A Metáfora Ocupa seu Espaço

08/10/2011 21:27

 

Pesquisadores concluem que temos afinidade com determinados grupos de metáforas em cada campo de atuação


Carmen Guerreiro e Luiz Costa Pereira Junior


As metáforas estão em conversas e textos cotidianos de uma forma mais especializada do que se imagina. Pesquisas recentes constatam uma relação estreita, por exemplo, entre metáforas econômicas e a área da saúde ("O mercado está na UTI", "Brasil recebe alta do FMI", "Um superávit primário saudável deve superar 4,5% do PIB"; etc.). No campo da política, tornou-se comum o apego ao repertório da guerra e do esporte ("O candidato sofreu um nocaute nas urnas", "O escândalo foi um golpe para o ministro", em que a noção de disputa está em primeiro plano.

Exemplos de afinidades desse tipo são indicadores da importância do uso de metáforas na vida atual. É o que atesta o norte-americano James Geary, que se notabilizou como editor da coluna "Quotable Quotes" da revista Reader's Digest, em seu livro I is an Other, um rico cruzamento entre pesquisas de linguagem e saber empírico, que põe em relevo a influência da metáfora em decisões e expectativas. 

Intenções
Em entrevista a Língua, Geary diz que não há outra forma de comunicar algo abstrato (ideias, pensamentos, sentimentos, emoções ou conceitos) senão por metaforização. Não bastasse a abundância de figuras na fala (dizemos 6 metáforas por minuto, aponta uma pesquisa noticiada por Geary) e no texto (de 10 a 25 palavras usadas, uma é metáfora), Geary mostra que as afinidades entre tipos de expressões metafóricas e certas áreas do conhecimento e da atuação humana revelam intenções cristalizadas no idioma.

- Metáforas conceituais nos permitem entender algo complicado e não familiar, como o funcionamento da economia, por exemplo, por meio de algo menos complicado e mais familiar que nós já entendemos (como eu me sinto quando estou doente). Por isso, metáforas de saúde são usadas quando falamos de economia - explica Geary. 

Segundo Geary, a metáfora é uma forma de pensar antes de ser um modo de usar palavras. O linguista George Lakoff e o filósofo Mark Johnson já sugeriam, em Metaphors We Live By, de 1980, que elas não só tornam nossos pensamentos mais vivos e interessantes, como estruturam nossas percepções e compreensão.

Ao usar uma metáfora, mesmo sem atentar para o fato aderimos a uma cadeia de analogias filiada a uma visão de mundo. Quem pensa em casamento como um contrato é levado a um conjunto de expectativas que desemboca na preferência por certos tipos de metáforas; quem pensa no casamento como uma "equipe" ou um sacramento religioso será levado a aderir a outro gênero de metáforas, diz a dupla de autores. 

Contextos
"Devorei o livro" é coerente só no contexto em que se consideram fatos culturais como alimentos (da alma). Alguém quer "alcançar a felicidade" porque intuitivamente associa a postura ereta a um estado emocional positivo (a felicidade é algo acima de nós). Numa cultura em que o trabalho é pensado como linha de produção, abundam metáforas ligadas a dinheiro para retratar o tempo que passa. O tempo encarado como mercadoria é prática recente na história, impensável antes da era industrial. Do mesmo modo, em culturas em que o diálogo é visto só como conflito, a faculdade da argumentação será expressa por metáforas de guerra ("Sua crítica atingiu o alvo", "Sua opinião é indefensável", etc.), mas nas culturas em que a relação humana for vista de outra maneira, argumentar pode ser ancorado, por exemplo, numa espécie de dança em que se valoriza o equilíbrio.

Aristóteles definiu a metáfora como "processo de atribuir a alguma coisa um nome que pertence à outra". Metáforas ajudam também a compensar fraquezas da comunicação - é mais fácil à inteligência pensar por imagens concretas e espaciais do que por abstrações ou estados de espírito. "Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima" usa um movimento físico concreto para materializar um sentimento.

- O fundamento da metáfora é o de estabelecer semelhanças entre situações diferentes. Quando temos duas situações que apresentam analogias em seus componentes e na forma como esses componentes se relacionam, podemos usar as palavras de situações conhecidas para nomear uma situação nova - afirma o gramático José Carlos de Azeredo, professor de língua portuguesa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. 

