar.

    Margareth faleceu. Deixou a vida em obras, não chegara a tempo de concluir. Deitada nos braços fortes, com veias a mostra e pelos espalhados por toda sua extensão, um aroma de terra, suor, de chão. Segurava em mãos fortes, grandes, calejadas, dedos grossos. Dormiu em um dia de chuva, não acordou para ver a manhã de sol. Olhos acinzentados a fitavam, e ela nem percebeu. Cada um em um canto, era impossível não se olharem, seguravam o choro. Deitaram-na rodeada de flores, em um lugar onde a terra absorveria a sua energia e cobriria seu corpo. As mulheres da sociedade das mulheres não rezavam. Os dois deram as mãos, se aconchegaram e oraram para qualquer deus, qualquer um que a confortasse, que levasse Margareth ao equilíbrio. Foram embora coma impressão que Margareth sorria.

      Eles dormiam juntos, todas as noites, e algumas vezes até durante o dia.

 

Fernanda Moreira