Sara Begname

 

eu tenho tudo, tudo na língua.

  Descamando a poesia minha língua segue. Sinto o grande músculo úmido passar pelas escamas da palavra. Minha língua é sensível e me revela detalhes sobre essas frases que nenhuma outra parte do corpo me revelaria. Ela é sonora: me conta a palavra, me canta a música e decifra a memória.

 Movendo-a lentamente passo por tudo, desde as superfícies brancas até os subúrbios obscuros...passo por regiões quentes e outras mais frias; por pessoas gentes e outras mais vazias; por durezas e coisas macias...sigo. Na poesia não há ninguém que não escreva e ninguém que não escute. O ruído dos versos é ensurdecedor...eles pedem tudo, tudo. Na poesia não há ninguém que não invente e ninguém que não travessia: e caminhos tem aos montes, dentre versos e rimas, existem as pontes...

  - Mas o que tanto escreve, mulher?

  - Eu escrevo o que eu tenho, invento o que eu não tenho e num começo dou um pulo e um suspiro de alívio: estou viva, e  respiro.

                  Sara Meynard Begname

Artigos

O Ovo

03/06/2012 16:59
        Eu estava lá, sentada na sala, no sofá vermelho. O sol nascia, e pequenos raios entravam pelo feixe da cortina. Eles exibiam a poeira do ar de cidade grande. As pessoas começavam a acordar e fazer seus barulhos. Escutava o vizinho de cima andando, dando seus...