Concretude
O filósofo Jean Lauand, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, se espelha em São Tomás de Aquino para concluir que o ser humano só consegue entender e explicar o mundo a partir da esfera concreta. 

- Mesmo para comparar as coisas espirituais, partimos do que é material, do que conhecemos - diz Lauand, para quem o papel da metáfora é fazer alusão "gráfica", no sentido espanhol e inglês do termo, que significa "ilustrativa", que se visualiza na mente. 

Assim, diversas áreas se atraem para emprestar significados, imagens e alusões a outras. O esporte, sugere Lauand, empresta expressões como "sinuca de bico", da sinuca, e "jogar a toalha" e "peso pesado", do boxe, para áreas como a política, que tendemos a ligar ao jogo e à guerra. 

Para Geary, devemos nos importar com as metáforas porque elas criam expectativas que nos afetam. Agentes econômicos, por exemplo, tendem a descrever movimentos financeiros com metáforas que levem os consumidores a uma dada reação. Se dizemos "A Bolsa de Valores subiu", vemos um ente inanimado apresentado como senhor de uma ação deliberada, a do ser vivo perseguindo e superando um objetivo. Já a descrição de movimento contrário tende a ser feita por metáforas com objetos ("A Bolsa caiu como um tijolo"), não como "coisa viva".

O norte-americano James Geary: metáforas criam expectativas e afetam decisões
 
Decisões
Por ativar analogias, o uso de uma metáfora pode interferir em decisões. Geary exemplifica a questão com um experimento da Universidade de Michigan. Pesquisadores questionaram dois grupos de pessoas sobre o meio ambiente. Em um, perguntaram se elas acreditavam que o aquecimento global estava ocorrendo; em outro, fizeram a mesma pergunta, substituindo "aquecimento global" por "mudanças climáticas". Como resultado, 86% dos autodeclarados democratas disseram acreditar que o meio ambiente estava mudando, mas a maior parte dos republicanos endossou as mudanças climáticas, não o aquecimento. 

- "Aquecimento global" carrega conotação mais forte de culpa humana, o que é questionado por conservadores. Em outras palavras, devemos ter cuidado porque metáforas diferentes engatilham respostas diferentes - explica Geary. 

Para Márcia Regina Mariano, professora de língua portuguesa e linguística da Universidade Federal de Sergipe e doutora pela USP, quando a metáfora é usada num texto informativo, por exemplo, o objetivo do texto deixa de ser neutro e busca adesão ao discurso. 

- Em "Oposicionista vê golpe do DEM"; "Governo reage"; "Partido dribla o governo", os termos "golpe", "reage" e "dribla" remetem ao campo de significação da luta, do jogo, levando à concepção de política como um jogo de interesses, limpo ou sujo. Se esse discurso está certo ou errado, não nos convém discutir agora, mas é certo que não é um discurso neutro - afirma. 

Azeredo observa que, nas áreas em que há preocupação com a precisão e objetividade, não se observa com frequência o uso da metáfora. 

- Já em áreas como a filosofia e a política o comentarista fala do seu ponto de vista, e recorre à metáfora para explicar o funcionamento ou fazer uma interpretação - diz ele. 

Geary diz que reagimos a metáforas sem percebê-las como tais, mas quando nos defrontamos com elas certos mecanismos se enunciam. Nossa mente tende a sentir que elas criam padrões: não só apontam semelhanças verificáveis, como criam as semelhanças que de outro modo não se estabeleceriam. A inteligência tende a estabelecer também uma "sinestesia conceitual" (sinestesia é o estímulo de um órgão sensorial percebido por outro órgão, raiz de expressões como "O silêncio é doce", "O vestido agitou a festa"), mas o processo será marcado por dissonância cognitiva (não ignoramos o significado original mesmo quando ele é usado para representar outro significado). Ao dizer que a pessoa atraente é "quente", compreendemos um conceito no contexto de outro, sem que, com isso, percamos a dimensão dos conceitos originais.

Fundamentos
Todos entendem, diz Geary, uma frase como "Alguns trabalhos são prisões", metaforicamente real, mas que, para ser literalmente verdadeira, só se fosse aplicada a guardas de presídios. Mas há mais dificuldade em rejeitar frases com metáforas do que as literalmente falsas, diz ele. 

- A metáfora é impressionantemente precisa. Nada é mais exato do que uma metáfora bem feita. Mesmo as mais mundanas contêm descrições detalhadas que ajudam as pessoas a processarem nova informação e a entender novas ideias - diz.

Entre a precisão e a força expressiva, a regra de ouro no uso da metáfora é a ética, afinal. Num mundo que se renova e cada frase pode ser projetada com malícia, o desafio é criar metáforas para descrever novas sacadas e assuntos. Mas com o máximo de precisão possível. 

Mente e Cérebro

Metáforas de alimentos

Muitas são usadas para descrever o mundo cultural e do pensamento


A mobilidade das ideias

 

Metáforas veem ideias como objetos carregáveis

Ele deu uma ideia genial para a campanha.
Vou levar sua sugestão ao diretor.
É difícil colocar em palavras o que sinto.
Torceram (a direção das) minhas palavras.
Foram palavras pesadas.
Suas ideias são ocas.
Ninguém entendeu. A fala dele não teve sentido.


Outras relações

Meio ambiente e sentimentos

"Yves Saint Laurent abraça a sustentabilidade"
(Closet Online, 27 de maio de 2011)

"Aprenda a cuidar da natureza com consciência"
(Ana Karla Rodrigues - 360Graus.com.br, 22 de abril de 2003)
 

Futebol e guerra

"Dupla no topo da artilharia da Copa do Brasil"
(INfoesporte, 9 de junho de 2011)

"Ronaldo marca quatro e passa Messi na luta pela Bota de Ouro"
(Sportinveste Multimédia, 7 de maio de 2011) 


Sentimentos

Metáforas de saúde

Elas costumam ser usadas para descrever relacionamentos


Orientação espacial

Metáforas de orientação no espaço costumam ser usadas para descrever situações emocionais ou estados de espírito

Quero alcançar a felicidade (pois está acima)
Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima
Ele tem futuro (está sempre à frente)
Sou pra cima, sempre de alto-astral
Estou pra baixo
Ele caiu em depressão
Eu me afundei depois do rompimento
Ele está por cima
Ela está nas nuvens

 


Política

Metáforas de guerra

Usamos analogias de batalhas para nos referir a discursos, conversas e argumentações, e disputas políticas







"Luiz Sérgio diz que oposição deu ´golpe` ao aprovar medida".
(Tânia Monteiro - O Estado de S.Paulo, 2 de junho de 2011)

 

"Dilma foi rápida no gatilho"
(Villas-Boas Corrêa - Blog do Villas-Boas, 9 de junho de 2011)
 


Economia

Tempo é dinheiro

Cultura burguesa e capitalista nos acostumou a pensar o tempo por meio de metáforas relacionadas ao dinheiro





A saúde da economia 

Metáforas do ramo se relacionam à saúde e a estados da matéria

 

"Amplo acesso ao consumo oxigenou as veias da economia". 
("O advento da era da razão", Gaudêncio Torquato - O Estado de S.Paulo, 2 de janeiro de 2011)

"Colapso no setor imobiliário congela construções em Dubai". 
(The New York Times, 7 de outubro de 2010)

"Economista-chefe do FMI defende câmbio com flutuação gerenciada"
(Fabio Graner e Daniela Amorim - Agência Estado, 27 de maio de 2011)

"Bradesco é o 8º banco mais sólido do mundo"
(Daniela Barbosa - Exame.com, 13 de maio de 2011)


Sinestesia conceitual

Um dos testes usados pelo norte-americano James Geary busca ilustrar a sinestesia conceitual, a capacidade que temos de compreender um conceito no contexto de outro. Diante de metáforas, tendemos a criar imediatamente um padrão de relação entre entidades diferentes, como quem percebe por órgãos dos sentidos distintos. É esse processo que cria metáforas como "O silêncio é doce". 

Vamos ao teste. Cada uma das imagens abaixo tem um nome. Uma delas se chama Buba. A outra, Kiki. Quem é quem?


 


Dissonância cognitiva

No teste de Stroop, identifique rapidamente a cor das palavras abaixo

 

 

Fonte: http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12397